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“A Alexandra foi o meu anjo, sem ela não ia a lado nenhum”

A madeirense Ângela pediu ajuda à estudante de Direito para enfrentar uma firma de advogados de Londres e ganhou.
Por Fernanda Cachão|17.09.17
“A Alexandra foi o meu anjo, sem ela não ia a lado nenhum”

O encontro entre a estudante de Direito, Alexandra da Silva, natural de Cardielos, Viana do Castelo, e a madeirense analfabeta, a residir em Londres há 40 anos, sem falar inglês, foi no restaurante do Futebol Clube do Porto em Londres, por intermédio de um outro português, funcionário daquele estabelecimento, "o Sr. Zé Pedro", que conhecia o caso da cliente mais velha.

Ângela Maria Sousa Baptista tinha tido um acidente em 2006. "Parti o braço, a perna e a espinha, a caminho de casa, atropelada por um português", conta a mulher que ficou com incapacidade física parcial. Passados sete anos sobre o atropelamento foi indemnizada, mas a sociedade que lhe tratou do caso, a Hansen Palomares Solicitors - uma firma de advogados que se apresenta como "Spanish/Portuguese bilingual service" (um serviço bilingue português/espanhol), cujos escritórios ficam próximos da casa dela - evocou a incapacidade mental da portuguesa para reter o dinheiro e administrá-lo.

"Ela teve direito à indemnização, mas ficou na mesma a viver na miséria. A Hansen Palomares Solicitors dava-lhe 200 libras (222 euros) por mês, o que não lhe dava para muito, e cobrava-lhe o que podia. Por exemplo, se ela fazia uma chamada para a firma a pedir qualquer coisa, cobravam-lhe logo oito libras (quase nove euros). Era ela que ligava e ainda tinha de pagar por uma conversa ao telefone", conta Alexandra.

A madeirense, que tentava desde 2013 reverter a situação, "estava prestes a desistir", quando no restaurante do Futebol Clube do Porto em Londres, conheceu a aspirante a advogada. Chama-lhe agora de "seu anjo" porque "se não fosse ela, não teria sido mais ninguém".

"Foi o Sr. Zé Pedro, que eu conhecia e para quem já tinha feito umas traduções, que me falou do caso e pediu-me que a ajudasse. Ela estava muito em baixo quando a conheci", conta Alexandra. A estudante disponibilizou-se, pois, a ajudá-la, apesar de não ter o curso concluído, curso que lhe desse o estofo para, através do sistema judicial inglês, fazer frente à firma de advogados. Mesmo assim, tornou-se a sua representante na qualidade de "litigation friend" (amigo de litígio), uma figura prevista na lei inglesa e que não existe em Portugal.

"Tivemos uma série de reuniões , em que ela me entregou toda a documentação de que precisava para dar início ao processo. Usei o ‘mental capacity act’ de 2005, que defende pessoas que não tenham capacidade para se defender, reuni provas e escrevi uma exposição de quatro páginas. No final desse mesmo mês de novembro estava a dar entrada com o pedido", conta Alexandra.

Em novembro de 2016 avançou com o requerimento ao tribunal para que este averiguasse o caso. Apresentou provas de que Ângela, apesar de apresentar uma situação social frágil, estava mentalmente sã e requereu que fosse ordenado ao gabinete de advogados a restituição daquilo que pertencia à madeirense. A médica indicada pelo tribunal foi da mesma opinião de Alexandra, ao concluir pela sanidade de Ângela Baptista e a sentença acabou por ser favorável "a nós as duas", como faz questão de frisar a lesada.

África antes de Londres
"Eu não sou rica" ("não vá essa gente por me ver nas notícias achar que o sou"), diz repetidamente Ângela ao telefone, desde o Caniço, na ilha da Madeira, onde foi passar uns dias em casa da família, depois de saber que tinha levado a melhor à firma de advogados que primeiro a tinha ajudado depois do acidente.

Foi em 1971 que Ângela Maria Sousa Baptista saiu da Madeira. Primeiro para Angola, acompanhada pela família. Ainda viveu no Alentejo e na Alemanha, antes de se fixar em Londres. Nunca se casou. Não teve filhos. Na capital inglesa viveu quase sempre sozinha, desde há 40 anos. Na vizinhança da sua casa tem agora um sobrinho. Sobre a mulher que analfabeta do português e sem falar uma palavra de inglês sempre se desenrascou de alguma forma, esclarece Alexandra: "Ela diz uma palavra pela outra em inglês e percebe muito bem os números". Em Londres, a madeirense trabalhou durante anos num hotel, até o proprietário morrer, "agora - e desde há muito - vive dos ‘social services’".

Ângela Baptista ainda não viu as 170 mil libras (200 mil euros). Alexandra explica que a Hansen Palomares Solicitors tem até ao final do mês para resolver restituir o dinheiro que resta ou antes pelo contrário recorrer da decisão. "Mas se assim for. Cá estaremos para lutar".

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