Belas histórias têm 100 anos

O padre David Antunes, frade franciscano, completou um século de vida. A rir à gargalhada
Por Secundino Cunha|11.09.16
Belas histórias têm 100 anos
Nasceu a 5 de setembro de 1916, em Leiria Foto Nuno Fernandes Veiga

Como escreveu numa célebre nota autobiográfica o grande mestre Giovanni Papini, "não tive infância, sou um homem qualquer, sou um homem sem história". É isso, sou um homem sem história e por isso admira-me muito o vosso interesse em falar comigo ".

Este "homem sem história" é o padre franciscano, da Ordem dos Frades Menores, José David Antunes, que na passada segunda-feira completou cem anos de idade.

E, atendendo ao introito, cabe aqui perguntar como é que um homem que chega aos cem anos, com tão longa vida, não tem história? "A vida pode ser longa e não valer nada. A minha, se valeu alguma coisa, foi graças aos meus amigos. Deve-se, aliás, a eles o facto de eu ter chegado aos cem anos", afirma, do alto da sua humildade, o frade mais franciscano de coração do que de hábito.

José David Antunes (abre parêntesis na conversa para pedir, com piada: escreva bem o meu nome, José David e não José da Vide) nasceu no centro da cidade de Leiria, a 5 de setembro de 1916, quando a Grande Guerra ia a meio. Com apenas dez anos já com Salazar a assumir a liderança do País, entrou para o Seminário, onde logo se apaixonou por Francisco de Assis, que classifica como "o mais perfeito dos homens".

Uma queda, há cinco anos, que lhe causou a fratura de uma perna, provocou algumas complicações à locomoção. Os passos estão mais lentos e a muleta já se tornou um auxiliar praticamente indispensável. O sacerdote aceita a ajuda, mas considera-a temporária e ultrapassável. "Estou a precisar de intensificar o exercício físico. A gente chega a uma idade em que tende a entregar-se à preguiça", afirma o homem que, afinal, celebra "apenas" cem anos.

"Quando nasci Deus disse-me: David porque te vais esforçar por fazer alguma coisa de jeito, pega lá cem anos. Agora, que cá cheguei, deve dizer: Não fizeste nada de jeito, mas fizeste algum esforço, por isso, pega mais cem", explica, terminando com uma sonora gargalhada.

"PRECISAMOS DE SORRIR"
A boa disposição é uma das características deste religioso, amante das artes e das letras, que "gastou" mais de metade da sua longa vida a ensinar no colégio franciscano de Montariol, em Braga. Diz mesmo que a arte de saber rir e sorrir é um dos maiores segredos da sua longevidade. "O quanto nós precisamos de rir e de sorrir, ninguém imagina. Neste tempo de vidas fechadas, de egoísmos e de tanta solidão, o que falta é mesmo rir. Precisamos muito de sorrir. E o que custa sorrir? O que custa?", pergunta o frade, lembrando que "quem não ri leva, inevitavelmente, uma vida triste".

Esta alegria genuína corre-lhe nas veias. São poucas as frases que não terminam com uma gargalhada. E as histórias? Essas então, salvo raríssimas exceções, nunca são findadas de outra forma. Sim, porque as histórias que este grande contador de histórias conta são quase todas para fazer rir. Aliás, um ensinamento por cada gargalhada é, na sua opinião, o sal de uma boa história.

A maioria dos seus antigos alunos, quase todos estudantes no Colégio de Montariol, lembram o padre David Antunes como o professor de desenho, o homem que desenhava, produzia e colocava as ornamentações de Natal e como o frade que tirava as fotografias nas festas.

Foi sempre um homem fascinado pela imagem, tanto na pintura, como na fotografia ou mesmo nas figuras de estilo criadas pelas letras. Uma das atividades a que dedicou muito tempo da sua vida foi a tradução literária. Traduziu dezenas de obras a partir de vários idiomas, como italiano, francês, inglês, alemão ou castelhano.

Apesar disso, não se considera um poliglota. "Não, nem pensar. Consigo entender-me com pessoas que falam outras línguas e fiz, de facto, umas traições, quer dizer, traduções [risos]. Bom, devo dizer que, na tradução, fiz um trabalho sério e tentei, dentro das minhas limitações, ser, o mais possível, fiel ao texto que me era apresentado.

‘Rio Profundo’, do japonês Shusaku Endo, traduzido do inglês, ‘S. Francisco e D. Quixote, dois loucos necessários’, do castelhano José António Merino, ou ‘O Coração do Pobrezinho’ do padre exorcista francês Max de Wasseige, são alguns dos exemplos de obras traduzidas para português pelo frade centenário.

"Não consegui uma obra, longe disso. Digamos que tenho uma obra tentada", afirma, sublinhando, no entanto, que, embora se considere sobretudo "um emotivo, um instintivo", possui, de facto, uma virtude interessante: "É verdade que tenho uma grande qualidade, de que me orgulho, que é o dom da admiração. Eu consigo, de facto, admirar a gratidão, a bondade e a caridade com que os meus amigos me acolhem, esse dom eu tenho-o. Olhe, sou um felizardo".

AMANTE DO BURLESCO
O que hoje os amigos admiram no padre David Antunes é a sua boa forma física, mas sobretudo, a sua frescura intelectual. É hoje, como sempre foi, um extraordinário contador de histórias. Quando, nesta conversa com a ‘Domingo’, lhe perguntamos quais os pintores que mais admira, falou de El Grieco, de Giotto, e aqui, saltou uma história hilariante.

"Em relação ao Giotto há uma história que eu gosto muito de contar, mas não sei se posso...". Depois de garantida a proteção dos mais sensíveis, lá veio a história.

"O Giotto era um pintor genial, mas era muito feio. E os filhos ainda eram mais feios. Um dia, numa das visitas que frequentemente lhe fazia, o Dante ganhou coragem e disse-lhe que vivia intrigado com o facto de um homem que faz obras tão belas, quase divinas, ter uns filhos tão feios. Ao que o Giotto lhe respondeu: É que eu pinto de dia e faço filhos de noite".

Aos cem anos de idade, este seguidor de S. Francisco de Assis, por quem diz ter-se apaixonado na infância e aumentado sempre a paixão ao longo da vida, afirma-se um amante do burlesco, do anedótico, do que faz rir.

Enquanto pintor e desenhador (é autor, entre outros, de um célebre retrato de Cristo a lápis) contactou com muita gente famosa e com artistas de grande nomeada. Mas diz que nunca aprendeu nada, porque passava a vida a conversar.

"Olhe, estabeleci amizade, por exemplo, com o mestre Acácio Lino, só que não aprendi nada. Ele era um grande conversador eu passava o tempo a ouvi-lo. Um dia contou-me que foi para Paris, como bolseiro do D. Carlos, com o objetivo de aprender com o grande Adolphe Bouguereau. Sabia pouco francês e decorou umas frases. Perante o mestre, que tinha uma certa imponência, atrapalhou-se e começou a gaguejar. Nessa altura o Bouguereau disse-lhe: ‘Vite, vite, parce que pendant que je pisse, je perd mil francs’ (depressa, depressa, porque enquanto mijo, perco mil francos).

Dono de uma admirável cultura e de uma inteligência rara, que só uma humildade maior ainda impediu que se tornasse um pintor famoso ou até um escritor reconhecido, o padre David Antunes realça sobretudo o facto de, ao longo dos seus cem anos de vida, ter conseguido ser frade e fazer muitos amigos. "Foi graças a eles, aos meus irmãos e aos meus amigos que cheguei até aqui. Faço cem anos, a eles o devo. Aliás, devo dizer-lhe que é isso que me comove e é isso que, na hora de partir, chorarei, a bondade e a amizade dos que comigo se cruzaram. O resto é efémero, pouco interessa. Eu sou o que está aqui à vista, que só vale o que a amizade dos outros permite".

A festa do centenário do frade pintor teve duas fases: uma com amigos e antigos alunos e outra com a comunidade franciscana. Em ambas se comoveu e em ambas disse não ser merecedor de tanto reconhecimento.

OS ALUNOS SEMPRE RECONHECIDOS AO MESTRE

O escultor e pintor António Mendanha será, muito provavelmente, o que melhor uso dá aos livros do velho professor (é o autor do retrato que aqui publicamos). Mas foram muitos, talvez milhares, os que apreenderam a certeza do traço, o verdadeiro sentido das cores ou o âmago de beleza nas aulas de desenho do padre David. Ao longo de meio século foi o professor de desenho do Colégio de Montariol. "Naquele tempo dizia-se Educação Visual. Essa catalogação dava-me foros largos, ao ponto de me considerar um oftalmologista", sublinha com graça. Os irmãos frades do Convento de Montarior resolveram homenageá-lo, mantendo, num material duradouro, as ornamentações natalícias do refeitório. O Natal dos franciscanos em Montariol terá sempre a marca do mestre que tanta cor deu aos cânticos da noite feliz.

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