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O inferno somos nós

Woody Allen regressa com um filme na Coney Island dos anos 50 para abordar alguns dos seus temas favoritos
Por João Pereira Coutinho|14.01.18
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O inferno somos nós

Judaísmo? Woody Allen gosta de descer o chicote sobre a sua tribo. Mas as coisas são como são: crime e castigo, um tema talmúdico por excelência, ocupa e preocupa Woody Allen com uma intensidade que já não é possível disfarçar.

Esta obsessão começou em ‘Crimes e Escapadelas’, provavelmente o melhor dos seus filmes. Continuou em ‘Match Point’ e em ‘O Sonho de Cassandra’. Com a excepção do primeiro, uma meditação sobre um crime sem castigo, os dois últimos não repetiram essa tenebrosa visão das coisas. Podemos escapar à força da lei, diz-nos Woody Allen; mas nunca escaparemos à consciência (’Match Point’) ou ao destino (’O Sonho de Cassandra’).

O filme

O tema regressa em ‘Roda Gigante’, um filme que, só pela fotografia de Vittorio Storaro, já merecia contemplação. Mas há mais do que fotografia. Para começar, existe uma Kate Winslet que, estranhamente, não tem recebido os elogios que Cate Blanchett conheceu em ‘Blue Jasmine’. E existe uma narrativa que é uma aula de dramaturgia, precisa como os ponteiros de um relógio suíço. Ou, então, como um roda gigante – capaz de se elevar aos céus para descer até à triste normalidade.

Essa normalidade encontra-se no casal Ginny (Winslet) e Humpty (Jim Belushi): ele, mecânico de um carrossel na Coney Island da década de 1950; ela, empregada de mesa na mesma feira popular. Este marasmo é perturbado pela chegada de Carolina, a filha de Humpty, perseguida pelo marido mafioso; e também pela paixão entre Ginny e Mickey, um jovem nadador-salvador com aspirações artísticas que levará Ginny ao seu crime. Um crime por omissão que, pormenor importante, trará um castigo por omissão: aqui não há gritos, tragédias, vinganças. Às vezes, a verdadeira punição é estarmos condenados à mesma rotina miserável.

O último plano, só acessível a um génio, resume o espírito do filme: de um lado, o filho pirómano de Ginny ateando mais uma fogueira; do outro, a cadeira vazia do nadador-salvador. O inferno são os outros, como dizia o filósofo? Não. O inferno somos nós.

Texto escrito  na antiga ortografia

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