CM Não Esquece
Vítimas dos incêndios revoltadas com abandono do Estado

Vítimas dos incêndios revoltadas com abandono do Estado

Estiveram hospitalizados, voltaram a casa e sentem-se abandonados. Falta ajuda para a recuperação.

"O meu marido morreu queimado; o meu filho sofreu queimaduras em 87 por cento do corpo e já fez 14 cirurgias. Regressou a casa, não pode trabalhar e não tem apoio para nada: nem para a fisioterapia nem para os cremes caros que tem de aplicar". Maria de Lurdes Nascimento, de Midões, Tábua, sente que a vida a atraiçoou: "Ninguém merece isto. Depois do que aconteceu, temos passado meses de angústia sem o apoio de ninguém", diz.

Vítimas dos incêndios revoltadas com abandono do Estado


As queixas são comuns a outras vítimas, particularmente dos distritos de Coimbra e Viseu, os mais afetados pelos incêndios de 15 de outubro, que atingiram sobretudo o Centro do País, causando 50 vítimas mortais e 70 feridos. Alguns dos que sobreviveram sentem-se abandonados pelo Estado após terem recebido alta dos hospitais ou das unidades de reabilitação por onde passaram. A maioria já regressou a casa, estando internados apenas três, um dos quais uma menina, de 11 anos, de Oliveira do Hospital.

As vítimas ouvidas pelo CM queixam-se da falta de ajuda para aquisição de produtos que têm usar. É nesta fase que se encontra André, 25 anos, filho de Maria de Lurdes Nascimento. "Saiu do hospital mas precisa que o vistam e façam tudo por ele, o que levou a minha nora a desempregar-se. Ninguém na casa ganha, as despesas são enormes e não há quem ajude", lamenta a mãe.

O filho tem de usar um fato especial durante dois anos. Os custos com o primeiro foram suportados pelo Estado. "Ele engordou e vai ter de comprar outro, que custa 5 mil euros. Mas só pagam a parte de cima. Ainda não mandou fazer a parte de baixo porque não tem dinheiro para isso", conta.

Fátima Brito, de Catraia de São Paio, Oliveira do Hospital, também sente falta de ajuda: "Perdi a minha irmã no fogo e a minha sobrinha, de 11 anos, continua hospitalizada. Têm sido meses dolorosos. No início tivemos ajuda de psicólogos. A partir daí nunca mais ninguém nos perguntou se precisávamos de alguma coisa".

Fátima Brito sente que a família tem a vida suspensa e conta que o cunhado, também ele ferido, "mudou-se para Coimbra para ver a filha todos os dias". Está agora ansiosa para ver a reação da sobrinha Leonor quando regressar.

Ficou sete meses sem trabalhar e sem receber
José Carlos Pereira, de Bobadela, Oliveira do Hospital, esteve 20 dias internado no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, após sofrer queimaduras nas mãos e na cara. Regressou a casa e esteve sete meses "sem receber nada porque tinha acabado de mudar de empresa. Tinha saído de uma e ia entrar na outra e a Segurança Social entendeu que não tinha direito".

Vítimas sem dinheiro para comprar medicação habitual
Nuno Pereira, do Movimento de Apoio às Vítimas dos Incêndios de Midões, diz terem chegado à associação queixas de vítimas com dificuldades: "Há casos de feridos ligeiros que perderam o seu sustento e agora não têm como comprar os produtos ou mesmo a medicação para doenças crónicas. Isto pode criar situações complicadas".

"Já estive morto. Pior do que isto não é possível"
"Se soubesse o que ia passar não me tinha levantado quando o fogo me apanhou". Antonino Santos, de Travanca de Lagos, Oliveira do Hospital, diz nunca ter sofrido tanto em 74 anos de vida: "Já estive morto. Pior do que isto não é possível". Regressou a casa após 9 meses de internamento. Só pede ajuda para o transporte para ir à fisioterapia.

Trabalhos de limpeza com críticas no Pinhal de Leiria
Os trabalhos de limpeza e desmatação que estão a decorrer no Pinhal de Leiria, por iniciativa do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), estão a ser alvo de críticas, sobretudo por parte de moradores no concelho da Marinha Grande. Manuel António, da Embra, reclama o início "tardio" dos trabalhos, que se concentram "junto das estradas principais".

Outro morador, José Agostinho Cardoso, da Ordem, defende "uma limpeza em condições", já que "andam a limpar nas bordas e depois deixam cá o lixo todo à mesma".

No sábado à tarde, o CM assistiu ao trabalho de uma equipa, que fazia desmatação nas bermas da estrada que liga as praias da Vieira e de S. Pedro de Moel.

Em 2017, um incêndio destruiu 86% do Pinhal de Leiria.

Reclusos cortam mato no Algarve para prevenir fogo
Sete reclusos da cadeia de Olhão estão a integrar uma operação de limpeza e desmatação, na estrada que liga Moncarapacho ao Cerro de S. Miguel, para prevenir incêndios. A ação decorre até 31 de agosto e surge no âmbito de um protocolo entre o município algarvio e o estabelecimento prisional, coordenado pelos Bombeiros Municipais de Olhão. "É muito gratificante a nível de prevenção e é uma oportunidade de criar saídas profissionais para estes homens", explicou ao CM Luís Gomes, comandante dos bombeiros de Olhão.

PORMENORES
Intervenção profunda
Está prevista uma "intervenção profunda" no Pinhal de Leiria ainda este ano e em 2019, através de projetos financiados pelo Fundo da Floresta, diz o ICNF em nota enviada ao CM.

Ações de gestão
Após o incêndio de outubro de 2017, foram implementadas "ações de gestão da floresta" nuns locais; e noutros "ações de gestão de combustível e de preparação do terreno", tendo em vista a reflorestação.

Investimentos
Antes do incêndio devastar o Pinhal de Leiria, estava previsto um investimento de 1,6 milhões de euros, numa área de intervenção de 1631 hectares. No total, são 11 mil hectares.

Receitas
Em 2016, a venda de material lenhoso e resina rendeu ao Estado 1,3 milhões de euros. No ano anterior, as receitas totalizaram 992 mil euros.

Estradas secundárias continuam cortadas
As estradas secundárias que atravessam o Pinhal de Leiria e ligam as povoações continuam fechadas ao trânsito. Em causa, o perigo de queda de árvores, que estão queimadas mas se mantêm de pé, tendo de ser cortadas e retiradas.

Mato ainda por cortar à entrada da cidade
Ainda há várias zonas onde o mato se mantém vigoroso e quase a ocupar a estrada, nomeadamente junto a uma das entradas na cidade da Marinha Grande. Quem reside perto receia que novos incêndios voltem a causar prejuízos.

Ministério da Saúde remete para ARS
O CM confrontou o Ministério da Saúde com as queixas, que remeteu para a Administração Regional de Saúde do Centro, que não respondeu em tempo útil. 

Incêndios causaram 50 mortos e 70 feridos
Os incêndios de outubro de 2017 causaram 50 mortos e 70 feridos. Os mais graves, sobretudo com queimaduras, mantêm-se hospitalizados ou a fazer tratamentos prolongados. 

Chamas destroem 800 casas e 500 empresas
A violência das chamas em vários concelhos do Centro causou a destruição de 800 habitações permanentes e quase 500 empresas, para além de extensas áreas florestais. 

Ao cair da noite havia 20 estradas cortadas
Para proteger as populações, as autoridades encerraram várias estradas. Ao cair da noite havia cortes em mais de 20 locais, entre os quais a A1, A11, A25, IP3 e IP6.