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Encalhados como o Tollan

O navio espanhol ‘Betanzos’ esteve dez dias encalhado na barra de Lisboa, onde antes dele outros barcos naufragaram.
Por Marta Martins Silva|25.03.18
Encalhados como o Tollan

Terão nascido casamentos de umas certas festas para solteiros cujo nome só fará eco na memória de alguns. "Não sejas encalhado como o ‘Tollan’" era o nome dos jantares organizados para quem não tinha par que se popularizaram em Lisboa (consta que o último foi já em 2007 no Grémio Lisbonense) depois de o ‘Tollan’, um porta-contentores de bandeira britânica, ter chocado em pleno estuário do Tejo com um navio sueco e ali ter ficado durante quase quatro anos. Aquele amigo ou vizinho que há muito não se via com uma rapariga pelo braço também era, naquele tempo, rapidamente alcunhado de Tollan e nos anos 80 multiplicaram-se os cafés e restaurantes com o nome do cargueiro que se impunha no Tejo, em frente ao Terreiro do Paço, de casco para o ar sem ninguém que o salvasse daquele triste fado. Todas as manhãs António Sala dava os bons dias aos ouvintes e sempre informava que "o ‘Tollan’ ainda lá está encalhado", lembra Pedro Santos, que à data do naufrágio tinha oito anos e já em adulto criou um blogue sobre a sua memória mais forte de infância.

O ‘Tollan’, que se tornou quase um monumento nacional – havia até uns binóculos voltados para lá para quem quisesse ver melhor o ‘porta aviões das gaivotas’ a troco de uma moeda – fez parte do anedotário nacional, mas a sua chegada a Lisboa foi trágica. O naufrágio do gigante dos mares, que aconteceu na manhã de nevoeiro de 16 de fevereiro de 1980 por causa do nevoeiro e de problemas com a sua aparelhagem radar, arrastou para a morte quatro dos 16 tripulantes: quando os mergulhadores conseguiram entrar na embarcação, já nada podiam fazer pelos que ficaram aprisionados nos camarotes. Viria a ser retirado a 2 de dezembro de 1983, o mesmo ano em que o País teve de ser resgatado pelo Fundo Monetário Internacional, era Mário Soares primeiro-ministro. Na altura muito se especulava sobre o ‘tesouro’ do ‘Tollan’ – a imaginação popular falava de ouro e droga, mas na realidade os 220 contentores do navio continham inseticidas industriais, amianto e demais produtos perigosos, para além das 600 toneladas de combustível conservadas nos tanques do navio, para utilização da própria máquina.

Cemitério de embarcações

Por isso se o ‘Betanzos’, o navio de bandeira espanhola que sofreu uma avaria no dia 6 de março e encalhou à saída da barra de Lisboa, por ali tivesse ficado mais do que os dez dias que foram necessários para o conseguirem retirar, o problema dele não seria nunca a solidão. Aqueles baixios da barra do Tejo foram cemitério de muitas embarcações que encontraram no fundo do mar a última morada e algumas delas continuam debaixo de água, imutáveis como se os anos não tivessem afinal passado.

"É um sítio para onde muitos barcos foram levados pelas correntes do Tejo – aquelas línguas de areia movimentam-se, alteram a dinâmica do rio e isso é muitas vezes fatal – e por isso, naquela zona ainda há um conjunto significativo de despojos de pelo menos cinco naufrágios", revela Jorge Freire, diretor do projeto da Carta Arqueológica Subaquática de Cascais e do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa. Outro deles foi o ‘Patrão Lopes’, o célebre "rebocador que foi apreendido na I Guerra Mundial aos alemães e que viria a naufragar a 1 de março de 1936 num dia de temporal, e depois de ter salvado muitas vidas", acrescenta o arqueólogo subaquático.

Dizem dele que foi construído em Rostock, na Alemanha, em 1880 e então batizado como ‘Newa’. Tinha 49 metros de comprimento e uma tripulação de 63 elementos e deslocava 467 toneladas brutas, quando na véspera da declaração de guerra entre o governo português e as potências do Eixo Central, em 1916, foi uma das 35 embarcações refugiadas em Lisboa. Durante a Grande Guerra, o barco integrou várias missões bélicas, como o reboque da barca Portugal, do Porto até Bordéus – onde consta que disparou contra um submarino alemão – mas depois do conflito efetuou muitas missões de salvamento: precisamente no local onde pereceu em serviço, levando ao fundo o barco que tentava resgatar das águas, mas antes disso salvou muitos outros navios da má sorte. A sua história amarelecia nos jornais da época quando – e sem que nada o fizesse prever – foi encontrado em 2015, à entrada da barra de Lisboa, junto ao Bugio, o mesmo local onde naufragara oitenta anos antes quando tentava salvar um batelão que havia encalhado e perfurado o casco.

"Quando foi encontrado estava completo, dava para andar dentro dele", conta Jorge Freitas, que no verão de 2015 integrava a campanha M@rbis, de mapeamento da biodiversidade marinha portuguesa, que descobriu por acaso os primeiros destroços do ‘Patrão Lopes’.

Histórias passadas

Mas nem só na barra do Tejo se escondem passados naufragados: "Claro que toda esta entrada na barra do Tejo, a partir do Cabo da Roca, o litoral de Cascais, Almada e Oeiras são riquíssimos do ponto de vista arqueológico e histórico, mas podemos também ir mais para sul, para o Algarve. Toda a zona de Sagres, Lagos também bastante rica, a norte também temos o caso de Esposende, onde após uma tempestade deu à costa um conjunto significativo de elementos culturais, vestígios de uma embarcação do século XVII. São zonas que têm muita navegação e, também , do ponto de vista geográfico, características que levam ao acidente marítimo", explica Jorge Freire, acrescentando que na época contemporânea (período desde a Revolução Francesa até aos dias de hoje) foram registados dois mil navios naufragados", daí o vasto património arqueológico residente no Portugal subaquático.

"A mim, o objeto em si não me marca tanto, marca-me o local porque, geralmente, eu estou a trabalhar em zonas que são cemitérios. E marca-me o facto de estes naufrágios serem autênticas maternidades de biodiversidade. Uma zona de naufrágio tem vida, e a vida concentra-se toda ali. É belíssimo de ver", revela também o diretor da Carta Arqueológica Subaquática de Cascais. "Claro que também recolhemos objetos muito interessantes, ainda há pouco tempo na zona de Cascais recolhemos moedas em ouro cunhadas no Brasil e elas estavam como se estivessem acabadas de sair do cunho, porque nunca circularam. O mar tem esta particularidade: quando se escava consegue- –se perceber o fim daquele navio ou o fim daquelas pessoas. É como se estivéssemos no último momento daquele navio, é como uma cápsula do tempo", continua quem – e apesar de anos a procurar património no fundo do mar – se emociona mais com as histórias das pessoas que sobrevivem em terra.

"Quando estávamos a trabalhar na entrada da barra do Tejo, tive oportunidade de conhecer o Hugo Ribeiro, campeão europeu de bodyboard, que me apresentou um pescador que não queria falar em naufrágios porque tinha perdido o irmão dessa forma e, por isso, todos os dias à mesma hora ele olhava para o mar e prestava assim uma homenagem ao irmão. Por isso, mais do que o material em si, falta-nos valorizar este património imaterial, falta contactar com estas pessoas, porque elas e as suas histórias é que são a nossa identidade marítima", remata Jorge Freire.

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