“As balas zurziam, levantavam pedras e pó ao meu redor”

Entre os muitos episódios, escolho aquele em que conto um ataque terrível da UPA no caminho para Mucondo.
Por Fernanda Cachão|02.09.18
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Nome  Luís Albino Gatinho
Comissão Angola 1961-63
Força Bat. Caçadores 96 Companhia Caçadores 103
Informação Professor reformado, de 79 anos. Vive em benavente. É viúvo, tem dois filhos e duas netas gémeas a estudar engenharia e medicina

Estive entre 1961 e 1963, em comissão de serviço em Angola. Era o soldado condutor 1423/60, do Batalhão de Caçadores 96 Companhia Caçadores 103. Conto sobre aquela vez em que depois de deixarmos o Piri - comuna angolana pertence ao município dos Dembos, na província do Bengo-, passámos a ponte do rio Dange, virámos à esquerda e depois de atravessarmos o rio Luica, do outro lado estava uma placa que dizia: "República Independente da UPA - todo o branco que aqui passar morre".

Depois de atravessarmos com todos os carros, já se tinha feito noite e ali acampámos. No dia seguinte fomos ferozmente atacados, ficou ferido o comandante de pelotão, Alferes Leitão. Eu era o condutor da 1ª secção do 3º pelotão da Companhia 103. Comigo seguiam à frente no jipão o cabo Gandarinho e o guia, o Sr. Borges, que também ficaram gravemente feridos. Seguiam connosco ainda os atiradores e as metralhadoras ‘Breda’, e foi um daqueles que disse: "O nosso condutor está ferido". Eu passei a mão pelas costas que, realmente, estavam cheias de sangue. Verifiquei que, apesar de ter a farda ensopada, o sangue não era meu mas do cabo que tinha caído para cima de mim.

Entretanto, o nosso guia, que também estava gravemente ferido, caiu para fora do jipe. Parei para acudir e os meus camaradas gritaram para que saísse dali, exposto como estava ao ataque do inimigo. Fiz que não ouvia e pedi- -lhes os pensos que cada um de nós tinha no estojo de primeiros socorros, para assim poder conter de alguma forma o sangue que jorrava dos buracos das balas no peito e nas costas deles.



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