“Até na ração se notava que éramos uma tropa especial ”

Servi com orgulho nos paraquedistas e fui promovido a cabo por distinção, mas hoje a reforma militar é uma esmola
26.08.18
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testemunho de  
José m. Sesinando

Comissão
1971/1973

Força
Força Aérea - paraquedistas companhia 122


Como num romance, começou por ser paixão – nunca receei a queda de tão alto sonho. Em junho de 1969, na inspeção, assinei de cruz em como queria ir para os Paraquedistas.
Fiz prova de habilidade a 22 de novembro, em Tancos – "apto", resultou dali. Recruta adiada para janeiro do ano seguinte, 1970. Contaram-se 16 meses desde aquele primeiro aquartelamento até ser mobilizado para a Guiné, em fevereiro de 1971. Após um par de tentativas infrutíferas para que descolássemos de Figo Maduro, em Lisboa – "Olhe, não há avião", soube-se, sem mais justificações –, a viagem fez-se por mar, no paquete ‘Uíge’. Por ser experiência nova, não me desalentou.

Na terra mais ou menos firme da Guiné conheci uma tropa especial. De Bissalanca – a nossa base – partíamos em socorro de quartéis distantes que, na iminência de serem atacados, exigiam o reforço. Regressávamos quase sempre com a prontidão urgente que nos levava às missões. Ações de perigo redobrado, recordo os héli-assaltos: a ordem era para destruir quanto houvesse para destruir.

Não tenho nenhuma missão fácil para relatar. Seguíamos mato cerrado adentro, quatro dias e quatro noites, quase sempre.

Numa emboscada, fui surpreendido pela morte bem mais próxima do que desejava. Levou um moço de Vila Nova da Baronia, alentejano como eu. Era meu municiador, trazia duas granadas. Eu é que ajudei a metê-lo no helicóptero.

Tropa especial

A especialidade do serviço via-se até na nossa ração, diferente da do exército. Era individual, enlatados de sardinha e fruta. Eu levava sempre o mínimo, preferia seguir apetrechado de água e granadas.

Mas também fui ferido - embora não tenha sido muito grave: queimei-me. Eu era apontador de lança-granadas e, na pressa de as lançar, ignorei o raio de fogo de recuo de sete metros daquela arma portentosa... e feri-me na perna. Na mesma emboscada foram feridos com gravidade dois camaradas de armas: um furriel, atingido por estilhaços num olho, que veio cego para a metrópole; e outro atingido por um tiro no pescoço. Eu resisti a ser evacuado, senti que fazia falta aos meus colegas.

Partimos preparados para a missão e, uma vez lá chegados, o armamento (sobretudo o capturado ao inimigo) sempre foi do melhor. Recordo a denúncia de Catió, um coxo da cidade com o mesmo nome. Ele conhecia um depósito de armas "turra" e levou-nos lá. No caminho para a posição inimiga, Catió arrependeu-se, com medo de morrer às mãos dos defensores do paiol que íamos atacar, e começou a fazer-nos andar em círculo. Nunca mais era sábado. Até que o nosso capitão, que era experiente, percebeu o medo do ‘arrependido’: ergueu a Kalashnikov e apontou-lha à cabeça. "Se não fores, morres aqui", disse. Catió não nos enganou: trouxemo uma grande quantidade
de material de guerra, mas foi
penoso sair de lá.

O alcatrão fazia da Base Aérea o campo de saltos mais perigoso. Em mato vivo nunca arriscámos, o terreno da Guiné não se predispunha. Seria tiro ao alvo - bastava ao inimigo esperar que caíssemos.

Fui promovido a cabo por distinção, em reconhecimento do manuseio exemplar da arma pesada que carregava, o lança-granadas RPG2. A gratidão falta hoje: a reforma militar é uma esmola sem cabimento. Do ar, calcorreei a Guiné de uma ponta à outra e não invejo a autêntica prisão de quantos passaram a guerra toda fechados nos quartéis. Servi a tropa com orgulho. A disciplina - que nunca faltou - moldou o homem que sou. Recordo o cantil de água que, no fim de cada missão, era invariavelmente apresentado cheio. Era o remédio para o moral.

Passados 45 anos voltei a Tancos: reconheci a porta de armas e a capela. Um abraço do ‘Sesinando’ 346/69.

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