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"A minha voz não é a que sai da garganta. É a que sai da caneta"

Miguel Araújo regressa com novo disco 'Giesta', mais um álbum de histórias ao pormenor.
Por Miguel Azevedo|18.05.17
"A minha voz não é a que sai da garganta. É a que sai da caneta"
Miguel Araújo Foto Mariline Alves

Quem ouve os seus discos fica sempre com a ideia de que é o Miguel Araújo que está sempre ali exposto naquelas canções. A sua vida é assim tão farta em histórias ou é a sua imaginação que é muito fértil?
(risos). Eu acho que a minha pessoa começou a ficar mais exposta nas minhas músicas, a partir de uma determinada altura, até porque no início não era bem assim. O que acontece é que eu comecei a reparar que existe uma certa verdade musical quando o pano de fundo também é verdadeiro. Mais do que personagens imaginadas, por exemplo, a maior parte das vezes que eu atiro uma personagem para dentro de uma música, quase sempre existe uma pessoa concreta por detrás dela que passou pela minha vida.

Quando fala da mãe Maria e do pai José, por exemplo, são os nomes dos seus pais?
Não. Aí é mesmo a Maria e o José do presépio (risos). Geralmente os nomes nas minhas canções não correspondem à realidade, assim como às vezes as coisas também são um bocado exageradas por mim. Em muitos casos a minha imaginação ajuda a fermentar as coisas. Neste disco, por exemplo, eu falo de uma tia-avó que morreu quando eu tinha uns sete anos, mas depois o resto é tudo imaginado por mim. São fictícias mas baseadas em coisas reais. O engraçado é que muita da música que eu gosto também fala muito de universos particulares.

Como por exemplo?
Olha! Lembro-me do disco dos Rio Grande que eu adoro. A determinada altura o João Monge diz: 'Subi a Serra da Adiça'. Eu não sei o que é a Serra da Adiça e nem onde fica mas aquilo toca-me por ser uma coisa muito detalhada. Se calhar se ele dissesse "subi à montanha" ou "subi à Serra" já não me tocava tanto. É engraçado porque especificar torna, paradoxalmente, as coisas mais universais.

Porque é que existe essa atração pelo detalhe?
Não sei, acho que é capaz de ser a forma de qualquer pessoa entrar na vida do artista. Fornece um imaginário, uma referência. Há uma música do Randy Newman em que ele diz que cresceu em Willow, em Garden District. Eu não sei onde fica Willlow nem Garden, mas também não interessa porque aquilo fica bem na música. E eu acho que as pessoas se identificam com isso com o detalhe. Havia um escritor que aconselhava os mais jovens a não dizerem "árvore", mas a especificarem o tipo de árvore.

Nas suas músicas fala de dentes de leite, da chiclete, do sumol, tudo detalhes. Tudo é passível de ser contado e cantado numa canção?
Eu acho que sim. Há músicas sobre as coisas mais estapafúrdias. Eu acho que tudo é matéria para uma boa música. Acho que as canções não têm que ser necessariamente sobre aqueles temas universais como o amor ou o ciúme. Há músicas sobre coisas corriqueiras que por detrás têm um universo de mil e uma coisas. Quando na música '1987' eu digo que "o mundo é por aqui" porque falo no Shopping Center Dallas e Brasília, por detrás disso está esta nossa característica muito provinciana de dar aos nossos estabelecimentos uns nomes assim muito épcios, como o café Majestic ou Imperial.

Até por causa dessas referências todas, sente que criou um estilo de escrita muito particular e facilmente identificável como sendo Miguel Araújo, mesmo quando as suas palavras não são cantada por si?
Uma vez um tio meu ligou-me porque tinha ouvido uma música na rádio que tinha cara de ser minha, apesar de eu não a estar a cantar (risos). E isso é de facto o maior elogio que me podem fazer. A minha voz não é a que sai da garganta, é a que sai da caneta. A minha voz é autoral e eu fico muito contente quando a reconhecem. Prefiro isso a dizerem-me que tenho uma boa voz. Mas eu não criei nada de novo. Devo muito, por exemplo, à escrita do Carlos Tê, do João Monge, do Chico Buarque, do Bernard Taupin que escreveu as músicas dos Elton John.

E a escrita apareceu na sua vida antes ou depois da música?
Depois. Eu só comecei a escrever quando comecei a fazer canções. Até aí as minhas redações resumiam-se ao magusto e às férias grandes (risos). 

E como é que começou a tocar?
Quando comecei a interessar-me por música foi quando comecei a tentar imitar o que faziam o Eric Clapton e o Mark Knopfler. Até se tornou uma coisa obsessiva. Passava horas a estudar o que os outros tocavam. Acho que a escrita só me bateu quando ouvi pela primeira vez a dupla Rui Veloso/Carlos tê. Eram músicas ao nível do que de melhor se fazia lá fora, mas que falavam por exemplo, da Areosa que era mesmo ali ao meu lado.

E foi nessa altura que começou a escrever?
Quer dizer eu tentava (risos). Tinha 15 ou 16 anos e durante muito tempo não saía nada de jeito. Eu acho que no início isso é capaz de acontecer com toda a gante, o que acontece é que eu fui mais paciente (risos). Foi com as primeiras músicas dos Azeitonas que comecei a ganhar mais traquejo. Eram canções quase paródias e muito desprendidas, mas isso acho que fez desbloquear qualquer coisa em mim. Na verdade eu acho que só lá para os 24 anos é que despertei para esta coisa de fazer canções. Andei anos a tentar sem sucesso. Devo ter andado dez anos a deitar fora milhares de músicas. É possível que tenha deitado fora coisas fixes (risos).

Quer dizer que este processo de fazer canções afinal não é tão fácil quanto parece para o Miguel Araújo?
Não. É angustiante. O Chico Buarque fala de uma "descida aos infernos". E às vezes é mesmo asssim. O Leonardo Cohen contou uma vez um episódio em que andava de cuecas a rastejar na alcatifa de um hotel à procura de uma palavra que lhe faltava para uma rima. O António Lobo Antunes descreve-se a si próprio como um boi a dar marradas na parede à procura de palavras. Enfim, é preciso ter muita paciência e perseverança.

Disse uma vez que, no início, a sua relação com a sua voz  não foi pacífica. Essa questão já está resolvida?
As pessoas acham que quando digo isso eu estou a armar-me em falso modesto, mas não é. Eu sempre tive muita facilidade com os instrumentos, mais do que os meus amigos, mas eu não cantava por timidez e porque era daquelas pessoas que nas férias ficava rouco logo ao segundo dia (risos). Anatomicamente acho que o meu organismo nem está muito vocacionado para isto. E depois como era muito tímido, a timidez prendia-me muito as cordas vocais. O que acontece é que com o tempo fui encontrando o lugar da minha voz.

É verdade que os seus pais não acreditavam muito na sua carreira?
O meu pai não gostava era que eu andasse sempre agarrado à guitarra e não estudasse. Eles não alentavam muito a minha carreira, mas eu próprio não via a carreira na música como um futuro porque na minha vida não havia exemplos de artistas em áreas nenhumas. O que existia era tradição de tocar mas a um nível amador, porque os meus tios têm uma banda. Só que depois eles são médios ou vendedores de seguros, portanto, com profissões honradas e dignas.

E que relação têm os seus filhos com a sua música?
O mais novo, o luisinho, não liga nada. O mais velho, o Joaquim, que tem cinco anos já é completamente obcecado por tudo o que é instrumentos. Conhece as minhas músicas todas e dos Azeitonas. Gosta mais dos Azeitonas e diz que as minhas são músicas para velhotes

Giesta é o nome da localidade onde cresceu. Como era esse local?
É um local normal dos subúrbios do Porto. Hoje tem muitos prédios, mas quando o meu avô fez lá uma casa aquilo era uma zona rural, com vacas a pastar. O meu avô era médico e fez ali uma casa para estar sossegado. Em poucos anos deu-se um crescimento desenfreado de prédios. E foi ali que eu cresci numa casa que tinha um jardim onde dava para andar de bicicleta e jogar futebol. A minha avó tomou conta dos treze netos quando as mães iam trabalhar. Foi uma infância normal e é por isso que eu acho que as pessoas se identificam com as minhas canções porque a maior parte das infâncias também não tiveram nada de especial.

Depois da loucura que foi o ano passado os 28 Coliseus com o António Zambujo, sente que ganhou ali créditos para fazer o que lhe der na gana?
(risos) Créditos não sei, mas eu ganhei um à vontade em palco que não tinha. Aquela rotina deu-me um traquejo enorme e ainda por cima com o Zambujo, que é um tipo muito boa onda. E depois é um cantor fabuloso. Lembro-me dele a cantar o 'Foi Deus', com as veias da garganta a letejar e eu a olhar para ele estarrecido. E ele é tão tranquilo que isso depois passava para mim. Ao terceiro concerto era como se estivesse num café a falar com amigos. Mas eu não penso em créditos, até porque hoje é tudo muito passageiro.

Tanto tempo depois já deu para digerir? O que é que foi aquilo? que loucura foi aquela?
Nós não sabemos, nunca saberemos e ninguém pode dizer que sabe explicar aquilo. O Zambujo já tinha feito um Coliseu e eu outro, portanto os dois juntos daria, quanto muito,… dois. E deu 28. Eu acho que sem se saber bem porquê aquele espetáculo tornou-se viral como o vídeo daquele tipo que caiu de skate, o ‘sai da frente Guedes’. Aquilo foi uma viralização da via real. Aquilo nem sequer era um espetáculo de excelência musical. Era só um serão musical de dois tipos com duas guitaras.

Aquilo vai repetir-se?
Vai repetir-se certamente, mas os 28 Coliseus nunca vão voltar a acontecer.

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