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A glória do passado e os postais ilustrados

“O futebol deixa a pátria com febres terçãs; os postais antigos deixam-na deprimida e saudosa. Não sei o que é pior”
Por António Sousa Homem|17.06.12
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A glória do passado e os postais ilustrados

Verifico postais ilustrados de antigamente. É costume, nestes momentos, observar como o mundo mudou nos últimos cinquenta anos, nos derradeiros sessenta, no século que abandonámos. Há esquinas de uma praça que já desapareceu, árvores que sucumbiram ao tempo, ruas que foram substituídas por avenidas onde prédios modernos foram erguidos para eliminar casarões que se foram transformando em ruínas – e seria aceitável que um velho minhoto, quase contemporâneo do ‘Titanic’, lamentasse essa transformação. Porém, a experiência e o contacto com o género humano temperaram esse saudosismo; a par disso, que já não é pouco, seria impossível imaginar que o mundo não iria transformar-se e erguer as suas fachadas sobre os escombros de outros séculos.

A questão está em saber se as coisas ficaram melhor ou pior; "ordinariamente ficam pior", como lamentava um dos mais melancólicos personagens de ‘Os Maias’, mas é preciso fazer justiça aos vindouros da época em que a idade madura começou a colar-se a nós como uma doença e uma ameaça: eles acreditavam que havia um papel para cumprirem no futuro, uma arquitectura para substituir os desenhos de Raul Lino, ou novidades que cumprissem objectivos e sonhos reais.

Por mim, contentei-me com o desenho das florestas e, mesmo essas, sucumbiram com incêndios ou casario polvilhado nas encostas do meu velho Minho. Quando o Verão se aproxima e enxameia de juventude o eremitério de Moledo, limito-me, como o velho Doutor Homem, meu pai, a considerar que as pessoas fazem escolhas e que há-de haver uma solução para a tristeza periódica dos portugueses. A minha sobrinha Maria Luísa enternece-se e, para me contentar, promete que o futuro trará surpresas felizes; o esforço é notório e fico grato como um paciente a quem o médico acena com a ablação de um vírus.

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