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Eles têm emprego garantido

Três cursos de Engenharia destronaram Medicina no pódio das médias. 100% de empregabilidade explica
Por Marta Martins Silva|25.09.16

A preocupação maior dos professores do curso de Engenharia Aeroespacial, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, é avisar os alunos que não aceitem propostas de emprego antes de terminarem o curso. Sim, leu bem: ainda antes de terem o canudo na mão as empresas já querem contratar estes estudantes. Enquanto a maioria – sim, atrevemo-nos a dizer que é a maior parte – dos jovens enfrentam o fantasma do desemprego, há cursos em que a taxa de empregabilidade é 100%. Por isso não é de admirar – embora a surpresa tenha sido geral – que os cursos de Engenharia Aeroespacial, Engenharia Física e Tecnológica (ambos do Técnico, em Lisboa) e Engenharia e Gestão Industrial (da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto) tenham destronado a tradicional Medicina nas médias de acesso ao Ensino Superior.

O último aluno colocado nos dois primeiros teve média de 18,53 e no Porto a nota mais baixa foi 18,48. "Tenho o feedback de antigos alunos que de manhã colocam o nome em base de dados e à tarde estão a receber propostas de emprego. Neste momento, se há uma área em que tanto os EUA como a Europa apostam fortemente e que tem um grande valor acrescentado é esta. Um engenheiro aeroespacial pode participar tanto na criação do avião propriamente dito como trabalhar em pequenas empresas que fornecem equipamento. Os alunos têm mercado tanto dentro do País como lá fora, depende das ambições deles", explica Fernando Lau, coordenador-adjunto do mestrado em Engenharia Aeroespacial.

ESTÁGIOS A 3000 EUROS
Inês Ávila está no 5º e último ano deste curso, que existe desde 1992. "Desde pequena sempre tive curiosidade sobre o que é que há mais para além daquilo que vemos, temos um universo gigantesco e há tanto por descobrir. O que eu gosto mais é dos foguetões e dos satélites, por isso espero vir a trabalhar nessa área", conta a jovem de 23 anos, natural de Loures. Sabe que no próximo ano arranjar emprego não será problema, tão-pouco será preocupante a remuneração inicial. "Sei que no estrangeiro, pelos primeiros estágios, recebemos entre 2500 euros e 3000 euros", refere Inês.

Cláudia Fernandes tem 17 anos e é caloira. Sonha com voos tão altos como a NASA, e em casa os pais estão "descansados" porque sabem que não ficará desempregada. "É uma segurança estar aqui". Maria Patrício, da Covilhã, tem a mesma idade e está na mesma situação: "Acho que as pessoas já começaram a ter noção de que as engenharias estão num patamar tão ou mais alto do que Medicina".

"Se calhar as polémicas que têm existido nos últimos anos em torno da Medicina e do acesso à especialidade dos recém-licenciados também vieram ajudar. Ao contrário do que se pensa, os alunos do 11º e 12º anos estão conscientes do peso da decisão que têm de tomar, sinónimo de que estão muito atentos ao que se passa no mercado de trabalho", acredita Fernando Lau.

Na mesma universidade, a coordenadora de Engenharia Física e Tecnológica defende com a mesma garra o ‘seu’ curso. "O curso começou há 30 anos e começa agora a ser reconhecido. As famílias estão mais disponíveis para o desafio que é ouvir um filho dizer que quer estudar ciência e que quer estudar física. E a verdade é que nem a crise, aliás, pelo contrário, conseguiu produzir uma quebra de emprego neste tipo de formação muito especializada e técnica", conta Teresa Peña.

"A física é a ciência que tenta explicar tudo, desde as estruturas muito grandes como o Universo até ao mais pequeno a que chamamos nanotecnologia. A física tem a ver com saúde, com comunicações, com materiais, penetra em todos os domínios. Uma ex-aluna minha trabalha em análise de risco num banco na Holanda, por exemplo", diz a professora.

Ao seu lado, Ricardo Barrué não esconde o entusiasmo pela área que escolheu há quatro anos. "A busca do conhecimento é a coisa mais pura que temos, não olha a interesses, não olha a preferências de raça, de género, e o legado que quero deixar é contribuir para aumentar esse conhecimento, para as pessoas saberem como o universo funciona, de que é que somos feitos. Mesmo que não se lembrem do meu nome, quero saber que estou a ter parte nisso", sublinha.

David Fordham, 17 anos, veio de Almodôvar, no Alentejo interior, para a capital com uma grande ambição: "Sei que o Einstein, no final da sua vida, estava a trabalhar numa teoria que conseguisse unificar todas as ideias da física, a teoria do tudo, e eu gostava de saber se isso seria algum dia possível. Era uma pergunta que gostaria muito que fosse respondida", diz o filho de uma secretária e de um geometalúrgico nas minas de Neves Corvo que no 12º ano foi estudar para Beja para poder ter a disciplina de Física, que lhe daria acesso a este curso. "Eram três horas de caminho, ir e vir, mas valeu a pena". Entrou com 19,4.

HORIZONTES LARGOS
Rui Torres está a um ano do final do curso de Engenharia Física e Tecnológica. Garante que o curso é trabalhoso – "já passei algumas noites sem dormir" – mas que é possível de conciliar com atividades extracurriculares e até – pasme-se – com vida social. Herdou do pai o gosto pela física e gostaria de receber "acima de 1500 euros" num primeiro trabalho.

Pedro Schuller de Almeida, aluno do 5º ano de Engenharia e Gestão Industrial na Universidade do Porto, já se inteirou das remunerações. "As grandes consultoras internacionais são as que pagam melhor para quem faz uma carreira corporativa, depois as empresas de serviços podem pagar um pouco menos, diria à volta de 1800 euros para primeiro emprego. Claro que uma pessoa pode fundar uma empresa e passado um ano já estar a faturar dois milhões anuais e a decidir o seu próprio salário", explica este neto de dois engenheiros (um deles professor na universidade).

"Saímos daqui com um leque muito alargado de sítios onde podemos exercer a profissão, temos as consultoras, temos as empresas de produção de serviços, finanças. Já tenho contrato de estágio para o último semestre do curso, apesar de ainda faltar quase um ano", conta explicando que, além das aulas, valoriza o currículo na associação de estudantes (que faz parte de uma federação europeia) onde implementa projetos, gere ideias e pessoas. "Parecendo que não, também implemento a minha rede de contactos. Se quisesse fazer uma viagem pela Europa não tinha de pagar casa em país nenhum porque ficava em casa dos meus amigos todos".

Essa prática é, aliás, incentivada pela faculdade. "Aquilo que distingue estes alunos, e que eles sabem que os empregadores esperam deles, é que tenham muito mais para além do currículo académico. São cidadãos do Mundo e isso é fundamental. Eles sabem que nós não esperamos que eles fiquem só aqui a estudar por serem alunos de topo e com médias de topo, estamos à espera que haja muito mais além disso", explica Ana Camanha, diretora do curso de Engenharia e Gestão Industrial. "No último inquérito que fizemos, 62% dos alunos já tinham o primeiro emprego antes de terminar o curso. No primeiro emprego, a maior parte deles fica no Norte, depois acabam por circular pelo País ou por ir para fora. E tanto podem desempenhar funções de apoio e preparação à decisão nas áreas funcionais das empresas, no marketing, na logística, na produção, na qualidade, na manutenção, como também se tiverem capacidade de liderança acabam em cargos de direção ou até criar as suas empresas", acrescenta a professora.

Os gémeos André e João Pereira ainda não sabem o que trará o futuro. Acabaram de chegar à faculdade, ao mesmo curso (o primeiro entrou com média de 19,68, o segundo com 19,63) e garantem que não escolheram igual para se sentirem acompanhados, apesar de terem uma relação "muito forte". Os pais, médicos, ainda tentaram "puxar a brasa à sardinha deles" – conta André – "mas perceberam que o nosso caminho era outro" – acrescenta João. "Felizmente temos um irmão mais velho que seguiu as pisadas familiares", brincam os futuros engenheiros. 

BRAGANÇA E TOMAR COM MENOS ALUNOS

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior aproveitou a divulgação dos resultados da primeira fase para apresentar um estudo desenvolvido pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência. O estudo indica que é muito mais provável que um estudante do Superior venha de um dos cursos científico-humanísticos do que de um profissional. Em 2014/2015, dos alunos que no ano anterior estavam num curso científico-humanístico, 84% estavam no Superior. Essa percentagem é de 18% nos estudantes da via profissional e de 55% nos cursos artísticos especializados. O mesmo estudo permitiu ainda concluir que 91% dos estudantes continuam no Ensino Superior no ano seguinte ao do ingresso. Nesta primeira fase, os Institutos Politécnicos de Bragança (29%) e Tomar (31%) voltaram a ser as instituições com menor percentagem de vagas ocupadas.

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