A vida do homem que recusou ser marechal

Isabel Tavares narra facetas menos conhecidas no livro ‘Ramalho Eanes - O Último General’.
Por Leonardo Ralha|26.11.17
A vida do homem que recusou ser marechal
A beijar uma criança durante uma visita oficial à Roménia Foto Alfredo Cunha/Lusa
Seleção de excertos por Leonardo Ralha

Eleito Presidente da República pela primeira vez aos 41 anos, António Ramalho Eanes tem um percurso ímpar, agora contado por Isabel Tavares no livro ‘O Último General’.

Vocação

"Eu queria ser médico, sacerdote ou militar. Quando disse à minha mãe que gostaria de ser sacerdote, ela respondeu que isso é que não podia ser, que queria ter netos", diz António Ramalho Eanes, fazendo um meio-sorriso, como que a vê-la.

Militar

Decide-se pela Infantaria. Virá a explicar a escolha com o facto de esta ser a arma que permite quase olhar o outro olhos nos olhos, o combate corpo a corpo, aquele que é mais atractivo para um rapaz de 18 anos e também aquele que é, de certa forma, o mais romântico.

Ultramar

Hoje, Ramalho Eanes diz que só tem de prestar contas a Deus. "E aos meus pais, quando eram vivos. Por isso, quando ia em comissões de serviço, quando me afastava mais do que algumas semanas, gostava de lhes deixar uma carta", um hábito que cumpria com rigor.

25 de Abril

No Norte de Angola, Eanes perde o contacto com o Movimento dos Capitães. O 25 de Abril chega-lhe pela rádio e pelos recortes da imprensa que Manuela, entretanto, lhe vai enviando. Ironia do destino, o curso da Academia Militar que gera mais militares de Abril é o de Eanes. "Estou convencido que, se Eanes estivesse em Portugal, provavelmente teria desempenhado as funções que couberam a Otelo", considera Vasco Lourenço.

RTP

Poucos sabem ou lhe reconhecem isto, mas Eanes é de certa forma o ‘pai’ do ‘Sr. Feliz e Sr. Contente’. Foi ele que os levou para a RTP. Destas discussões, da vontade de ver as pessoas com um sorriso na cara, surge o nome de Raul Solnado, primeiro, que se transforma numa espécie de consultor da direção de programas, e de Nicolau Breyner, depois, que Eanes decide contratar.

11 de Março

"No dia 11 de Março à noite são feitas propostas para uma série de saneamentos e de prisões. Uma delas é para Eanes ser preso. (...). Mais tarde veio a saber-se que participou nas reuniões de 9 e 10 de Março e não denunciou a movimentação que estava em marcha. Isso faz com que, pelo menos, tenha sido conivente com a situação", acusa Vasco Lourenço. Nessa noite, os ânimos estavam ao rubro e foram feitas propostas radicais. "Alguém sugere o fuzilamento de Eanes. Descobrimos [a Associação 25 de Abril] recentemente uma gravação da reunião."

25 de Novembro

Tomé Pinto recorda o momento em que, com Eanes, teve de se deslocar, de helicóptero, do Regimento de Comandos da Amadora para a Presidência da República. Eanes tinha sobre a perna uma Walter e perguntou-lhe se ele ia armado. Respondeu que não; afinal, iam para a Presidência da República. Logo ali, Eanes atirou-lhe um chorrilho de ‘piropos’. O piloto aterrou no parque junto à Calçada da Ajuda, mesmo em frente à porta de entrada da residência do Presidente. Quando vem recebê-los, é a custo que o chefe da casa civil, convence Eanes a guardar a arma no camuflado.

Campanha presidencial

"Apercebi-me de que um tipo que estava em cima de um muro ia tentar alvejar o carro, tive essa percepção. Depois a segurança actuou, deu-lhe um tiro e ele caiu. Impressionou-me imenso. A segurança deu vários tiros para o ar para dispersar e cortaram os ramos dos plátanos, que nos caíram em cima. E o general Eanes, que ia sentado ao lado do motorista, subiu para o tejadilho. O tipo de bigode que está a agarrar as pernas do general para ele não cair sou eu", descreve [Henrique] Granadeiro.

Morte de Sá Carneiro

Eanes é dos primeiros a visitar o local do desastre, no bairro das Fontainhas, em Camarate. Depois, o funeral é de uma violência extrema. Por se tratar de uma morte e por toda a comoção que envolve. Eanes é insultado – assassino é o mais suave dos epítetos –, empurrado, atiram-lhe objectos, fruta, moedas.

Palácio de Belém

Com Eanes havia um misto de modo de vida e noção de decência, às vezes levada a extremos, numa altura em que por diversas vezes Portugal tinha recorrido a ajuda externa. Os carros de serviço eram controlados aos fins-de-semana. Se algum faltava, tinha de haver uma boa explicação e os quilómetros eram apontados e passados a pente fino.

Cavaco Silva

Têm formalismos semelhantes e não gostam de mentiras. Aqui, como na preparação de discursos, despachos, no rigor em geral, são muito parecidos. O Conselho de Estado, onde Eanes ocupa uma cadeira de ex-Presidente da República, aproxima-os ainda mais.

Patente

Recusa a ascensão à mais alta patente da hierarquia militar. "Fi-lo sem falsas modéstias. Não entendo que tenha dimensão para ser marechal, até porque os outros dois foram propostos por mim [Costa Gomes e Spínola]. Se dessa promoção resultasse um acréscimo de interesse para as Forças Armadas, teria aceitado."

Reforma

A Caixa Geral de Aposentações decide que a pensão que recebe como general reformado e a subvenção como ex-Presidente da República são incompatíveis. E suspende a pensão de general. A sua pensão de general esteve congelada cerca de 20 anos. Eanes nunca se queixou. Até que, um dia, Manuela Eanes viu-se obrigada a vender um apartamento que tinham na Costa da Caparica, herança do pai (...). Ramalho Eanes não recebeu 1,3 milhões de euros porque abdicou de receber a reforma militar com retroactivos.

BIOGRAFIA AUTORIZADA MAS NÃO PARTICIPADA
Ramalho Eanes prescindiu de ler livro antes da publicação
Oitenta pessoas, entre as quais Manuela Eanes, falaram com Isabel Tavares para a jornalista escrever uma "biografia autorizada mas não participada" do primeiro Presidente da República eleito após o 25 de Abril. 

Já este não quis ler ‘Ramalho Eanes - O Último General’ (D. Quixote) antes de o livro chegar às livrarias, prescindindo do contraditório. Será lançado nesta quarta-feira, às 18h30, na Reitoria da Universidade de Lisboa.

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