Sub-categorias

Notícia

CASOS QUE ABALARAM O PAÍS NO VERÃO

Foi no Verão que o País passou por alguns dos casos mais trágicos, históricos e mediáticos. Quem não se recorda do mítico ‘Verão Quente’ de 1975, do caso do Aquaparque e do ‘buzinão’ na Ponte 25 de Abril? Mas há mais...
29.06.03
  • partilhe
  • 0
  • +
CASOS QUE ABALARAM O PAÍS NO VERÃO
José Custódio (na foto), um dos bombeiros que apagaram as chamas no Chiado. Nunca se soube a origem do fogo Foto Orlando Almeida
"Notícia de última hora: O Chiado está a arder desde as primeiras horas da madrugada. Mais desenvolvimentos a seguir à publicidade". Passavam dois minutos das sete horas da manhã, do dia 25 de Agosto de 1988, quando José Custódio, casado e então com 32 anos, foi sacudido da cama com a notícia do incêndio na zona nobre da capital. Sem perder tempo, vestiu a farda e saiu porta fora, em direcção ao quartel. O frenesim já se fazia sentir desde muito cedo. "Antes de chegarmos ao local, nem eu nem os meus colegas conseguíamos imaginar a dimensão do fogo. Mas assim que subimos a Rua Garrett deparámo-nos com um cenário dantesco." Tal qual um quadro pintado pelo artista flamengo Bosch, viam-se línguas de fogo a sair pelas janelas dos prédios, com grande intensidade. O cheiro intenso a queimado subia pelas artérias estreitas do Chiado. O calor abrasador sufocava o ar. "Por muitos anos que viva, nunca esquecerei essa imagem", recorda, emocionado, José Custódio.
Foi há 15 anos que o histórico incêndio fez desaparecer grande parte do património arquitectónico do Chiado. Um dia de ‘verão quente’ que fez parar um País, chocado pelas imagens que via na televisão. Ninguém sabe dizer ao certo a que horas ou de que forma deflagrou o fogo, que começou no edifício Grandella. Segundo a versão de um guarda nocturno do elevador de Santa Justa, "talvez por volta das três da manhã". Mas a actriz Irene Cruz, que lá passou mais cedo, assegura que viu fumo a sair do edifício antes disso. Ainda hoje se especula sobre a hora certa da desgraça e a sua origem. Mas a verdade é que 13 horas bastaram para os Armazéns do Chiado, o Eduardo Martins, as lojas Casa Batalha, Valentim de Carvalho, a pastelaria Ferrari, a discoteca do Carmo, entre outras, ficarem em cinzas. Apesar dos esforços dos mais de 1.600 bombeiros. "A maioria não se rendeu até ao incêndio estar controlado", conta José Custódio. No fim do dia, este alfacinha, hoje com 47 anos, chegou a casa exausto. Pior sorte teve o seu colega Joaquim Ramos, que perdeu a vida na derrocada da fachada do edifício da Valentim de Carvalho. "Tendo em conta a dimensão desta tragédia, foi um milagre só ter morrido um bombeiro", diz.
UMA REVOLUÇÃO POR MINUTO
Mais vítimas fez o ‘Verão Quente’ de 1975. Durante o PREC (Processo Revolucionário Em Curso), houve o risco do País cair numa guerra civil e na tomada de poder por parte das forças afectas aos comunistas ou de um contra-golpe proveniente da extrema-direita. Os resultados do histórico acto eleitoral para a Assembleia Constituinte, a 25 de Abril de 1975 – que deram a vitória ao Partido Socialista, com 37,9% dos votos – elevaram os ânimos no seio do Partido Comunista, que obteve uma representação parlamentar de 12,5%. O País estava a ‘aquecer’, caminhando para um dos período mais conturbado da História recente. Quanto à data certa do início do ‘Verão Quente’, as opiniões dividem-se. Há quem diga que começou logo a seguir ao 11 de Março – com a instituição do Conselho da Revolução e a adopção de uma política geral de nacionalizações e de reforma agrária – ou a 19 de Maio, com o ‘caso República’, quando um grupo radical afasta Raul Rêgo da direcção do jornal, com a acusação de tê-lo transformado no órgão oficioso do PS.
Reagindo ao curso dos acontecimentos, e à situação do ‘caso República’, o Partido Socialista desencadeia manifestações de massas – a maior das quais foi a da Fonte Lumi-nosa – acabando por abandonar o governo a 16 de Julho. O Partido Popular Democrático segue-lhe o exemplo. Três dias antes, a 13 de Julho, a sede do PCP, em Rio Maior, é assaltada. É desta forma que começa uma série de acções violentas contra as sedes de partidos e organizações políticas de esquerda, registadas por todo o País, mas com mais intensidade no Norte e Centro. Acontecimentos que deram origem aos confrontos do ‘Verão Quente’.
Nesse período histórico confrontaram-se os que defendiam o respeito dos resultados eleitorais da Constituinte (democracia representativa) com os que advogavam uma democracia directa, de braço no ar, sob o nome de Poder Popular, que passada uma fase de desordem tenderia à democracia popular dos países comunistas controlados por Moscovo. Para o deputado europeu Vasco Graça Moura, o começo da ‘estação quente’ coincidiu com a nomeação do V Governo Provisório. "Um governo gonçalvista de obediência comunista, coberto no topo por um triunvirato sem pés nem cabeça. Até essa nomeação, em princípios de Agosto, houve apenas preliminares."
Nesses meses viu-se de tudo: golpes, contra-golpes, nacionalizações, saneamentos, tiros, bombas, manifestações, assaltos a sedes partidárias e até mortos militares e civis. "O ponto alto do ´Verão Quente’ deu-se a 8 de Agosto, quando foi publicado na imprensa o ‘Documento dos Nove’, redigido por Melo Antunes", recorda o deputado socialista, Joel Hasse Ferreira. O texto surgiu quando as posições se extremavam e conseguiu a proeza de ‘separar as águas’ entre os moderados e os radicais. Entre os nove subscritores encontravam-se algumas das personalidades que viriam a marcar esta época, como Vasco Lourenço, Canto e Castro e Vítor Crespo. Só a 25 de Novembro o país respirou de alívio. E sem o banho de sangue que muitos previam.
Com o passar dos anos, os ânimos serenaram. As campanhas eleitorais – como a de Sá Carneiro em 1980, ou a de Cavaco Silva, em 1987 – ainda emocionaram o País. Mas qualquer semelhança com o ‘Verão Quente’ de 75 era mera coincidência.
MORTE NO AQUAPARQUE
A partir da década de 90, as manchetes de Verão falavam cada vez menos de política e mais sobre os casos sociais e de justiça. A 29 de Julho de 1993, duas crianças perderam a vida no Aquaparque, em Lisboa. Durante dois dias, o País esperou por notícias de Cristina Caldas. O mistério só seria desvendado quando outra criança, Frederico Duarte, sumiu nas mesmas circunstâncias. Perante estas estranhas coincidências, a administração do parque recreativo foi obrigada a esvaziar a piscina. Frederico e Cristina tinham sido sugados pelas tubagens.
O caso andou pelos tribunais durante dez anos, pondo a nu as fragilidades do sistema judicial. Os pais do menino nunca desistiram de lutar. Mas só, em 2002, conseguiram ver os seus esforços recompensados. Numa decisão histórica, o Estado foi obrigado a pagar uma indemnização. "A justiça tarda mas não falha. E desta vez, os fracos – os pais de Frederico – derrotaram os mais fortes", regozija-se António Pinto Pereira, o advogado da família da vítima.
NÃO PAGAMOS!
A 24 de Junho de 1994, Luís Miguel Figueiredo, então com 18 anos, foi até à Ponte do Pragal. O adolescente estava a assistir em casa, pela televisão, aos primeiros confrontos entre o corpo de intervenção da GNR e vários populares que se manifestavam contra o aumento das portagens – de 100 para 150 escudos – na Ponte 25 de Abril. "Como vivia ali perto, em Almada, decidi juntar-me aos protestos. Não pensei que houvesse perigo", recorda Luís Miguel. Segundo conta, a situação começou a descontrolar-se quando algumas pessoas assaltaram uma camioneta de fruta e começaram a lançar laranjas e maçãs à polícia. Com o ‘buzinão’ a aumentar de volume, a polícia investiu sobre os manifestantes. Às quatro da manhã, Luís foi acidentalmente ferido com um tiro e transportado para o Hospital Garcia de Orta. "A bala entrou-me pela omoplata esquerda e saiu pela direita. Tive de reaprender a comer e fiquei com deficiências nos braços. O caso está em tribunal e continuo à espera que se faça justiça", lamenta-se Luís Miguel, que desde então vive confinado a uma cadeira de rodas.
TIMOR E OS 'GANGS'
O Verão de 1999 foi marcado por uma onda de solidariedade. Tudo pela causa do povo timorense. Os resultados do referendo de 30 de Agosto desse ano, demonstraram claramente que o povo Maubere desejava a autodeterminação, o que desencadeou uma onda de violência sem precedentes por parte das milícias integracionistas da Indonésia. As Nações Unidas constituem uma força internacional de paz. Os portugueses saíram para a rua, vestiram-se de branco, fizeram vigílias, gritaram e cantaram ‘Ai Timor’, dos Trovante (O hino da causa timorense). "A união dos portugueses foi um dos factores fundamentais para a sensibilização do poder político e da opinião pública mundiais", defende Luís Represas.
A palavra ‘gang’ passou a ser voz corrente quando, em Agosto de 1992, a jovem Ana Cristina foi raptada e assassinada pelo chamado ‘Gang do Multibanco’. O grupo foi mais tarde acusado de raptar, violar e roubar mulheres, obrigando-as depois a revelar os códigos do cartão. Em 1995 seriam capturados. Três anos depois, outro ‘gang’ voltava a ser manchete. Na madrugada de 20 de Julho de 2000, um grupo de jovens entre os 16 e 20 anos, do Bairro da Bela Vista, em Setúbal, armados de caçadeiras de canos serrados, assaltou quatro estações de serviço e cinco automobilistas, um dos quais a actriz Lídia Franco. A artista circulava na CREL, a caminho de casa. "Entraram no meu carro com o intuito de me violar. Mas tenho a certeza que ao verem as minhas jóias resolveram roubá-las e fugir", recorda a actriz.
OUTROS FACTOS
26 de Junho de 1976: Em Portugal, realizam-se as primeiras eleições, no último meio século, para a presidência da República, com a vitória de Ramalho Eanes.
5 de Julho de 1979: O PSD, CDS e PPM criam a Aliança Democrática (AD).
12 de Agosto de 1984: Carlos Lopes conquista a medalha de ouro na maratona dos XXIII Jogos Olímpicos, em Los Angeles, EUA.
11 de Setembro de 1985: O choque frontal de dois comboios, em Mangualde, provoca a morte a mais de 120 passageiros.
21 de Julho de 1988: Na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, nascem as primeiras gémeas-proveta portuguesas.
26 de Agosto de 1988: Morre o cantor português Carlos Paião.
7 de Agosto de 1990: A região centro de Portugal é vítima de violentos fogos florestais, sendo o município de Arganil um dos mais afectados.
19 de Setembro de 1995: Freitas do Amaral é eleito presidente da Assembleia-geral da ONU.
3 de Agosto de 1996: Nos Jogos Olímpicos de Atlanta, a atleta portuguesa Fernanda Ribeiro ganha a medalha de ouro nos 10 000 metros.
24 de Julho de 1999: Mais de 34 mil pessoas juntaram-se no relvado do Estádio Nacional com o objectivo de promover a candidatura portuguesa ao Euro’ 2004. O Logótipo Humano entrou para o ‘Guiness Book of Records’.
25 Agosto 2001: Seis portugueses desaparecidos em Fortaleza, no Brasil, foram assassinados. Os empresários, desaparecidos desde 11 de Agosto, foram encontrados debaixo de uma placa de cimento num bar situado na famosa praia do Futuro, a oito quilómetros de Fortaleza. Luís Miguel Militão foi o autor moral do crime.
26 de Julho 2002: Inauguração da auto-estrada do Algarve. Sem pompa nem circunstância
TOUROS DE MORTE
Eram 18h40, do dia 28 de Agosto de 2002, quando foi morto pela primeira vez legalmente, desde 1928, um touro nas Festas de Nossa Senhora da Conceição, em Barrancos. Até 1999, a pacata vila alentejana tinha insistido em contrariar a lei portuguesa, que há cerca de 200 anos proíbe os touros de morte. E a recusa do Parlamento em aprovar uma lei de excepção, foi a gota de água. O Governo leva a Conselho de Ministros uma nova legislação que descriminaliza as touradas de morte mas impõe coimas elevadas. Durante esses dois anos, indiferentes aos argumentos jurídicos, os barranquenhos continuam a fazer os tradicionais ‘encerros’. Os confrontos agudizam-se sempre que a GNR é chamada a identificar os responsáveis. Durante a Presidência Aberta de 2002, Jorge Sampaio passou pela vila alentejana e manifestou-se interessado em conciliar a legalidade com a tradição. À pressa criou-se um regime de excepção para a vila. Mega Ferreira escreveu então que a medida não resultava de ponderação mas de uma forma de "disfarçar a impotência do Estado em respeitar a lei". Até hoje, os activistas dos direitos dos animais mantêm os protestos.
MASSACRE EM FORTALEZA
Com o objectivo de passarem umas férias relaxadas, os empresários Vítor Martins, Joaquim Silva Mendes, António Correia Rodrigues, Joaquim Pestana da Costa, Manuel Barros e Joaquim Fernandes Martins chegaram, a 12 de Agosto de 2001, a Fortaleza, no Brasil. No aeroporto esperava-os o anfitrião, Luís Militão Guerreiro. A partir dessa data, em Portugal, os familiares perderam-lhes o rasto. Com o passar dos dias, também o País foi ficando em estado de alerta, à espera de receber notícias do paradeiro dos seis portugueses. A 25 de Agosto, a reviravolta: os corpos dos empresários são encontrados debaixo de uma placa de cimento num bar situado na famosa praia do Futuro, a oito quilómetros de Fortaleza. O golpe fora organizado por Militão, que contou com mais quatro cúmplices. No Vela Latina, as vítimas tinham sido barbaramente espancadas, antes do assassínio. Das contas dos portugueses foram levantados cerca de sete mil euros em dinheiro, tendo os cartões de crédito servido para compras na ordem dos 25 mil euros.

pub

pub

Ver todos os comentários
Para comentar tem de ser utilizador registado, se já é faça
Caso ainda não o seja, clique no link e registe-se em 30 segundos. Participe, a sua opinião é importante!

Mais notícias

Mais notícias de Domingo

Domingo

Até reconhece o dono

Até reconhece o dono

Apesar da falha durante a apresentação, o iPhone X é um enorme salto tecnológico no mundo dos smartphones.

Domingo

Mergulho no vazio do Olvido

Mergulho no vazio do Olvido

Os Grandfather’s House voltam a surpreender com nova metamorfose estética, mais densos e negros que nunca.

Domingo

Turistas em Lisboa

Turistas em Lisboa

Não nego que numa cidade que não está preparada, o turismo traga problemas. Mas é preciso analisar o fenómeno

pub