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António Barreto: "António Costa não foi carne nem peixe”

Férias após incêndios e apesar do roubo de armas são, para o sociólogo, uma tentativa de dissolver responsabilidades.
Por Leonardo Ralha|09.07.17
António Barreto: "António Costa não foi carne nem peixe”
António Barreto no seu escritório, rodeado por milhares de livros Foto Bruno Colaço

Sonhou distribuir a terra por quem a trabalhava, mas ainda hoje é odiado por iniciar, quando foi ministro da Agricultura, a devolução de mais de um milhão de hectares ocupados no período revolucionário. António Barreto recorda esse tempo no livro ‘Anatomia de Uma Revolução’, agora reeditado pela D. Quixote, e aponta semelhanças e diferenças em relação a 2017.  

Acontece-lhe sentir que está de volta a 1975, como a personagem do ‘Adeus Lenine’ que desperta do coma em que entrou antes da queda do muro de Berlim?
(risos) Acho que não. Estamos a ver um momento ‘sui generis’ do ponto de vista político, sobretudo com o ressurgimento do Partido Comunista, porque o Bloco não é a mesma coisa, na cena política. Em 1975 o PCP nunca chegou a ter formalmente o poder, mas factualmente tinha o essencial do poder, porque tinha um aliado muito poderoso e que detinha o poder: os militares do MFA. Havia ali uma espécie de… - não lhe quero chamar barriga de aluguer -, mas havia uma espécie de poder por procuração. O PCP tinha melhor organização, tinha memória política, tinha um programa, o que faltava não só aos militares como ao resto do país. Os dois últimos grandes trabalhos do dr. Álvaro Cunhal antes do 25 de Abril são ‘Rumo à Vitória’, que é conhecido por toda a gente, e o outro chama-se ‘Relatório ao VI Congresso’, um livro com uma centena de páginas. Em ambos os casos ele discute o que acontecerá no dia em que a ditadura cair. Havia naquela altura, nos anos 60, uma grande discussão se seria pela luta armada, se a luta era legal, legítima ou ilegítima. O dr. Cunhal descreve o que se pode passar, e está convencido que será um levantamento nacional, democrático, eventualmente com a colaboração dos militares, e começa a desenhar um cenário a fazer lembrar o Outubro de 1917 da Revolução Russa, que começa como uma revolução democrática, com uma assembleia constituinte, com um poder provisório revolucionário. Ele descreve o que poderá ser em Portugal com um cenário muito próximo. E foi o que aconteceu. Premonitório? Pelo contrário, isto foi um programa fornecido ao MFA, e que estes seguiram. A velha discussão de saber se a Assembleia Constituinte tem poderes executivos ou se só deve redigir a Constituição e mais nada, porque não há Governo nem Parlamento eleito, há um Governo, que é provisório, e tem ou não poderes executivos, é ou não um governo revolucionário? Venceu a tese do PCP, que era a tese do dr. Cunhal, que era a tese do Lenine. Lenine dizia que a Assembleia Constituinte tem que fazer uma Constituição e mais nada. Tem que estar calada. O poder é dos sovietes e do governo provisório, que tem poder revolucionário. Quando se fez a Reforma Agrária, em 1975 começaram as ocupações e fizeram-se leis que vieram legalizar as ocupações. Era um governo provisório que não tinha poderes do ponto de vista constitucional, mas como se vivia um período de ausência de legitimidade democrática mas havia legitimidade revolucionária, tudo resultou.

Quando acontecem coisas como morrerem 47 pessoas queimadas numa estrada nacional e desaparecerem armas do Exército isto não lhe lembra um pouco o país que recebeu quando foi para o Governo?
Do ponto de vista da desordem institucional e da incapacidade de organização dos grupos em sociedade, pode ser que sim. Fiquei muito surpreendido e chocado, como toda a gente, com os mortos no incêndio, com os mortos na estrada nacional. A morte daquelas pessoas todas é mais dramática do que o roubo de armamento perigoso, em grandes quantidades. Não sei quanto é que aquilo representa em peso e em volume…

Não se levava às costas…
Penso que tiveram de ser tiradas com uma ou várias camionetas, imagino que de grande dimensão. Nem às costas nem num saco de supermercado. Para que isso tenha acontecido quer dizer que se chegou a um estado de desatenção, de desorganização, de vertigem de poder, de quem é que manda, de quais são as regras, o que é muito inquietante e muito aflitivo. Não faço a comparação, mas aceito a sua provocação de fazer um paralelismo.

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