Algemado de pés e mãos

Jovem modelo, pálido e mais magro, reclama inocência mas o júri discorda. Arrisca ficar preso para sempre.
02.02.11
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Algemado de pés e mãos
Tradutor explica a Renato as alegações do seu advogado, David Touger Foto Valério Boto

Calças de fato de treino cinzentas, casaco cor-de-laranja do uniforme prisional. Sempre algemado de pés e mãos. Mais magro, pálido, cabisbaixo, Renato Seabra percorreu lentamente os corredores do Tribunal de Nova Iorque, às 14h30 de ontem (19h30 em Lisboa), para três minutos na sala de audiência, no 13º piso. Dois guardas encaminharam-no ao lugar, sentado na cadeira à frente do juiz Charles Solomon, onde se manteve impávido a ouvir a acusação por homicídio em 2º grau de Carlos Castro – punível de 25 anos até prisão perpétua. O jovem, de 21 anos, foi percebendo tudo pela voz do tradutor. E só falou para se declarar inocente.

À pergunta "como se declara?", Renato murmurou em inglês que se considerava "não culpado", palavras repetidas pelo seu advogado, David Touger, ao juiz. No banco da acusação esteve sozinha Maxime Rosenthal, procuradora do Ministério Público encarregada do caso. Ficou em silêncio toda a audiência.

O juiz já tinha num envelope a decisão do Grande Júri – 23 eleitores do estado de Nova Iorque, que ontem não estiveram no tribunal. Enviaram a acusação por carta. É com base nela que o jovem chegará a julgamento pelo crime de 7 de Janeiro, quando terá morto e mutilado o cronista num quarto de hotel.

Tudo isto foi contado à polícia pelo jovem já no Bellevue Hospital, de onde ainda não teve alta por motivos psiquiátricos – mas uma das "moções de refutação de provas" que o advogado vai apresentar, até à sessão de 4 de Março (ver caixa), visa anular a confissão no hospital.

No próximo mês, defesa e acusação vão encontrar--se e discutir um possível acordo – só cinco por cento dos casos em Nova Iorque chegam a julgamento. Se concordarem na pena a aplicar, esta é desde logo fixada. Para já, a inocência que Renato Seabra reclama prende-se com uma possível insanidade momentânea na altura do crime – uma tese que vai depender em absoluto do parecer dos médicos.

Ontem, na segunda vez em que enfrentou o tribunal, o modelo só levantou os olhos para ver o advogado, o juiz, e fitar uma vez as objectivas dos fotógrafos. No final, foi levado de volta para o hospital.

"RELATÓRIO DOS MÉDICOS ANULA CONFISSÃO"

A acusação é de homicídio em 2º grau, mas o advogado pretende refutar provas da polícia na próxima audiência, a 4 de Março. Uma delas é a confissão de Renato no hospital. "Poderá ser anulada com relatório médico a provar que não estava em condição de prestar aquelas declarações", explica o advogado Paul da Silva. Antes de ir para julgamento, acusação e defesa reúnem-se diversas vezes com o juiz para apresentação de provas e discussão de possível acordo na pena a aplicar.

TERÁ DE CUMPRIR 6/7 DA PENA

O Grande Júri decidiu manter o sentido da acusação da procuradora, não a agravando para homicídio em primeiro grau – punível directamente com prisão para o resto da vida. Para os casos de homicídio em segundo grau, a pena prevista nos EUA situa-se entre os 25 anos de reclusão e a prisão perpétua.

A ser condenado sob esta acusação, Renato não pode ser extraditado, tendo de cumprir pelo menos 6/7 da pena em território norte-americano. Também não terá direito a liberdade condicional.

POPULAÇÃO DE CANTANHEDE PEDE UMA PENA PEQUENA

A população de Cantanhede teme que Renato Seabra "não resista" ao ambiente hostil das cadeias americanas. Convencidos de que terá de cumprir uma pena de prisão, vizinhos e amigos esperam no entanto que seja o mais branda possível.

"Espero que seja atenuada. Tem de haver maneira de o fazer", refere Gabriela Batista, que continua a ter muita dificuldade em imaginar o Renato que conhece "num cenário destes". Acredita que dificilmente o manequim pode ser extraditado para Portugal, e teme que o ambiente nas prisões americanas "seja tão mau que ele não aguente".

Um outro vizinho, mais pessimista, acrescenta que "se for para a prisão que fica numa ilha está tudo perdido. Aquilo é muito severo e pode acontecer o pior". Noémia Castelo Branco, reformada, só espera que "a pena seja pequenina", e que no decorrer do processo se demonstre que "ele para fazer o que fez não estava bom da cabeça".

Manuel Bento, de 71 anos, deseja o melhor para Renato Seabra e para a família, mas não está muito optimista: "Pelo que dizem, pode apanhar uma dose grande, o que é muito triste."

 

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