Crepúsculo de um deus em Wimbledon?

Pelo segundo ano consecutivo, Roger Federer ficou pelos quartos-de-final do torneio que o lançou para o estrelato e este ano já não iguala Pete Sampras. O júnior português Frederico Silva também se despediu da prova; quinta-feira é dia de meias-finais femininas.

29.06.11
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Crepúsculo de um deus em Wimbledon?
Roger Federer ficou pelos quartos-de-final do torneio Foto EPA

Voltou a não haver esplendor na relva: Roger Federer, considerado o tenista com o estilo de jogo mais adaptado aos rápidos courts relvados do All England Club e principal favorito à conquista do título de Wimbledon (sobretudo após a forma evidenciada na lenta terra de Roland Garros) foi surpreendido pela segunda vez consecutiva nos quartos-de-final do mais prestigiado torneio do planeta.

Foi em Wimbledon que o campeoníssimo suíço ganhou o primeiro dos seus 16 títulos do Grand Slam. Impôs-se por seis vezes em sete finais consecutivas na Catedral do Ténis entre 2003 e 2009; em 2010, quedou-se pelos quartos-de-final num desaire diante de Tomas Berdych em que sentiu alguns problemas dorsais, mas este ano só pode queixar-se de ter tirado ligeiramente o pé do acelerador depois de se ter colocado em vantagem por dois sets a zero. Em cada um dos 178 anteriores encontros do Grand Slam em que ganhou as duas primeiras partidas o suíço saiu sempre vencedor, mas pelos vistos há sempre uma primeira vez para tudo – e o francês Jo-Wilfried Tsonga também elevou o seu nível de jogo para acabar por triunfar por 3-6, 6-7, 6-4, 6-4 e 6-4.

“É duro perder assim. Mas acho que o Jo jogou de maneira excelente”, admitiu Federer, que cumpre em Agosto o seu 30º aniversário. “Depois de ter conseguido quebrar-lhe o serviço logo no início não me lembro de ter visto outro break-point no serviço dele até ao fim do encontro. Mas estive perto da vitória – tive as minhas hipóteses, só que ele saiu-se com excelentes jogadas e agarrou todas as suas oportunidades. Até acho que joguei bem, por isso custa ser afastado do torneio nestas circunstâncias. Mas esta derrota vai ser mais fácil de digerir do que a do ano passado. Sinto-me a jogar bem, feliz, saudável; vou trabalhar mais duramente do que nunca e vou regressar extremamente forte para a Taça Davis”. Frederico Gil e Rui Machado que se cuidem, porque terão defrontar uma “besta ferida” a partir da sexta-feira da próxima semana na eliminatória entre a Suíça e Portugal, em Berna…

TSONGA LA BOMBA

Em encontros decididos no quinto set, Roger Federer apresenta um saldo de 16 vitórias para 13 derrotas, com uma percentagem de 55,2% não muito lisonjeira que o põe no 14º lugar de uma tabela liderada por outros super-campeões como Rafael Nadal (83,3% de sucesso em quintos sets) e Bjorn Borg (79,3%). O desaire “precoce” do suíço em Wimbledon significa também que não poderá igualar – pelo menos este ano – o recorde de sete títulos pertencente ao americano Pete Sampras. “Adoro igualar qualquer recorde que o Pete tenha, mas não são os recordes dele que me fazem correr. O que eu queria era ganhar o torneio”. E em resposta à questão sobre se seria o fim de uma era, fez questão de referir: “Não creio. Joguei demasiado bem e não se tratou de um desaire na segunda ronda. O Jo é que jogou extremamente bem”.

O carismático francês estava radiante: “Senti-me tão bem no court. Achava que estava num sonho, mesmo quando estava a perder por dois sets a zero senti que ainda estava dentro do encontro. E servi de maneira incrível. Senti-me confiante e melhorei muito no aspecto mental, estive sempre concentrado e nunca entrei em pânico. Só pensava em bater na bola”. E acrescentou: “Foi uma vitória ainda mais especial porque foi contra o Roger Federer em Wimbledon, algo só comparável a derrotar o Rafael Nadal em Roland Garros.

Diante de Federer, Tsonga esteve intratável no serviço: alinhou “apenas” 18 ases, mas sobretudo arrecadou 73 por cento dos pontos no primeiro saque e uns elevados 67 por cento no segundo serviço – enfrentando um único (!) break-point, perdido logo no arranque do duelo. Para além disso, o seu serviço-canhão, quando não lhe dava a conquista imediata do ponto, deixava-o com ascendente na jogada e logo de seguida matava o ponto com a sua bombástica direita ou vinha para a rede aplicar o seu atleticismo no vólei ou no smash.

TRIUNVIRATO E D’ARTAGNAN

O desaire de Federer impediu que, tal como sucedeu em Roland Garros, estivessem presentes nas meias-finais de Wimbledon os quatro primeiros do ranking mundial – o chamado Quarteto Fantástico, ou os Quatro Grandes. E se no romance de Alexandre Dumas os Três Mosqueteiros eram afinal quatro, não há dúvida de que Jo-Wilfried Tsonga poderá fazer figura de D’Artagnan para substituir Roger Federer perante um temível triunvirato (nota semântica: no ténis não há “troikas” de mau agoiro)…

O adversário do francês nas meias-finais será o sérvio Novak Djokovic, que só perdeu um encontro (!) na presente temporada – diante de Roger Federer nas meias-finais de Roland Garros – e que despachou em quatro partidas o australiano Bernard Tomic, seu ocasional parceiro de treinos e mais jovem quarto-finalista em Wimbledon desde Boris Becker em 1986. Djokovic chegou a estar em desvantagem por 3-1 no terceiro set, mas afinou o seu jogo para triunfar por 6-2, 3-6, 6-3 e 7-5; basta-lhe aceder à final de Wimbledon para se tornar número um mundial pela primeira vez na sua carreira.

Quanto ao actual número um mundial Rafael Nadal, que até pode revalidar o título e mesmo assim perder a liderança no ranking ATP, também precisou de quatro sets para se desembaraçar do americano Mardy Fish por 6-3, 6-3, 5-7 e 6-4. O espanhol irá protagonizar a outra meia-final de sexta-feira com o herói local Andy Murray, que ultrapassou facilmente o jogador preferido da sua mãe Judy, Feliciano “Deliciano” Lopez, por 6-3, 6-4 e 6-4.

Perspectivando o acesso do escocês à final (o que significaria o quebrar de uma malapata que dura desde Bunny Austin, em 1938) e uma eventual vitória (o último britânico a ganhar em Wimbledon foi Fred Perry em 1936), já há bilhetes para domingo a valerem 13 mil euros…

FREDERICO FEDERER PORTUGUÊS

Roger Federer despediu-se de Wimbledon na companhia de um rapaz português que é fisicamente parecido com ele e que o idolatra, se bem que seja esquerdino e tenha um estilo mais parecido com o de Rafael Nadal: Frederico Silva.

O jovem das Caldas da Rainha sucumbiu nos oitavos-de-final da prova júnior face ao melhor serviço do longilíneo croata Mate Pavic, mas deu luta e não desmereceu no desaire por 4-6, 6-4 e 6-3. Horas depois perdeu na variante de pares ao lado do chileno Matias Sborowitz face ao duo formado pelo sueco Stefan Lindmark e pelo sérvio Nikola Milojevic (7-6 e 6-4). “Foi um bom torneio. Vim para cá para tentar passar uma ronda na relva e cheguei aos oitavos-de-final”, admitiu Kiko – cujos 16 anos ainda lhe permitirão competir nos sub-18 nas próximas duas épocas.

O saldo de Kiko das Caldas só pode ser considerado positivo. Nas duas primeiras rondas mostrou a maturidade e a combatividade necessárias para recuperar no marcador após ceder o primeiro set tanto diante do austríaco Patrick Ofner como face ao burundi Hassan Ndayishimiye – impondo o seu jogo baseado numa elevada cadência a partir da sua pancada de direita em topspin e também mostrando alguma destreza no jogo de rede. Na manhã desta quarta-feira, e diante do também canhoto Mate Pavic, aconteceu o contrário: foi o croata oitavo cabeça-de-série que deu a volta ao resultado, soltando-se sobretudo a partir do momento em que quebrou o saque ao jovem português aos 3-3 na segunda partida. O break também surgiu madrugador no início do terceiro set e a partir daí Mate Pavic geriu bem a vantagem, servindo bem e vindo para a rede acabar os pontos no vólei.

ALTAS, LOIRAS E DE LESTE

As meias-finais de singulares senhoras realizam-se nesta quinta-feira e Maria Sharapova lidera o quarteto de possantes loiras como sendo a tenista mais velha (24 anos), mais laureada (três títulos do Grand Slam), mais celebrada (é a mais mediática desportista do planeta) e até mais alta (1m88, embora todas as outras também estejam acima do 1m80).

A escultural russa que os tablódes britânicos apelidam de ‘Sereia da Sibéria’ saltou para a fama quando ganhou na Catedral do Ténis em 2004, com apenas 17 anos, e iniciou a edição deste ano como principal favorita à conquista do título; terá de confirmar as suas credenciais na segunda semifinal diante da também possante Sabine Lisicki – a primeira germânica (embora de ascendência polaca) a atingir as meias-finais de Wimbledon desde a sua gloriosa antecessora Steffi Graf, em 1999. A jornada começa no Centre Court pelas 13 horas com a primeira semifinal, que coloca frente-a-frente a bielorrussa Victoria Azarenka e a checa Petra Kvitova.

RESULTADOS DOS QUARTOS-DE-FINAL MASCULINOS

Rafael Nadal (Esp,cs1)-Mardy Fish (EUS,cs10), 6-3, 6-3, 5-7 e 6-4

Andy Murray (GB,cs4)-Feliciano Lopez (Esp), 6-3, 6-4 e 6-4

Roger Federer (Sui,cs3)-Jo Wilfried Tsonga (Fra,cs12), 3-6, 6-7, 6-4, 6-4, 6-4

Novak Djokovic (Ser,cs2)-Bernard Tomic (Aus,q), 6-2, 3-6, 6-3 e 7-5

QUINTA-FEIRA: MEIAS-FINAIS FEMININAS A PARTIR DAS 13H

Victoria Azarenka (Bie.cs4)-Petra Kvitova (Che,cs8)

Maria Sharapova (Rus,cs5)-Sabine Lisicki (Ale,wc)

Enviado-especial do Correio da Manhã no Twitter: http://twitter.com/MiguelSeabra

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