A carta que uma vítima do Holocausto escreveu ao filho momentos antes de morrer

Vilma Grunwald morreu em julho de 1944 numa câmara de gás em Auschwitz.
11.05.18

Momentos antes de morrer numa câmara de gás em Auschwitz, em julho de 1944, Vilma Grunwald entregou uma carta de despedida a um dos guardas para que este a fizesse chegar ao marido, Kurt, e aos filhos que também tinham sido enviados para o mesmo campo de concentração.

A carta foi mesmo entregue ao marido. Kurt Grunwald morreu com 67 anos, em 1967, e foi após a sua morte que o filho Frank, também conhecido por Misa, encontrou a carta.

"O papel já estava amarelado. Mal a vi percebi que era a letra da minha mãe", contou ao jornal Sky News.

Durante décadas o sobrevivente não conseguiu ler o manuscrito.

A história de Frank

Frank Grunwald tinha 11 anos quando foi mandado para Auschwitz, em 1943, com os pais e o irmão mais velho.

"Éramos o segundo lote de 5 mil presos enviados para aquele campo", revela acrescentando que, em Setembro, o primeiro lote transportava a mesma quantidade de pessoas.

A família foi mantida inicialmente num acampamento de uma família checa, uma manobra para mostrar à Cruz Vermelha que os judeus checos eram bem tratados, e mais tarde os nazis fizeram uma segunda seleção do grupo de presos em que a família estava inserida.

"O meu irmão John, que era quatro anos mais velho que eu, era deficiente e foi escolhido para morrer", conta Frank. Quando Vilma descobriu que o filho mais velho ia ser enviado para a câmara de gás decidiu ir com ele. "Ela não suportava a ideia de ele entrar na câmara de gás sozinho", justifica.

Frank explica que a mãe entregou a carta a um guarda mais velho que "não sofreu a lavagem cerebral pelo regime nazi" e por isso aceitou passar o manuscrito a Kurt.

O pai contou ao menino a existência da carta, mas, com apenas 12 anos, Misa não quis ler a carta. Só quando Kurt morreu é que Frank voltou a encontrar o papel com as palavras da mãe.

"E quando finalmente a li achei muito perturbador. Surpreendi-me com o quão positiva e calma estava na carta", relata.

"As palavras corajosas de minha mãe não tinham raiva ou ódio contra os nazis e eram tão positivas. Estava mais interessada na vida do meu pai e na minha vida do que na sua própria situação", acrescentou Frank.

A emocionante carta

Para Frank não fazia sentido manter a carta guardada. Queria que esta fosse uma memória de todos os que morreram e passaram por Auschwitz. "Pessoas que nunca magoaram ninguém ou desejaram algo de mal a alguém e foram mortas nesses campos" afirma.

O manuscrito está em exibição no Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos.

"Para ti, o meu único amor. Estamos no isolamento à espera da escuridão. Considerámos a possibilidade de nos escondermos, mas decidimos não o fazer já que sentimos que seria impossível. Os famosos camiões já estão aqui e estamos à espera que comece. Estou completamente calma.

Não te culpes pelo que aconteceu, foi o nosso destino. Fizemos o que podíamos.

Mantem-te saudável e lembra-te das minhas palavras de que o tempo vai curar tudo - se não completamente, pelo menos parcialmente.

Cuida do rapazinho de ouro e não o estrague muito com seu amor.

Fiquem bem, meus queridos. Eu estarei a pensar em ti e no Misa. Tenham uma vida maravilhosa. Temos de entrar nos camiões.

Para eternidade, Vilma."

pub

pub

Ver todos os comentários
Para comentar tem de ser utilizador registado, se já é faça
Caso ainda não o seja, clique no link e registe-se em 30 segundos. Participe, a sua opinião é importante!