Roger Federer e Andy Murray fazem história na final

Foram duas meias-finais resolvidas em quatro sets que ditaram o elenco ideal para uma final absolutamente histórica qualquer que seja o lado para onde o título irá cair. Roger Federer, que já se tornou no primeiro tenista a jogar oito finais em Wimbledon, poderá não só igualar o recorde de sete títulos de Pete Sampras como recuperar a liderança do ranking mundial para roubar precisamente ao americano o recorde de semanas no topo da hierarquia mundial; Andy Murray anulou uma espera de 74 anos para se tornar no primeiro britânico a jogar uma final de Wimbledon desde Bunny Austin em 1938 e vai procurar ser o primeiro a chegar ao título desde Fred Perry em 1936.
06.07.12
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Roger Federer e Andy Murray fazem história na final
Andy Murray agradeceu aos céus a chegada à final de Wimbledon Foto Gerry Penny/EPA

À partida para a 126ª edição de Wimbledon, e numa perspectiva puramente associada a recordes e a marcos históricos, a final ideal seria precisamente uma cimeira entre Roger Federer e Andy Murray - agora que ficou cumprida, e também tendo em conta que o torneio olímpico de ténis também se vai jogar no enquadramento do All England Club, o Reino Unido já está em ebulição – as filas para obter um simples ground pass para aceder ao clube no domingo (e ver a final no ecrã gigante) vão atingir quilómetros de comprimento e o preço dos bilhetes postos a circular no mercado negro ou na internet já está a atingir várias dezenas de milhar de euros.

O Grande Prémio de Formula 1 realiza-se em Silverstone às 13 horas de domingo, mas todas as atenções estar centradas na Catedral do Ténis a partir das 14h00.

COMER A RELVA, MORDER O PÓ

Há um ano, Novak Djokovic ascendeu pela primeira vez à liderança do ranking mundial ao vencer as meias-finais de Wimbledon e depois de derrotar Rafael Nadal na final arrancou a relva do Centre Court e comeu-a – confessando depois que tinha sentido um instinto primitivo naquele momento de absoluta felicidade. Desta feita mordeu o pó da zona pelada do fundo do court, onde passou a maior parte do encontro com um Roger Federer afoito e concentrado como há muito não se via.

O suíço serviu muito bem (o sérvio tem a melhor resposta ao serviço mas só conseguiu devolver 56 por cento dos saques do adversário) e alternou na perfeição as acelerações na pancada de direita com as desacelerações com a sua esquerda cortada; só teve uma pequena quebra de intensidade no arranque da segunda partida, quando sofreu um break madrugador que lhe acabaria por custar esse set.

Nunca antes dois rivais tinham jogado tantas vezes entre ambos em torneios do Grand Slam (11; seguem-se Nadal-Federer e Lendl-McEnroe com 10!) ou em semi-finais de torneios do Grand Slam (nove; seguem-se Connors-McEnroe com sete!) e Djokovic vinha ganhando claro ascendente no mano-a-mano ao impor-se em seis dos últimos sete embates desde o início de 2011, mas nunca antes se tinham defrontado na relva ou em Wimbledon e o hexacampeão Federer, que nas sete anteriores meias-finais jogadas no Centre Court não havia cedido um único set, actuou como se estivesse na sua sala de visitas: impôs-se por 6-3, 3-6, 6-4 e 6-3.


O terceiro set apresentou o melhor ténis que se viu até ao momento no torneio, com vertiginosas trocas de bola. Mas o helvético fez a diferença e o sérvio soçobrou durante alguns minutos entre o final desse terceiro set e o arranque da quarta partida. Federer apareceu sóbrio na sala de imprensa porque sabe que ainda tem mais um encontro para jogar: "Houve muitas jogadas resolvidas com uma ou duas pancadas nos primeiros sets, o encontro ficou menos físico e mais explosivo também por se tratar de relva. Consegui ser muito agressivo e fiquei surpreendido por não estar nervoso. Vou ter pressão, mas vou ter a oportunidade de jogar pelo título e pela liderança do ranking".

Já Djokovic apareceu resignado e com a voz a mostrar que estava constipado ou engripado, mas não quis apresentar desculpas quando lhe perguntaram: "Os últimos dias têm sido difíceis mas não quero falar disso; ele mereceu ganhar e aquela baixa entre o fim do segundo set e o início da quarta partida foi-me fatal."

A PRESSÃO DA HISTÓRIA

Acabou por ter importância o facto de a primeira meia-final se ter desenrolado com o tecto fechado, retirando da equação factores externos como o vento – o que aparentemente favoreceu Federer, que apresenta um registo muito superior quando actua em recinto coberto do que Djokovic.

Já a segunda meia-final realizou-se com a cobertura cabriolet do Centre Court aberta e foi dirigida pelo juiz-de-cadeira português Carlos Ramos – um dos melhores árbitros de ténis do mundo e que já arbitrou finais em todos os quatro torneios do Grand Slam, mas que não esteve tão bem ao efectuar duas correcções que o sistema electrónico de arbitragem provou estarem erradas.

Após três desaires consecutivos de Andy Murray nas semifinais (e depois das quatro meias-finais perdidas por Tim Henman, três por Roger Taylor e uma por Mike Sangster), o escocês lá quebrou uma malapata de sete décadas e está a deixar o Reino Unido em polvorosa, com bilhetes a ultrapassarem os 40 mil euros no mercado paralelo. O duelo com Jo-Wilfried Tsonga foi extremamente animado e com momentos tão espectaculares quão bizarros, como a bolada que o britânico acertou no baixo ventre do adversário e o deixou prostrado no court durante tanto tempo que Carlos Ramos teve de lhe dar uma advertência por violação de tempo. E Tsonga não andou muito longe de remeter a decisão do encontro para um quinto set, mas Murray aguentou-se bem e após um match-point resolvido com o esclarecimento do Hawk-Eye ("Take that, Platini!", poderão titular os tablóides) lá carimbou o tão desejado passaporte através dos parciais 6-3, 6-4, 3-6, 7-5.

"Alívio, excitação… é difícil de dizer o que senti", confessou um muito emocionado Andy Murray. Que já sacudiu a enorme histeria mediática à sua volta ao dizer que "haverá menos pressão sobre mim no domingo por Roger Federer ser quem é". 


FINAL FEMININA

A final feminina, agendada para as 14h00 deste sábado, também apresenta um cenário semelhante – com Serena Williams favorita diante de Agnieszka Radwanska, embora a campeoníssima norte-americana esteja actualmente pior classificada (6ª do ranking) do que a estreante polaca (3ª). Serena pode igualar os cinco títulos de Wimbledon da sua irmã Venus e chegar aos 14 títulos do Grand Slam em caso de vitória, enquanto Aga tem a motivação suplementar de ascender à liderança do ranking se ganhar o seu primeiro título do Grand Slam enquanto profissional… depois de já ter ganho Wimbledon no escalão júnior em 2005.

A mais nova da escuderia Williams tem um arsenal bélico muito mais adequado aos rápidos courts de relva e tem servido a um nível tão elevado que os 85 ases já disparados até ao momento colocam-na em segundo lugar na lista mista dos saques ‘limpos’ que tem um homem, Philip Kohlschreiber com 1998, em primeiro lugar.

O serviço de Serena já foi considerado pela crítica especializada e por antigas campeãs como o melhor da história do circuito feminino, mas parece ficar ainda melhor com o tempo e poderá ser determinante na final, tal como as suas possantes pancadas de direita e de esquerda ou a capacidade de se transcender nos momentos mais importantes. No entanto, Radwanska tem por principais qualidades uma notável clarividência técnico-táctivo, enorme sentido de anticipação e a capacidade de alternar ritmo; poderá usar a potência da adversária em seu proveito, mas a diferença de potência é tal que vai fazer figura de peso-pluma perante uma peso-pesado.

Para mais, Radwanska tem estado engripada e o seu treinador Pitkorowski já referiu que, devido ao aperto do controlo anti-doping, têm recorrido a "alho, chá e mel".

Ou seja, Williams parece dispor de todos os argumentos para chegar a um troféu que ergueu pela primeira vez há precisamente uma década… mas não se pode esquecer que perdeu a final de 2004 diante de uma estreante (Maria Sharapova), que sucumbiu noutra final em ano olímpico (2008, perante a irmã Venus) e que foi derrotada na última final de um torneio do Grand Slam que jogou (o ano passado no US Open, diante de Samantha Stosur).

MEIAS-FINAIS MASCULINAS
Roger Federer (Suíça, cs3) v. Novak Djokovic (Sérvia, cs1), 6-3, 3-6, 6-4, 6-3
Andy Murray (Escócia, cs4) v. Jo-Wilfried Tsonga (França, cs5), 6-3, 6-4, 3-6, 7-5

MEIAS-FINAIS FEMININAS
Agnieszka Radwanska (Polónia, cs3) v. Angelique Kerber (Alemanha, cs8), 6-3, 6-4
Serena Williams (EUA, cs6) v. Victoria Azarenka (Bielorrússia, cs2), 6-3, 7-6

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3 Comentários
  • De marcilene silva07.07.12
    ele é o melhor e no domingo só vai voltar ao seu lugar de direito...
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  • De Olga07.07.12
    Que pena não dar na televisão.
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  • De Maria Silva07.07.12
    Excelente análise. Como Miguel Seabra já nos habituou. Aguardemos agora que sejam finais a condizer com o talento dos contendores. Eu torço, naturalmente, pelos melhores ... Serena e Federer.
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