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Como se liberta a poesia atrás de umas grades

Não há fuga possível, mas escape, em forma de poesia. Uma bebedeira de letras com menos efeitos secundários que outros vícios que os conduziram às celas.
08.07.07
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Como se liberta a poesia atrás de umas grades
Poesia atrás das grades Foto Pedro Catarino
45 minutos de evasão do sistema de siglas e designações protocolares. Da Ala A da UDL, ou Unidade Livre de Drogas, e da numeração que lhes furtou o nome de baptismo. Hoje, são 50. Arrumados nos assentos de uma das salas do Estabelecimento Prisional de Lisboa, consoante a cedência a aparecer no retrato ou a intransigência na protecção da identidade.
“Ah, isto é que é a poesia!” A constatação que dá título à iniciativa cai-lhes no goto e com ela caem os mitos à medida que conhecem os autores para além das capas dos livros. A desconfiança também baixa a guarda. Os braços vão desfazendo as cruzes defensivas e os sorrisos começam a viajar de orelha a orelha quando as palavras fazem sentido. “A poesia é expressão de liberdade, não obedece às regras de outros textos”, lembra Filipe Lopes, o contador de histórias que as tem levado às escolas, bibliotecas e cadeias de Norte a Sul do País. “Efectivamente a poesia não tem grades. Quando lemos, conseguimos abrir janelas lá para fora. A poesia nunca nos aprisiona a capacidade de imaginar.”
A ementa da sessão de animação cultural é ecléctica: Camões, Sophia de Mello Breyner, António Gedeão, Eugénio de Andrade, José Luís Peixoto, António Lobo Antunes, Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill, Mário Henrique Leiria. É com ela e por ela que Filipe responde aos ‘porquês?’ que os rostos da plateia escondem. “Sempre gostei muito de ler e em casa sempre houve muitos livros. Um dia, um texto mudou a minha vida. Tinha vinte e poucos anos e não sabia que direcção tomar na minha vida.
A diferença entre estar aqui ou no outro lado é mínima”, confessa o ‘moderador’, no arranque desta “conversa com versos”. “Quem gosta de ler?”, arremessa para a esquerda e para a direita. Apenas 4 tímidas mãos se erguem a medo. “E quem gosta de poesia?” – menos ainda dão sinal de vida. “E de futebol?” – levantam-se orgulhosas em número esmagador. “E de música?” – fazem o pleno. “Fico muito satisfeito. Afinal, todos gostam de poesia!”, aponta Filipe. Seguramente porque deve muito à omnipresença e encontra-se – e encontra-nos – em todo o lado, ainda que as barreiras físicas se interponham.
“O livro é uma riqueza. Quando entramos num de que gostamos muito, vamos para outro lugar. Temos a possibilidade infinita de chegar a montes de sítios”, confirma Maria Cabral, do Instituto do Livro. O grupo não pode arredar pé. Mas a pena, cumprida entre quatro paredes, pode ser abrandada graças a uma esperança que não definha. “A receptividade é boa. O pior que tive foi apatia, mas nunca uma reacção agressiva ou violenta. As prisões e as suas estruturas são diferentes.
As penas também são diferentes, o que os influencia tremendamente na visão da prisão e do mundo lá ora. Há sítios mais deprimentes do que outros. Mas acho sempre que mesmo aos 60 anos eles podem ser tocados por alguma coisa. Nunca se deve desistir. Para mim, este é um trabalho cívico.”
A poesia é água mole nesta pedra que dura. A de Yuri, que se prontifica a saltar da cadeira para recitar Camões, já tem cinco anos. Longe da vida e da filha que deixou cá fora. Perto da rotina de “sufoco”, preenchida pela responsabilidade sobre a secção de arraiolos, uma das ocupações lá dentro. Estuda as linhas convocadas com uma leitura silenciosa. Depois desaperta a voz. Segura, como Leonor a caminho da fonte. “Ele deu um passo em frente para vir ler e fê-lo da melhor maneira que sabia”, elogia Filipe.
O ‘cherne’ de O’Neill entra em cena. E a ‘Bunda’ com gosto tropical de Carlos Drummond de Andrade. Bem como a música. A dos Trovante, repescada das linhas de Florbela Espanca, ou a de Bonga, que enxugou a Lágrima de Preta de Gedeão.
O MÉTODO DE FILIPE
É a descontracção, semelhante à aplicada entre os adolescentes nas escolas. Dispensa guião e espectáculo para desvirginar quem nunca leu poesia. Até aqui. “Os reclusos são convidados a participar. Só vêm os que querem”, explica. Eles quiseram. E deram o tempo por bem empregue. “Já tínhamos sessões de leitura, mas como esta foi a primeira vez. Gostei mais, desperta a atenção”, comenta Yuri, um português com direito a alcunha de Leste de tanto insistir em arranhar ucraniano.
E não é que se arranham boas pilhas de versos?! Sobretudo por meio da escrita. “Alguns de nós fizemos poesias também”, interrompem de um dos lados. As folhas que o atestam já lhes queimam as mãos, que as querem revelar ao mundo. Os mais destemidos chegam-se à frente e dizem de sua justiça e sina. Ainda que as palavras não cheguem para descarregar o espírito. “Vivemos situações na cadeia que é complicado passar para o papel. É frustrante estar aqui “, diz João Gomes, 25 anos, a meio caminho de uma sentença de oito, aliviada pelo estudo, pelo trabalho e pelo desporto no seio da cadeia.
Lembra-se de ‘Frei Luís de Sousa’, sabido “de obriga” nos tempos de escola.
A última obra desfolhada foi assunto quente que agitou as águas até nos calabouços: ‘Eu, Carolina’. “Tinha muito para dizer sobre esse livro!”, brinca João, que remata a sua biografia atrás das grades com uma linha mais séria: “Choro porque sei que o medo sou eu.” O desafio espreita lá fora. “Todos nós temos um projecto. É preciso é construí-lo cá dentro. Entramos como toxicodependentes e começamos a projectar um futuro melhor.”
A incumbência da récita toca a ‘Filipe’, mas o companheiro passa a batata quente. “É uma coisa pessoal”, defende. Sem fronteiras, a poesia recebe a visita da Ala D de braços abertos. É de lá que vem um rap. O autor das rimas está ausente, mas o beatbox já ferve na boca da assistência que lhe quer dar alma. A dupla de voluntários não dá a cara mas empresta a voz. E a poesia sobre os dias de quem se arrasta nos corredores da prisão acontece e arrebata. “Isto não é um rap, é melhor do que a Bíblia!”, riem, no final de uma actuação de se lhe tirar o chapéu.
Por aqui, a missão – e a ferroada do bichinho – parecem cumpridas .“Tenho uma abordagem muito próxima deles. Não tenho o objectivo de explicar a importância do autor, mas sim dar-lhes a possibilidade de ouvirem e de se exporem ao contágio do prazer da leitura. Não há receita milagrosa, é preciso é pô-los em contacto”, esclarece o Contador de Histórias.
Com o início da chamada para as visitas e a extinção dos aplausos que brindaram o desfecho, Filipe improvisa mais umas linhas. “O vosso livro ainda está aberto. Estão a meio caminho de escrever os capítulos finais”. São as últimas do dia. E as primeiras do resto dos dias das vidas deles.
ENCONTRO COM AS LETRAS
É difícil explicar por palavras, mas as linhas que escrevem apaziguam a dor. João, ‘Yuri’ e ‘Joaquim’ Vinagre investem na poesia para matar o tempo no Estabelecimento Prisional de Lisboa. Vinagre é um dos que encabeçam a coordenação da biblioteca. “Não funciona tanto como nós gostaríamos. O pessoal não tem esse estímulo. Cerca de 30% lê”, explica. Mais banda desenhada e policiais”, acrescenta Yuri. Temos um grupo de tertúlia poética. A ideia é um estímulo para a escrita e a leitura”, confia ‘Joaquim’
CONTOS PARA CRIANÇAS E IDOSOS
Recitais para crianças e jovens, oficinas para adolescentes, espectáculos e outras acções de sensibilização, são algumas actividades que o divulgador cultural Filipe Lopes, formado em psicopedagogia, leva há uma década a todo o país. O projecto ‘O contador de histórias’ surgiu como grupo artístico em 97, depois de uma série de recitais em locais diversos e inesperados (a sala de um convento, um átrio de hotel, uma sinagoga, etc). Revelando frequentemente textos pouco conhecidos, o grupo de quatro elementos enveredou pela vertente pedagógica, em resposta a solicitações para públicos escolares. Filipe é ainda coordenador da ‘Hora do Conto’ da Fundação do Gil. Saiba mais em www.ocontadordehistorias.com
PARA DAR ASAS AO GOSTO PELA POESIA
Iniciado em 2004, o projecto ‘A Poesia Não Tem Grades’ é apoiado pela Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas (antigo IPLB) e pela Direcção Geral dos Serviços Prisionais, tendo como objectivos principais a promoção da leitura junto dos reclusos e a sua integração social. As sessões, desenvolvidas de forma continuada ou esporádica, são ocupadas com a leitura partilhada de diversos textos de autores nacionais e estrangeiros, numa escolha ecléctica que vai dos clássicos até aos autores mais modernos, com especial destaque para o surrealismo.
Palavras-chave como ‘Liberdade’ ou ‘Justiça’ são apresentadas em diversos contextos para que os participantes possam reflectir nos seus mais diversos sentidos. Esta foi a quinta sessão, depois da passagem por três estabelecimentos prisionais açorianos e pela cadeia de vale de Judeus. A caravana ruma agora ao Norte.
DADOS
45 minutos é a duração aproximada de cada sessão coordenada por Filipe Lopes. A hora das visitas antecipou a saída de alguns elementos. A maioria permaneceu ainda mais tempo.
30 era o número inicial de inscritos na sessão, e o limite que o próprio Contador de Histórias estabelece para poder trabalhar. Excepcionalmente, a sala acolheu 50 reclusos.
15 é a média de autores abordados em cada iniciativa. Ao longo de dez anos de actividade, Filipe tem recorrido a nomes tão diversos como Camões, Alexandre O’Neill, Mário Henrique Leiria ou José Luís Peixoto.
120 mil quilómetros já percorridos com o seu carro desde há apenas dois anos. Os encontros de Norte a Sul do País obrigam a deslocações permanentes, que incluem ainda muitas milhas de avião, para chegar aos arquipélagos.

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