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A nova vida das ‘aldeias’ que Lisboa e o Porto escondiam

As vilas e as ilhas, décadas ignoradas, fazem agora mexer o imobiliário. Meia dúzia de metros são luxo para turista.
08.10.17
A nova vida das ‘aldeias’ que Lisboa e o Porto escondiam
Vila Dias, no Beato

Quando chegou à Vila Dias, no Beato, em Lisboa, há quase oitenta anos, Alzira só trazia uma mala de mão. Perdera o pai para a tuberculose e a mãe instalara-se com um segundo amor no número 66, de onde Alzira só viria a sair para casar algumas portas adiante. Não havia água nem luz e só muitos anos mais tarde os moradores conseguiriam transformar o carreiro de pedregulhos em estrada de alcatrão e improvisar casas de banho. Das 160 habitações da vila, 40 estão hoje devolutas. Durante muitos anos, a Vila Dias, que no século XIX cresceu fruto da industrialização e da inauguração dos caminhos de ferro, esteve esquecida pelo poder local – como se o túnel que os moradores têm de atravessar junto à linha de comboio para chegar à vila funcionasse como uma barreira do resto da cidade. Erguida em 1888 como residência dos operários da Fábrica de Fiação de Xabregas, acompanhou a derrocada do setor fabril no século passado, até se transformar num bairro degradado onde os idosos assistem de camarote à degradação das habitações e também da vila, ‘invadida’ por toxicodependentes que há meia dúzia de anos ocuparam as casas que estavam sem gente e roubaram a paz do passado.
Mas em abril deste ano começaram a notar-se algumas movimentações, quando uma sociedade encabeçada pelo engenheiro José Morais Rocha anunciava o investimento de cinco milhões em obras de recuperação da Vila, depois de a adquirir a duas irmãs idosas que a receberam de herança. "Queremos uniformizá-la, reabilitá--la e devolver-lhe a alegria do passado. O nosso objetivo é manter os moradores antigos, sem lhes mexer nas rendas, e atrair gente nova para as casas que estão vazias, com rendas não superiores a 300 euros. Hoje em dia vale a pena investir nisto, vamos ter dinheiro no banco para quê? Aqui está investido em património, com rentabilidade que pode demorar mas que ainda assim é superior à dos bancos. Nós aqui vamos conseguir uma rentabilidade de 3 a 4% ao ano. E aqui está seguro", dizia à ‘Domingo’ pouco antes da Câmara Municipal pedir ao tribunal que anulasse a venda da antiga vila operária, alegando que se viu impedida de exercer o direito de preferência na transação. Enquanto o processo não avança – embora as obras continuem a fazer-se ouvir – é importante perceber que no ano passado o metro quadrado na zona do Beato, em Lisboa, rondava os 700 euros. Neste momento vale entre os 1500 e os 1800 euros e a perspetiva é que em 2018 valha o dobro – garantiu à ‘Domingo’ fonte do meio imobiliário – fruto da futura instalação de uma das maiores incubadoras de empresas da Europa, que vai ocupar um conjunto de edifícios na ala sul da Manutenção Militar, antiga fábrica do Exército, com uma área superior a 30 mil metros quadrados. Durante décadas esquecidas – como se fossem aldeias dentro da cidade – as vilas começam agora a despertar o interesse particular e municipal.
Em 2015, a Câmara Municipal de Lisboa fez um inventário dos pátios e vilas de que era proprietária. À data, eram 59, nenhum deles recebera obras nas últimas duas décadas e 26 destes núcleos habitacionais não tinham salvação possível. Tanto que este ano a autarquia anunciou a intenção de reabilitar as 33 vilas ‘recuperáveis’, sendo que um lote de sete já está em obra (ou em preparação para tal), um investimento de quatro milhões de euros. "Os pátios e vilas fazem parte da memória histórica da construção da cidade. São vilas e pátios operários e por si fazem parte da nossa memória histórica", justifica Paula Marques, vereadora da habitação, garantindo que a ideia é "manter os moradores que já habitam nas vilas, mas, e havendo alguns fogos devolutos, fazer a reabilitação para os pôr a concurso público para arrendamento jovem". "Tive duas casas em vilas para vender e ‘voaram’ numa semana, apesar de precisarem de obras de fundo. Custaram 130 mil euros mas é preciso ver que são casas muito pequenas (a maioria destas habitações tem em média 40 metros quadrados)", confidencia uma outra fonte imobiliária. Na Vila Berta, no bairro da Graça – onde se festeja um dos arraiais populares preferidos dos lisboetas no Santo António– estão agora dois apartamentos à venda por meio milhão de euros (cada um).
Na Villa Luz Pereira, na Mouraria, em Lisboa – que pertence a dois irmãos – os inquilinos mais antigos pagam rendas de 80 euros mas os alugueres recentes rondam os 600 euros, conta Maria Júlia, que foi para ali há 47 anos com o filho na barriga e dali não mais saiu, animada pelo espírito comunitário que naquele tempo alimentava as vilas, com os moradores a assar carne e peixe para comer em conjunto, cuidarem da ‘canalha’ uns dos outros, darem uma mão ou duas no que fosse preciso e até, nas noites quentes, todos sem exceção estenderem colchões à porta das casas para dormirem.
Memórias iguais sem tirar nem pôr tem Irene Lucas, de 86 anos, que chegou à Vila da Bela Vista, no Beato, aos 17 anos, e se instalou na casa com apenas um quarto onde já moravam os sogros e dois cunhados, numa altura em que não havia luz elétrica e em que a água se ia buscar ao chafariz e se carregava à cabeça.

Quanto quer pela casa?

"Já me vieram perguntar várias vezes se havia casas para vender aqui na vila (Travessa de Paulo Jorge, em Belém). Eu podia ter pedido o dinheiro que quisesse que a senhora estava interessada. Mas eu avisei logo que ninguém vendia. Eu agora não queria ir para lado nenhum. Mesmo quando vou a Alfragide ter com a minha filha estou sempre ansiando voltar para o meu cantinho", confidencia Urbana sobre a vila onde as casas do lado esquerdo pertencem à autarquia e do direito a particulares, como é o seu caso.
Na sua origem, a Travessa Paulo Jorge terá estado ligada a um negociante e armador. Nestes terrenos produzia conhecidos vinhos, nos quais teria ensaiado até novas técnicas de fabrico. Ali também mora Suzete dos Santos, de 86 anos, que chegou há trinta anos para uma casa cedida pela Câmara depois de um passado de resistência antifascista ao regime de Salazar (que a levou a fugir para o Brasil com o marido), ela que foi operária em duas fábricas na zona. Agora na Vila Travessa de Paulo Jorge há seis casas fechadas que não voltaram a conhecer vida depois da morte dos seus proprietários. E duas que estão a ser arrendadas a turistas, um fenómeno em toda a capital. "Aqui há tempos um rapaz novo só com um ‘trucezinho’ vestido veio bater à minha porta. Eu não sei falar inglês, ele fazia assim com a mão, pensei deve ser açúcar e fui buscar um pacote. Ele provou, levou, e nunca mais o vi", brinca Suzete.
O turismo também já se apercebeu do potencial turístico das ilhas do Porto. Durante muito tempo identificadas como um problema – uma vez que foram construídas de forma precária aproveitando todas as nesgas de terreno e, por isso, desde os primórdios, foram foco de insalubridade e doença – começam agora a ser tidas em conta pelo mercado imobiliário.
Quem caminha pela rua de São Victor não imagina que por detrás de cada portão fechado há uma ilha: são 33 só naquela rua. E ainda mais longe está de sequer sonhar que no número 99 toda uma ilha foi remodelada para alojamento local. "Para o turista chegar a esta rua causa-lhe algum desconforto inicial mas assim que vai sabendo da história destes alojamentos fica deliciado por estar a viver no centro do Porto como as pessoas do Porto vivem", explica Piera Pereira Barroso, do ‘99 colored socks’, uma ilha onde uma noite custa 90 euros e sobre a qual as únicas críticas no Booking (plataforma que gere as reservas nos hotéis) se referem a um galo que canta...na ilha ao lado. "Esta ilha estava toda em ruínas e foi comprada por 130 mil euros, claro que depois houve o investimento das obras mas o negócio está a correr muito bem e o retorno vai ser rápido. Há várias ilhas a serem compradas com este objetivo", conta Avelino Costa, agente imobiliário no Porto. "Tenho uma que vendo por 210 mil euros e dá para fazer 14 casas para turistas, mas a atual proprietária não está muito preocupada se não vender já porque ainda lucra 2300 euros por mês com as rendas da ilha".
Algumas portas acima, na mesma rua, Fátima Castro, de 68 anos, era uma proprietária infeliz por ver o património da família a degradar-se de dia para dia. "Esta ilha está na minha família há 100 anos. Está assim degradada porque eu não tive dinheiro para a recuperar, as pessoas foram morrendo, outras foram saindo porque as casas precisavam de obras, e agora já só tenho dois casais aqui a morar", conta. Até que afixado num panfleto na junta de freguesia do Bonfim, onde reside, viu um panfleto da Habitar Porto, que prometia apoiar proprietários, inquilinos e profissionais e facilitar processos de recuperação conseguindo habitação a preços justos.
A pré-candidatura ao Reabilitar para Arrendar, do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), já foi aprovada e 2018 deverá ser o ano da renovação da ilha. O programa de arrendamento será depois em regime de renda condicionada.
"Quero trazer para aqui gente da minha freguesia a 150 euros por mês. Quero recuperar a família das ilhas, onde há sempre um prato de comida para todos e ninguém precisa de passar mal", explica-se. Quando a vizinha Maria Alice, da ilha 182, ali se instalou com o marido e os cinco filhos (que teve de esconder do senhorio) numa casa de 25 metros quadrados, havia uma casa de banho metida num carreiro que servia para seis casas.
"Mas depois começaram a morrer os velhotes, os novos começaram a ficar ricos, agora estou muito sozinha, agora as pessoas estão metidas dentro de casa, não vamos mais para a porta uns dos outros. Vejo as outras ilhas a ser recuperadas mas a minha não... O meu senhorio ainda não disse nada. Está em tribunal com os outros herdeiros por causa das partilhas por isso ainda nada se decidiu. Eu só não quero é ter de sair daqui", desabafa a idosa, que paga 51 euros por mês.

Investir no turismo
Quando Casimiro Magalhães foi informado de que a sua ilha se ia transformar em alojamento para turistas decidiu ficar. "Éramos sete pessoas a viver num caminho escuro, que até metia medo, e agora isto voltou a encher-se de gente. Fui tão feliz aqui que não me imaginava a ir embora... e ainda me lembro que quando comprei a primeira televisão a cores da vila todos os vizinhos se juntavam na minha sala", recorda o idoso que agora vive porta com porta com turistas de todo o Mundo. A ideia foi de Tiago Guimarães, que fez do tio e do irmão sócios e comprou dezanove casas na ilha da Glória, mesmo ao pé do largo da Lapa para alugar a turistas, com preços por noite a partir dos 50 euros, mais 30 euros do que pagam de renda mensal a maioria dos moradores que ali resistem. "Andei um ano a namorar o proprietário para que me vendesse as casas e a compra e a reabilitação custaram-me muitos milhares de euros. Mas acredito no potencial turístico do Porto e a verdade é que depois de mim já apareceram outros alojamentos locais na zona. Tiago foi o primeiro investidor em muitos anos a aparecer por ali, mas hoje não faltam placas de ‘Vende-se’, há mais apartamentos reabilitados e houve até um francês que comprou uma outra ilha na zona. Os turistas chegam de malas a arrastar no chão e antes de provarem os bolinhos de boas-vindas veem lençóis estendidos ao vento, o gato Dino a fazer olhinhos como quem pede festas, o Sr. Rocha que tem de sair de casa para tomar um chuveiro ou usar a sanita e tantas e tantas noites se senta à soleira da porta a chorar com saudades dos tempos que já lá vão.

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