Sub-categorias

Notícia

Descende de um rei ou de um camponês?

Qualquer um pode recuar até ao final do século XVI para fazer a árvore genealógica da família
Por Marta Martins Silva|27.11.16
Descende de um rei ou de um camponês?
Foto Getty Images

Se gostava de fazer a árvore genealógica da sua família   tenha atenção   a   uma coisa: apelidos   iguais   não significam necessariamente grau de parentesco – principalmente se quiser recuar até um passado mais longínquo. No século XVII,   entre a nobreza portuguesa, os irmãos tinham   apelidos   diferentes uns dos outros, sendo que as meninas os iam buscar à mãe ou à avó materna.

São   as   mulheres   quem apresenta maior variabilidade   nos   nomes,   muito   por causa da utilização de diferentes   nomes   próprios   de devoção.   Além   disso,   pela condição social inferior que tinham à época, pelos costumes   da   localidade   onde viviam, pelo recurso a alcunhas ou até por ignorância dos párocos, era comum que as mulheres do povo fossem mencionadas com um nome próprio   acrescentado   da versão feminina do nome do pai. Uma Joana de Assunção, filha de Custódio Alves, poderia   ser   a   Joana   Custódia; uma Ana das Neves, filha de Jordão   Rodrigues,   poderia ser   Ana   Jordoa.   Sobretudo no século XVII   foram também   comuns   as   menções   a apelidos em versão feminina, fossem maternos ou paternos. Por esse motivo, uma Maria filha de um João Monteiro pode surgir em documentos   como   Maria   Monteira   e   uma   Joana   filha   de uma   Ana   Malheiro   pode surgir como Joana Malheiro.

A ‘desajudar’ a missão estava a falta de um critério ortográfico   rigoroso   e   uniforme para os nomes, uma vez que os párocos e tabeliães registavam o modo pelo qual as pessoas eram chamadas, escrevendo   os   nomes   da   maneira   que   supunham   ser   a mais correta, numa transcrição literal dos sons. Perceber a origem do apelido e a eventual ligação dos que o usaram não é tarefa linear. Atente-se por exemplo aos Sousa – na região do Porto vivem e viveram muitas pessoas com este apelido, dado que existe um rio   e   uma   localidade   assim chamados. Mas também havia fidalgos com esse apelido desde a Idade Média, sendo esses   Sousas   considerados como uma das principais linhagens   portuguesas   medievais.   Por   isso,   se   o   seu apelido for Sousa, pode descender de um fidalgo ou apenas de alguém que vivia próximo do rio ou na localidade com   o   mesmo   nome.   Tal como   uma   Maria   Ferreira podia ter esse apelido por ter nascido numa localidade assim   chamada   (como   Paços de   Ferreira   ou   Ferreira   do Zêzere) mas podia dar-se o caso de ser mulher de um homem que trabalhava o ferro.

Já não é só para alguns

Agora, as boas notícias: "Todas as pessoas conseguem fazer uma árvore genealógica. Sempre que recuarmos uma geração,   o   número   de   antepassados   tende   a   duplicar (salvo   se   houve   casamento entre primos, ou outras situações em que o mesmo antepassado   surge   repetido   em posições diferentes na árvore genealógica).   Isto   significa, por   exemplo,   que   todas   as pessoas tiveram geralmente oito bisavós. A probabilidade de se desconhecer por completo a filiação e naturalidade de todos esses oito bisavós é meramente académica. O que pode suceder é, em relação a alguns antepassados nossos, a pesquisa terminar precocemente num certo ponto, por falta de dados para continuar. A árvore genealógica pode até ficar com alguns ramos cortados, mas não deixa de ser uma árvore genealógica", acreditam Francisco Queiroz e Cristina Moscatel, autores do livro ‘Descubra   as   suas   origens’ (ed. Esfera dos Livros).

Em jeito de manual, a obra dá pistas de pesquisa, interpretação   e   organização   de dados que ajudam a reconstituir a história familiar. Já lá vai o tempo em que genealogia era apanágio dos descendentes de nobres ou reis. "Existem muitas motivações possíveis. A mais transversal é a necessidade   de   perceber   a sua própria individualidade e, ao mesmo tempo, a busca de   uma   pertença   –   coisas particularmente relevantes num mundo cada vez mais globalizado e em que o indivíduo é socialmente reduzido a algo quase insignificante. Em   muitos   casos,   existem ainda motivações de valorização   pessoal,   de   busca   de autoestima", concluem.

Ver todos os comentários
Para comentar tem de ser utilizador registado, se já é faça
Caso ainda não o seja, clique no link e registe-se em 30 segundos. Participe, a sua opinião é importante!

Mais notícias

Mais notícias de Domingo

Exclusivos

Padres "fora da caixa"

Padres "fora da caixa"

Fazem desporto, música, teatro ou andam por aí a acelerar. Mas nem por isso deixam de ser padres a cumprir a sua missão.

Domingo

O Brasil em Portugal

O Brasil em Portugal

Vieram de visita e foram ficando. As histórias de músicos e atores que atravessaram o Atlântico

Domingo

'El Comandante' vende?

'El Comandante' vende?

Especialistas analisam chances de Fidel vir a tornar-se tão icónico quanto ‘Che’

Domingo

Superprevisão

A queda de um asteroide ou um ataque nuclear são acontecimentos difíceis de prever

Escolhas

Para fugir à idiotia

Para fugir à idiotia

‘O Homem Fatal’ do brasileiro Nelson Rodrigues é um tratado sobre a vaidade, o ressentimento e a covardia humanos

pub