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A meteorologia, dia a dia

O novo volume do diário de Pedro Mexia, Malparado, é a confirmação de um grande génio literário.
Por Francisco José Viegas|19.03.17
A meteorologia, dia a dia
Pedro Mexia Foto Alexandre Azevedo
Por vários motivos, todos eles pouco relacionados com literatura, não há no último século uma grande tradição de livros de memórias ou de diários entre os nossos melhores escritores. Há exceções, naturalmente: de Vergílio Ferreira e José Gomes Ferreira a Fernando Aires, passando – lá atrás – pelas memórias de Raul Brandão. A verdade é que um certo e compreensível pudor se associa à própria dimensão da pátria: falar dos nossos vizinhos (todos tão próximos, os escritores)?, mencionar amores e desamores?, ceder ao humaníssimo desejo de "reparação"?, contar "toda a verdade"?, enumerar os desafetos e as quezílias? Em vida, sobretudo – não. Há vantagens nesta situação: por um lado, não se anda a espiolhar "a vida dos outros" com a colaboração "dos outros" – limitamo-nos a espalhar rumores sediciosos sobre "a vida dos outros".

Figura literária
Pedro Mexia é uma exceção neste retrato, ultrapassando o intimismo pelo lado radical: os seus diários (‘Fora do Mundo’, ‘Prova de Vida’, ‘Estado Civil’ e ‘Lei Seca’, de 2004 a 2014) são realmente íntimos, naquilo que a literatura permite. Não são diários dos outros, não contêm revelações sobre a vida social, não são um catálogo da "vida privada"; são, pelo contrário, o melhor, o mais nobre, o mais belo que se pode encontrar num diário: a construção de uma figura literária, a meio caminho entre o intimismo e a ficção: Pedro Mexia é o principal e maravilhoso objeto dessa revelação ("É quase como a regra psicanalítica: interessa-me o que tu dizes, não o que queres dizer."), e o que acompanhamos é uma personagem construída de que desculpamos os artifícios (porque se trata de "literatura"), a proximidade (porque a procuramos sempre) e a traição (porque somos humanos), porque se trata de um ser complexo, a certa altura inclassificável, que apetece surpreender e que nos surpreende pelo seu próprio desconforto: "Temperamentalmente sou um pessimista. Filosoficamente, um conservador. Politicamente, um moderado. Socialmente sou esquivo. E pessoalmente sou um radical." Neste volume (de 2012 a 2015) são mais do que um "livro aberto" – são a notável confirmação de uma pronúncia própria.

O elogio do voyerismo num romance curto
Do Japão não conhecemos quase nada, mas fique sabendo que Yasunari Kawabata é um escritor de eleição – e que esta belíssima elegia sobre sexo, velhice, fantasia erótica e voyeurismo merece leitura. Ao mesmo tempo (é um romance curto), Kawabata fala do interdito da idade, devolvendo-nos a esperança sem a dor do tempo.

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