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Brasilino Godinho fez-se doutor aos 85 anos

Aos 16 anos ouviu que os estudos custavam muito dinheiro. Aos 77, depois enviuvar, fez as provas e entrou na universidade.
Por Marta Martins Silva|16.07.17
Brasilino Godinho fez-se doutor aos 85 anos

Tinha 16 anos quando, entre o medo e a coragem, se dirigiu ao escritório do "austero" avô paterno, um industrial remediado, para lhe pedir que este custeasse o curso de engenharia no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. "Após uma pausa que me pareceu uma eternidade, disse: ‘Isso custa muito dinheiro’. Mais uma pequena pausa antes da irrevogável sentença: ‘Se tu quiseres compro-te uma bicicleta e vens para o escritório ou para a oficina da fábrica’. Naquela altura foi uma tremenda frustração na minha vida", conta agora Brasilino Godinho, que 61 anos depois desta conversa no escritório do avô – dele não aceitou nem o trabalho nem a bicicleta – entrou na universidade, de onde saiu agora com o doutoramento em Estudos Culturais, aos 85 anos feitos em outubro, dois filhos e três netos.

Três meses antes de decidir inscrever-se na universidade – através das provas de acesso para maiores de 23 anos – perdia a mulher, para uma doença prolongada. "Não chegou a saber da minha vontade. Nem acompanhou o sonho, dado que eu não vivia obcecado pela ideia de entrar na universidade. Preocupava-           -me, sim, com a vida e o bem-estar da família. Tanto que, nem sequer, durante dezenas de anos, a hipótese da universidade era motivo de conversas entre os familiares".

Brasilino foi desenhador de construção civil durante nove anos e a seguir topógrafo nos serviços do Estado. "Logo que me casei, em 1957, tomei a decisão de trabalhar na área da engenharia rodoviária, elaborando projetos de construção de arruamentos e estradas, sem ser titular do curso de engenharia, mas atuando sob o firme propósito de jamais trocar opiniões, solicitar orientação e pedir conselhos a qualquer engenheiro". No exercício das funções oficiais sofreu várias vezes na pele a falta do curso superior que pedira ao avô para lhe pagar.

"Os meus projetos eram assinados pelos diretores dos serviços para não se levantarem problemas de melindres deontológicos e hierárquicos com os engenheiros seus subordinados. Nas minhas atividades particulares tinha que recorrer a engenheiros meus conhecidos, a quem pagava as respetivas assinaturas das supostas autorias, visto que não tinha habilitações legais para ser eu a assinar", recorda quem ainda assim, quando se matriculou na universidade, optou por uma outra área que não a engenharia com que sonhara em adolescente.

Uma negativa a latim

O vazio provocado pela morte da mulher acabou por levá-lo, indiretamente, a procurar preencher os dias, razão mais do que suficiente para ir recuperar do baú a vontade antiga de que o avô o privou naquele longínquo ano de 1947.

"Em setembro de 2008, decidi encetar a vida académica, visto que a profissional e a familiar se encontravam esgotadas", confessa o octogenário que foi caloiro aos 77 anos e que na segunda semana de aulas (com apenas três lições de latim) foi confrontado com 7 valores (negativa) num teste. "Fiquei atordoado. Nunca tinha tido um sete. Recuperei e no final do período tive 16 valores. Felizmente, nos exames não era apoquentado pelo nervosismo".

No início da jornada académica houve quem desconfiasse do que fazia um idoso na fila da frente das aulas, lado a lado com os caloiros de 18 anos, com quem haveria de vir a partilhar dúvidas e fazer trabalhos de grupo apesar das décadas de vida que os separavam. "No princípio do meu primeiro ano letivo houve uma acesa discussão entre dois colegas. Dizia um: ‘aquele senhor calvo que está em todas as aulas, na primeira fila, muito atento ao que diz o professor, é um inspetor’. Respondia o outro: ‘esse senhor é nosso colega’. Voltava à carga o primeiro: ‘Como assim? Não pode ser! Com aquele jeito e idade só pode ser inspetor’. Só com muito esforço o teimoso lá ficou convencido que era mesmo colega".

Desfeitas as dúvidas era tempo de se agarrar aos livros e à internet, ajuda preciosa que no seu tempo de estudante estava longe de ser inventada. "Muito difícil, esforçada e trabalhosa foi a tarefa de aprendizagem. Por dificuldades de audição, não perceber bem os teores das lições; e, em casa, ter tempos redobrados de pesquisa nos livros e na internet das matérias que não captara em aula; a que se seguiam os períodos diários de estudo propriamente dito", conta Brasilino que tomou no fim de semana passado uma decisão comum a tantos outros doutores acabados de formar: procurar emprego. "Não faria sentido que, com a experiência de vida octogenária e a valorização académica dos últimos oito anos, ficasse inativo".

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