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Serial killer faz 3 vítimas por ciúmes

Francisco, gay, não aceitava relações de Ivo com Tânia e de L.P.S. com Joana. Matou primeiro, segunda e quarta.
21.07.10
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Serial killer faz 3 vítimas por ciúmes
Imagem de Francisco Leitão retirada do YouTube, no vídeo em que aparece a avisar os portugueses de que, a 8 de Agosto deste ano, um terramoto vai destruir o País. São dezenas os vídeos colocados na internet pelo ‘rei dos gnomos’ Foto D.R.

Duas vezes apaixonado por jovens rapazes, ambos de 17 anos quando os conheceu; as duas vezes trocado por raparigas jovens. Primeiro em 2007, depois já em 2009. Até que Francisco Leitão, hoje com 43 anos, decidiu vingar-se. Assassiná-las e esconder os cadáveres. Mas, no primeiro caso, decidiu que Ivo Delgado, ao enjeitar a relação homossexual que mantinham, trocando-o por uma mulher, iria morrer também. A primeira vítima foi Tânia Ramos, 27 anos, a 5 de Junho de 2008, seguida do namorado, 21 dias depois. E já a 3 de Março deste ano, o cadastrado, a viver em Carqueja, Lourinhã, tirou a vida à jovem Joana Correia, 16 anos, só por manter uma relação com L.P.S. – rapaz cujos instintos sexuais não correspondiam aos do assassino.

Ao longo de dois anos, são estas as três vítimas de Francisco Leitão – serial killer que acabou detido já na madrugada de ontem pelos investigadores da Unidade Nacional de Contra-Terrorismo da Judiciária, reunidas provas. Não confessa os crimes – mas foi traído, por exemplo, na utilização dos telemóveis das três vítimas, ao fazer-se passar por elas, enviando mensagens para despistar as famílias, dizendo que estavam bem e que tinham decidido partir para o estrangeiro.

Tudo começou em 2002, adiantam ao CM fontes próximas das vítimas, quando Francisco e Ivo se conheceram. Passaram a viver juntos e a relação homossexual descambou em violência doméstica. Até que o jovem se tentou libertar dos maus tratos e viver uma relação com Tânia, já em 2007.

Francisco ficou obcecado e, chegado o Verão de 2008, assassinou os dois. Atraiu--os a sítios ermos, matou-os, escondeu os cadáveres e roubou-lhes os bens. No caso de Ivo, o homicida ficou-lhe com o carro, Audi A4. Um ano e meio mais tarde, já este ano, foi a vez de Joana Correia se atravessar no caminho de Francisco. Por namorar o jovem L.P.S., que nunca correspondeu ao amor do serial killer, foi morta a 3 de Março.

PJ JÁ O TINHA INVESTIGADO POR CRIMES DE PEDOFILIA E INCÊNDIO

Francisco Leitão, que partilhava com cunhados a casa que o pai lhe deixou em São Bartolomeu dos Galegos, Carqueja, Lourinhã, nunca passou pela cadeia, mas há muito que estava referenciado pela Polícia Judiciária por vários crimes, apurou o CM. Entre eles consta o abuso sexual de crianças, suspeitas que deram origem a um inquérito em 2002, e actos sexuais com adolescentes, pelos quais foi investigado em 2001 e 2005. Mas na ficha de Francisco Leitão – que agora arrisca até 25 anos de cadeia por três homicídios qualificados – há ainda a registar crimes de incêndio, fiscais e relacionados com automóveis.

'DIFERENTE DAS OUTRAS MENINAS'

Sobreiro Curvo, em A dos Cunhados, pelas 19h00. Estávamos a 3 de Março e Joana Correia saiu de casa. À mãe disse que ia para casa da amiga Beatriz Inácio; à amiga disse que ia sair com o namorado L.P.S. Mentiu. Nunca mais foi vista. 'Até hoje não disse nada', recordou com tristeza a mãe Fátima Silva. 'Independente demais', como a classificou a irmã mais velha, Cátia Correia, a jovem de 16 anos abandonou a escola ainda este ano, quando frequentava o 8º ano. Estudava na escola secundária Padre Vítor Milícias, em Torres Vedras. 'Agora estava comigo em casa. Nunca me disse o que queria ser. Era reservada', lamentou Fátima.

'Ela era uma menina diferente das outras, com outro estilo', acrescentou a mãe. Gostava de vestir roupa escura e tinha um piercing no lábio. Joana não dispensava tomar café no bar V2, mas 'era de poucas falas', como disse o proprietário Rui Brás. ‘Bia’ era a única amiga a quem contava tudo. Passava dias e noites com ela. 'Quando ela desapareceu não lhe liguei logo porque fiquei magoada. Pensava que estava na casa da ‘Bia’', disse a mãe, desesperada.

Aos pais só falou de um único namorado, L.P.S., amigo do homem que a raptou e assassinou. Saía com ele várias vezes. 'Gostava dele', lamentou ao CM a irmã. O rapaz de 18 anos, que vive na Lourinhã com os pais, ia passar as tardes com a rapariga a A dos Cunhados. 'Nos últimos tempos vinha um homem mais velho, muito esquisito', disse Paulo Lopes, amigo da vítima. 'É o que faz as más companhias', acrescentou.

VISITAVA AS FAMÍLIAS SOLIDÁRIO COM DOR

Sempre prestável nas buscas e solidário na dor, depois de assassinar as suas vítimas, de forma que a Polícia Judiciária ainda está a apurar, Francisco Leitão roubava-lhes os bens, desfazia-se dos cadáveres e fazia por se aproximar das respectivas famílias. Para disfarçar. No caso de Tânia Ramos, apurou o CM junto de fontes próximas da vítima, seis dias depois do crime, a 11 de Junho de 2008, o homicida acompanhou mesmo a mãe da jovem até ao posto da GNR de Santa Cruz, Torres Vedras, para participar o desaparecimento.

Mostrou-se preocupado com a vítima, de 27 anos, que conhecera um ano antes quando esta lhe roubara o namorado – mas pouco depois de a ter assassinado num local ermo, a 5 de Junho desse ano, Francisco teve o cuidado de usar o telemóvel de Tânia para tentar despistar a família desta. Enviou mensagens para as pessoas mais próximas, fazendo-se passar pela vítima, a pedir desculpa por ter partido e a informar que estava bem. Apesar de nunca dizer onde. 'Só queria que tomassem conta da menina', sua filha, recordam os amigos.

Faltava cumprir com metade do plano – e 21 dias depois era a vez de morrer Ivo Delgado, aos 22 anos, o jovem que trocara uma relação homossexual com Francisco por uma ligação sentimental a Tânia. O assassino repetiu o modus operandi, matando o ex-namorado, ocultando o corpo, roubando-lhe os bens – neste caso até o Audi A4 – e aproximando-se da sua família. Segundo fontes ligadas à vítima, Francisco até inventou que Ivo partira com medo da polícia, por ser procurado, e que falava com ele ao telefone. 'Disse que o Ivo estava em Espanha a trabalhar', recorda ao CM um amigo do jovem.

Já este ano, quando pensava estar livre de qualquer suspeita pelos desaparecimentos de Tânia e Ivo, Francisco decidiu fazer uma nova vítima: Joana Correia, 16 anos, só porque esta se tornara namorada de L.P.S., o jovem por quem o homicida estava agora apaixonado, mas que era só seu amigo.

Entre a tarde e noite de 3 de Março, voltou a matar e a esconder o corpo – depois de ter atraído a vítima a um encontro. Seguiram-se visitas a casa dos pais da vítima, de ar preocupado – e várias mensagens do telemóvel de Joana para a família: estaria a trabalhar em França.

O 'REI GHOB', CHEFE DE GNOMOS E DUENDES

Excêntrico é o adjectivo mais suave que se pode escolher para descrever o homem que no site de partilha de vídeos da internet –o YouTube – se intitula como ‘rei Ghob’, o chefe máximo dos gnomos e duendes, possuidor de poderes sobrenaturais, anunciando um terramoto destruidor em Portugal em Agosto de 2010 e o fim do Mundo para 2012. 'Sou Francisco Leitão, rei Ghob e futuro governante da nova era', anuncia em tom profético. 'Não vou permitir que o Mundo acabe', diz ainda.

O homem aparece nas filmagens a demonstrar os seus poderes ‘mágicos’: aparece e desaparece e faz objectos moverem-se sem lhes tocar. Noutro vídeo surge com uma peruca roxa na cabeça a cantar para os peregrinos de Fátima. O homem juntava ainda em seu redor 'vários discípulos', a maior parte deles jovens que não terão mais de 20 anos.

DISCURSO DIRECTO

'MATA QUANDO NÃO O AMAM', Moita Flores, Criminologista  

Correio da Manhã – Este homem é suspeito de ter assassinado três pessoas por questões passionais. Trata-se de um serial killer?

Moita Flores – Actuou numa lógica passional. Mas tendo em conta o que está ser dito, sem dúvida que se trata de um homem emocionalmente desvairado e perigoso, com um comportamento obsessivo e que tem de estar preso.

– Ele chegou a ajudar a família a procurar as pessoas de que é agora acusado de ter matado.

– Nestes casos de homicídios passionais é muito frequente encontrarmos o homicida entre aqueles que choram o morto.

– Na internet há vários vídeos deste homem que aparece descrito como ‘Rei Ghob’, liderando um culto e advogando o fim do Mundo para 2012...

– É revelador de uma personalidade narcísica e egocêntrica. Não compreende quando os outros não o amam, e por isso mata.

– Ele teria uma relação homossexual com uma das vítimas, que o teria deixado para andar com uma rapariga...

– Muitos dos casos que investiguei em que os homicídios foram cometidos por homossexuais os crimes foram cometidos com extrema violência.

SEMELHANÇAS COM CASO DE SANTA COMBA

A história de Francisco Leitão apresenta algumas semelhanças com o caso que abalou Santa Comba Dão em 2006, quando se descobriu que o cabo António Costa, reformado da GNR, tinha assassinado três raparigas. Em ambos os casos conheciam as vítimas ‘desaparecidas’ e mostraram solidariedade com as respectivas famílias até serem apanhados. Em 2007, o cabo Costa foi condenado pelo Tribunal da Figueira da Foz à pena máxima: 25 anos de prisão.

A primeira vítima do cabo Costa foi Isabel Isidoro. O corpo foi encontrado por um pescador desportivo a flutuar enrolado em sacas de ração, junto às rochas da praia do Cabedelo, na Figueira da Foz. À PJ confessou mais tarde que lhe tinha pago para uns 'uns abraços e uns beijinhos', mas como ela resistiu agrediu-a: 'Ela bateu com a cabeça no carro, começou a espumar da boca e fiquei assustado.' Atirou-a à água quando Isabel ainda respirava. Mariana Lourenço, de 18 anos, foi a segunda vítima, assassinada pelo cabo Costa a 14 de Outubro de 2005, quando seguia para casa de uma tia, perto da moradia do ex-militar. O corpo foi atirado para o rio Mondego e encontrado posteriormente sem pernas e sem cabeça. A terceira vítima foi Joana Oliveira, de 17 anos. Segundo o CM apurou na altura, a jovem foi violada e assassinada por estrangulamento. Uma haste retorcida dos óculos da vítima perto de casa de António Costa acabou por levar à descoberta do assassino. O cabo da GNR confessou os crimes aos investigadores, mas estes deixaram sempre em aberto a possibilidade de existirem mais vítimas. A 31 de Julho de 2007, foi condenado a 25 anos de prisão. O colectivo de juízes deu como provado um crime de homicídio simples e dois qualificados. n

'ESTRIPADOR' MATOU CINCO MULHERES E NÃO FOI APANHADO

Ainda hoje se desconhece quem foi o responsável pelo assassínio de cinco prostitutas, na zona de Lisboa, entre 31 de Julho de 1992 e 15 de Março de 1993. Todas foram encontradas esventradas e os seus órgãos estavam espalhados pelo local do crime.

O agressor, que ficou conhecido como o ‘estripador de Lisboa’, atacava sempre o mesmo tipo de prostitutas: jovens e toxicodependentes. 'O mais estranho foi de facto o desaparecimento dos órgãos, uma coisa nunca vista', comentou em entrevista o chefe da Secção de Homicídios de então, João de Sousa. Os crimes já prescreveram. n 

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