Biografia da crueldade

Lenine sacrificou tudo pela revolução. Até a natureza humana
Por Francisco José Viegas|28.01.18
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Biografia da crueldade

Em 1892, Tolstoi dirigiu uma campanha de assistência às vítimas da razia de fome, tifo e cólera na bacia do Volga, que fez 400 mil mortes. Anton Tchekov, que estudara de Medicina, era um dos rostos da campanha – que fundou cantinas, deu remédios e comida, montou hospitais e recolheu dinheiro para os mais necessitados.

Tanto Anna como Maria, irmãs de Vladimir Ilitch Ulianov, participaram – e testemunharam a indiferença do irmão. Para Lenine, então um mau advogado, "a fome é uma fonte de progresso", pois expunha as debilidades do czarismo e a necessidade da revolução.

Sem "um lado mais íntimo"

Este é apenas um dos episódios usados por Victor Sebestyen para demonstrar até que ponto Lenine sacrificou quase tudo aos "interesses da revolução" pela qual deu a vida e pela qual obrigou milhões de russos a dar as suas. Faz uma boa tentativa de explorar o lado mais ‘íntimo’ da vida de Lenine, mas tal não é possível após ter entrado no comboio selado que o levaria até à Estação Finlândia: se até aí ele consagrou a vida a preparar a futura revolução e – mais do que a lutar contra o czarismo – à construção do PC soviético, depois dos dias de Petrogrado deixou de ter "um lado mais íntimo". Tudo nele se confundia com revolução, novo regime, terror vermelho, ódios pessoais e políticos, mortais e mortíferos, crueldade pública, ordens de fuzilamento.

Entre 1917 e 1924 (Lenine morreu a 21 de janeiro, após uma agonia de quase um ano), só teve duas zonas de intimidade: os momentos de repouso com Nadja, a mulher, numa hospedaria de Gorki, onde o cozinheiro, Spiridou Putin, teria um neto chamado Vladimir – e a relação com a amante, Inessa Armand, uma bela feminista bolchevique que antes trocara o marido pelo cunhado. Da vida em Gorki sabemos pouco; de Inessa, o estalinismo varreu o único episódio verdadeiramente humano de Lenine para não manchar a biografia.

Molotov, que conheceu bem os dois ditadores, disse que Lenine era mais cruel e implacável do que Estaline. O livro não o prova inteiramente, mas mostra de que fibra se fez a crueldade de Lenine. E é tão indispensável como aterrador – pela natureza do biografado.

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