Kundera acusado de delação pró-PC

Aos 21 anos, quando estudava na Universidade de Praga e era militante do Partido Comunista checo, o escritor Milan Kundera terá denunciado à polícia uma colega de universidade por ela receber outro jovem no seu quarto. A delação custou uma pena de morte a Miroslav Dvoracek, ex-oficial da Academia Militar de Praga onde estudava para piloto aviador. Perseguido pelo então recente regime comunista e obrigado a passar à clandestinidade para combater o totalitarismo . A condenação foi depois comutada em 22 anos de trabalhos forçados e Dvoracek, de 80 anos, vive hoje doente na Suécia. Segundo a mulher, ele não duvida ser vítima de denúncia, mas não sabe de quem , nem quer sabê-lo. O escritor já desmentiu, por seu lado, a colaboração com a polícia.
14.10.08
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Kundera acusado de delação pró-PC
“Nada disso aconteceu”, diz o escritor sobre o processo de denúncia de que é acusado e levou a uma pena de morte Foto direitos reservados

A revelação de Milan Kundera como delator surgiu ontem no site do Instituto Checo de Estudo dos Regimes Totalitários (www.ustrcr. cz) e aponta a um escritor com vida cheia de contradições. Antes de se celebrizar como crítico dos comunistas, foi por duas vezes militante do PC e são frequentes as personagens de delatores nos seus livros. A ruptura com o sistema aconteceu em 1970, dois anos depois de a invasão das tropas soviéticas esmagarem o socialismo à Dubcek.

O processo sugere que a denúncia seria contra a colega Iva Militka. A mulher de Dvoracek alinha na ideia. Diz que os jovens comunistas da época eram fanáticos e conclui: "Kundera é um bom escritor, mas não tenho nenhuma ilusão a respeito dele como ser humano".

PERFIL

Milan Kundera, 79 anos, é filho de família da classe média com ligações à música. Na Universidade estudou Literatura e Estética. Militante do PC checo, foi afastado em 1950, mas depois da morte de Estaline voltou ao partido em 1956 e manteve-se até 1970. Vive em França desde 1979.

"A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER"

A revelação de um caso de denúncia que custou 22 anos de trabalhos forçados numa mina põe Milan Kundera, nascido a 1 de Abril de 1929, sob suspeita de comportamento. Para avaliação fica a forma como depois de emigrar para França em 1979, com a Checoslováquia ainda sob domínio comunista, o autor passou a escrever em francês, facto considerado traição pelos seus compatriotas. Remeteu-se, por outro lado, a um silêncio que ontem quebrou para afirmar à TV checa que desconhecia o caso e que os factos relatados não aconteceram. O processo aponta que foi um ‘Milan Kundera nascido a 1 de Abril" quem levou à prisão do resistente. No escritor destaca-se o humor corrosivo dos seus livros e o fresco de um tempo, 1968, que a adaptação ao cimema de ‘A Insustentável Leveza do Ser’ espalhou pelo Mundo.

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