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Mais duas mulheres assassinadas pelos maridos

PSP tinha queixas por violência doméstica contra Rui Freitas e Eduinho Vieira. Ministério Público não evitou que matassem Margarida e Leocádia
14.07.10
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Mais duas mulheres assassinadas pelos maridos
O corpo da vítima Margarida Alves antes de ser levado para a morgue. Foto Vítor Mota

Os dois homens já estavam referenciados no Ministério Público, depois de três queixas apresentadas em esquadras da PSP ao longo dos últimos anos. Uma contra Rui Freitas, em 2009; duas contra Eduinho Vieira, em 2009 e este ano. Todas por violência doméstica. Mas a resposta do MP não foi eficaz nos dois casos – tal como em muitos outros que o CM já avançou (ver caixas encarnadas) – e na noite de anteontem ocorreram mais duas tragédias. A primeira em São Marcos, Sintra, onde Eduinho Vieira assassinou a ex-mulher Leocádia Brito com cinco tiros à queima-roupa; a segunda em Alapraia, Cascais, com Rui Freitas a matar a mulher, Margarida Alves, com um tiro na cara, dentro de casa. Depois suicidou-se.

Neste último caso o agressor barricou-se mais de cinco horas, disparou sobre dois polícias e ainda lançou fogo à casa. Pouco passava das 20h30 quando começou o cerco policial. No quarto, Margarida, 53 anos, estava já na cama envolta em sangue, espancada pelo marido, Rui, uma vez mais. Transtornado, o electricista de 49 anos barricou-se e manteve a mulher sequestrada durante horas. Depois executou Guida, como era conhecida, com um tiro na cara, e suicidou-se. Antes, pegou fogo à casa e disparou pela janela contra dois agentes da PSP, que ficaram feridos. Um num olho e outro num braço.

'Aquela mulher vivia num autêntico pesadelo. Uma vez fui encontrá-la escondida na cave toda negra dos murros e pontapés. Ela era uma mulher triste', confessou ao CM uma vizinha. 'Gritava com dores mas nunca disse nada.' Rui e Margarida, contabilista reformada, conheceram-se há 12 anos quando o agressor foi contactado para trabalhar em casa dela. Era casado com Tânia Silva quando se juntaram. Levou a mulher e três filhos, entre 1 e 5 anos, para casa da amante. Viveram todos juntos. Foi a a ex-mulher que em 2009 fez queixa às autoridades. Rui é classificado por amigos como 'desequilibrado'. Tinha ao todo sete filhos.

'OLHOS DE VINGANÇA'

Durante o dia de ontem os inspectores da Secção de Homicídios da PJ passaram a pente-fino a casa e o carro do agressor e da vítima. Os vizinhos estavam ainda incrédulos e assustados com a tragédia. 'Foi horrível. Só se ouvia tiros. Pensei logo que o dia dela tinha chegado. Ela levava pancada quase todos os dias. Ainda o vi de manhã e estava com olhos de vingança', contou uma vizinha. Ao que o CM apurou junto de fonte policial, quando os agentes da PSP chegaram ao local não havia negociação possível. Rui Freitas ainda arrastou os móveis de casa contra a porta e as janelas de modo a impedir a entrada dos polícias. Foi accionado o Grupo de Operações Especiais, que entrou pelo telhado. Tarde demais. Agressor e vítima já estavam mortos.

ABATIDA A TIRO À PORTA DE CASA

Teresa Mendes tinha várias queixas contra o ex-marido. Magistrada decidiu não afastar o agressor da vítima e este matou-a com dois tiros à porta de casa, no Cacém, em Dezembro.

MATA EX EM FRENTE AOS DOIS FILHOS

Em Janeiro, Luísa Travanca foi morta a tiro pelo ex-namorado quando saía de casa, em Almada, com dois filhos. Homicida, sobre quem já havia queixa, alvejou ainda um dos jovens, mas falhou.

MATA O PADRASTO POR BATER NA MÃE

André, 17 anos, não suportava ver a mãe ser agredida pelo padrasto, em Almada. Já havia queixas e avisou-o várias vezes. No último caso de violência doméstica, em Fevereiro, matou-o a tiro.

MATA COM ARMA QUE A GNR DEIXOU

A GNR de Chaves apreendeu 4 armas ilegais a José, 73 anos, em Junho, após queixa da mulher por agressão, deixando-lhe uma legalizada. Com esta matou a mulher e degolou a sobrinha.

DÁ TRÊS FACADAS APÓS SOVA NA MÃE

Luís, 16 anos, tinha assistido a nova sova do padrasto na mãe, que já tinha três queixas na PSP do Cacém. Telefonou a dois amigos para o ajudarem e matou-o com três facadas.

PORMENORES

MIRA TELESCÓPICA

Após terem sido encontrados dois corpos na casa, em Cascais, foi feita uma busca domiciliária e foram encontrados um revólver, uma carabina com mira telescópica, que terá sido utilizada pelo agressor, e uma arma de alarme.

INCÊNDIO

Depois de o agressor pegar fogo à casa o incêndio estendeu-se à cozinha e à sala do segundo piso do edifício de três andares. Os bombeiros procederam ao combate pela cobertura.

AMEAÇAS

Por diversas vezes Rui Freitas ameaçou que ia incendiar a casa. Estava determinado, e os negociadores da PSP, durante cinco horas, não conseguiram evitar que tal acontecesse.

'ELE ERA UM PROBLEMA'

Um dos amigos do homicida admitiu que Rui Freitas era um homem problemático. 'Tinha a mania da perseguição e era um autêntico problema. Não gostava dele mesmo', afirmou ao CM.

'ESQUADRAS NÃO TÊM COLETES'

'As esquadras não têm coletes à prova de bala, só os carros-patrulha. Com o aumento da criminalidade é inadmissível as divisões não terem reservas.' A denúncia partiu de António Ramos, presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia, perante o que se passou no caso de Alapraia, Cascais, em que agentes da PSP estiveram debaixo de fogo do agressor. Não foi possível obter ontem uma reacção da Direcção Nacional da PSP sobre o assunto. Perante a falta de coletes, 'alguns polícias são obrigados a comprá-los com dinheiro do próprio bolso – um colete pode chegar aos 700 euros. Anteontem, 'a tragédia não foi maior por mero acaso, já que um dos polícias não tinha um colete que o protegesse se a pontaria do agressor fosse mais afinada', diz António Ramos. Tal como o CM testemunhou, alguns agentes tiveram de pedir coletes emprestados para se proteger. 'Nós já pedimos por diversas vezes os coletes e nada tem sido feito. Por isso até já fizemos protocolos para os polícias poderem comprar a 450 euros.'

'AGENTES FERIDOS ESTÃO BEM'

Dois agentes da PSP ficaram feridos ao serem atingidos pelos disparos efectuados por Rui Freitas através da janela de casa. Apesar da violência, as lesões provocadas não foram graves, informou ontem o Comando Metropolitano da PSP de Lisboa. 'Nada fazia prever que o homem começasse a disparar vários tiros em direcção aos elementos policiais, sendo um deles atingido por baixo da axila e outro num olho', refere o comunicado.

MORTA COM TIRO NA CARA

Carregada de sacos, Leocádia Tavares Brito, 34 anos, regressava às 21h00 de anteontem a casa, na avenida Cidade de Lisboa, em São Marcos, Sintra, quando o ex-marido a emboscou, a pé, já no final do viaduto que liga o Cacém a São Marcos. Sem discussões, Eduinho Vieira, sensivelmente da mesma idade, puxou de uma pistola e assassinou-a com vários tiros. Um na cara – e, com a vítima já estendida no chão, pelo menos outros quatro. No peito. Depois, perante o olhar atónito de várias pessoas que testemunharam o crime através das janelas dos prédios em frente, fugiu. Ontem à tarde ainda era procurado pela Secção de Homicídios da PJ. E a PSP confirmou ao CM que Leocádia já tinha apresentado queixa do ex-marido por duas vezes: em 2009 e em 2010.

'As pernas ainda tremem só de me lembrar. Estava em casa quando ouvi um tiro e vim à janela. Ela já estava no chão e ele continuava a disparar. Depois guardou a arma atrás, no cinto, e fugiu para cima', recorda Margarida Cunha, 51 anos.

Alguns populares, que estavam ali perto e viram tudo, ainda correram atrás dele, enquanto Margarida chamava a polícia – mas Eduinho escapou a todos. Ao que o CM apurou junto de fonte do INEM, o tiro na cara provocou a morte imediata a Leocádia Brito.

A vítima morava com os dois filhos, rapaz de 16 anos e rapariga de 13, num apartamento na avenida Cidade de Lisboa. Segundo os vizinhos, há mais de dois anos que o agressor não vivia com Leocádia, mas continuava a persegui-la e a ameaçá-la. Alguns vizinhos garantem mesmo que o homicida 'já lhe tinha prometido um tiro'.

Em frente à casa da vítima, num café, Gabriel Bilreiro recorda um episódio em que os dois discutiram, no ano passado. 'Estavam sentados aqui na esplanada quando de repente, depois de uma discussão, a vejo a puxar de uma garrafa de vinho, cheia, que tinha nos sacos das compras, e a partir-lha na cabeça.' Tirando estes episódios, nunca mais ninguém vira problemas com Leocádia. 'Saía de manhã cedo para trabalhar e voltava à noite, nem sequer frequentava muito os cafés daqui. Costumava ir para a janela. E os filhos eram muito bem-educados', disse ao CM José Serralho, vizinho do rés-do-chão.

Ao que o CM apurou, os dois filhos de Leocádia estão agora à guarda de uma tia que vive na Amadora. A Judiciária fazia ontem tudo para capturar o homicida.

'COMEU SANDES E BEBEU CERVEJA ANTES DO CRIME'

Pouco antes de assassinar a ex-mulher, Eduinho esteve no café Trigo d’Aldeia 'a comer uma sandes e a beber uma cerveja', contou ao CM uma funcionária, que ainda o encontrou no viaduto, pouco antes de cometer o homicídio.

'Ele só cá tinha estado duas vezes e nunca tinha dado problemas. Mas ontem notei que estava sempre a olhar para fora, parecia que estava à espera de alguém', recorda a mesma fonte, que garante que o homicida não esteve mais de dez minutos no café. Quando saiu dali, Eduinho já tinha o alvo bem definido: a mulher, que voltava a casa.

SAIBA MAIS

MARIDOS HOMICIDAS

Em 62% dos casos de homicídio em 2009 os criminosos eram namorados ou maridos e em 38% dos crimes as mulheres assassinadas já se tinham separado.

29

é o número de mulheres assassinadas em 2009, maioritariamente às mãos dos maridos, namorados ou companheiros, menos 17 do que em 2008. Registaram-se ainda 28 tentativas de homicídio em 2009.

11,3%

é o aumento, em média, do número de queixas de violência doméstica desde 2000, segundo a secretária de Estado para a Igualdade, Elza Pais.

MAIS MORTES EM LISBOA

Lisboa é o distrito com mais mortes violentas de mulheres: seis. Seguem-se Vila Real, Castelo Branco e Setúbal, com três. Em 38% dos casos de homicídio as vítimas já estavam separadas dos agressores.

DISCURSO DIRECTO

'É PRECISO BLOQUEAR A ACÇÃO DO AGRESSOR': Maria José Magalhães Presidente da UMAR

CM – Como analisa o relatório do Observatório de Mulheres Assassinadas, criado pela UMAR (União de Mulheres Alternativa Resposta), segundo o qual houve 29 mulheres mortas em 2009 pelos companheiros, menos que em 2008?

Maria José Magalhães –Registou--se uma diminuição, mas 29 é muita gente, um número terrível. Espanha tem 40 milhões de pessoas e houve 55 mortes. Por cá houve ainda 28 tentativas de homicídio falhadas, não foram mais por mero acaso.E quatro das mulheres mortas já tinham apresentado queixa contra os seus homicidas.

– Este último dado revela que a resposta do Estado não é adequada.

– As autoridades não conseguiram garantir a segurança destas mulheres. É preciso bloquear a acção do agressor, é preciso que o poder judicial mandate as forças de segurança para impedir que chegue perto da vítima. E não podemos estar sempre a exigir que as mulheres sejam fugitivas toda a vida, temos é de parar os agressores.

– A solução passa por tomar medidas antes que o pior aconteça?

– É preciso actuar por prevenção, mas em Portugal há medidas de coacção que não são aplicadas. Vemos até acórdãos de tribunal inqualificáveis que condenam a prisão domiciliária agressores que foram acusados em processos de violência doméstica. É preciso que os tribunais actuem em tempo útil. Hoje é possível avaliar o nível do risco e actuar quando o risco é razoável.

– Houve uma evolução positiva nos últimos anos?

– Sim. Há casas-abrigo para pôr as mulheres em segurança; há aplicação de medidas de coacção, como pulseiras com telecontrolo e prisão preventiva ; e uma maior sensibilidade da população em geral que faz com que os agressores não se sintam tão impunes.

NOTAS

LISBOA: HOMEM DETIDO

Um homem de 36 anos foi detido anteontem, pelas 21h30, na rua da Madalena, em Lisboa, por violência doméstica. A PSP teve de partir um vidro da porta para entrar em casa

HOMICIDA: PERTURBAÇÕES

Sérgio Estorão, 38 anos, que em Junho matou a mulher, de 33, e a filha, de nove, em Braga, está em prisão preventiva. Defesa quer provar que homicida sofre de perturbações mentais

2008: 35 CONDENADOS

Nos tribunais de 1.ª Instância foram condenados por homicídio conjugal 43 pessoas, em 2007, e 35 em 2008, segundo dados da secretária de Estado para a Igualdade, Elza Pais

VIOLÊNCIA: MATA GNR AMIGO

A 29 de Novembro de 2009, em Montemor--o-Velho, Mário Pessoa perseguiu a mulher e matou-a com cinco tiros de caçadeira. Ainda assassinou um GNR, seu amigo.

CASAS-ABRIGO: 36 NO PAÍS

Em Portugal há 36 casas-abrigo que fornecem tudo às mulheres vítimas de violência doméstica. Segundo Elza Pais, nestas casas estão cerca de 1500 mulheres e os filhos

FILHO DE JUIZ: MATA AGRESSOR

Joãozinho Pereira, de 51 anos, foi morto com dois tiros, em Abril, em Loures, pelo namorado da filha, que não aguentou os maus tratos que o homem infligia à família

DEFINIÇÃO: MAUS TRATOS

São considerados violência doméstica os maus tratos físicos e psíquicos, incluindo castigos corporais, privações da liberdade e ofensas sexuais a pessoa de outro ou do mesmo sexo

LEI: MEDIDAS DE COACÇÃO

A lei diz que quando não se coloca o arguido em prisão preventiva deverá ser-lhe aplicada a medida de coacção de afastamento da residência no caso de haver perigo de repetir o crime

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