Há sempre lugar para um milagre

Oito montanhistas portugueses nos picos da Europa a pedido da família de João Marinho.
Por Marta Martins Silva|30.11.14
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Há sempre lugar para um milagre
Nas buscas participaram dez militares da Unidade de Intervenção da GNR, meia centena de guardas civis de montanha das Astúrias e voluntários Foto D.R.

Até quando se deve acreditar? Há algum dia marcado para começar a desistir? Quando toca ao coração nenhum dia é o dia certo. A família de João Marinho, o atleta que desapareceu nos Picos da Europa no início de novembro – pensa-se que próximo  de Pena de Santa de Castilla, Espanha – quis adiar o dia para deixar cair a fé e pediu ajuda à Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal para prolongar a esperança.

Foi assim que depois da GNR e da Guardia Civil espanhola uma equipa de oito montanhistas portugueses de vários pontos do País (vários com atividades profissionais ligados à montanha mas ainda um enfermeiro, um gestor de projetos e um engenheiro eletrotécnico) se pôs a caminho para uma viagem de sete horas de carro e três dias intensivos de montanha.

Foi o derradeiro fôlego para encontrar João, de 31 anos e natural de Amarante, que deixou o último sinal de vida a 4 de novembro na rede social Facebook. Com os picos da Europa em fundo, escreveu que "nada é tão importante como a paixão". A dele eram os desafios a que se propunha com uma coragem e um desprendimento a que desde cedo habituou quem com ele privava.

"O João fazia coisas como passar uma semana sem comer para ver quanto tempo é que o corpo aguentava; atravessou o deserto do Gobi; fez a Mongólia de bicicleta sozinho: era um super-homem enquanto atleta e gostava de se superar. A família aprendeu a viver com isto, por isso esticou o limite possível da sobrevivência, sabia-o capaz de aguentar muitas provas", acredita Carlos Teixeira, um gestor de projeto de 56 anos, que é também vice-presidente da federação.

Todas estas coisas não foram contadas a Carlos pelo próprio, mas sim transmitidas pela família aos montanhistas durante os dias em que juntos procuraram João.

"Quando chegámos fizemos um briefing de três horas com a família e foi consensual a zona alvo: dentro do maciço gigantesco tivemos de nos limitar à área onde havia indícios, aos sítios onde achávamos que ele se podia ter desviado numa situação de emergência", conta Nuno Gonçalves, um engenheiro de 28 anos.

Importante para esta equipa improvisada que partiu para os Picos da Europa foi dar à família a sensação de "que foi feito tudo. Inclusivamente respeitámos e atendemos premonições de alguns familiares, que tinham tido a premonição de que ele poderia estar em determinado lugar", acrescenta Carlos Teixeira.

"Fiquei a conhecê-lo desde sempre, sem nunca o ter visto. Era alguém que podia ter sido meu amigo, tínhamos muitos gostos em comum", diz Jorge Rúben Martins, um monitor de desporto aventura de 41 anos que durante três dias se tentou colocar nas sapatilhas de João para tentar perceber para onde ir.

RECORDE PESSOAL

Há quem diga que a paixão pela montanha é uma questão quase religiosa, que aproxima o ser humano de Deus. E quem acredite que o granito emite uma substância que provoca habituação e por isso as pessoas não conseguem largar a montanha. "Mas é o gosto pessoal de cada um que puxa para a montanha", garante Carlos Teixeira.

A vontade de João Marinho era bater mais um recorde pessoal. "Esta montanha anda perto dos 3 mil metros no topo, está perto do Atlântico e subitamente põe-se nevoeiro. Penso que a pouca sorte do João foi ter feito uma tentativa de percorrer um determinado caminho numa altura em que estava a decorrer uma tempestade", continua o vice-presidente da federação.

"Não é uma zona tecnicamente difícil mas é traiçoeira, na medida em que é de calcário, tem muitas fendas e buracos e se houver neve facilmente se cai e se parte uma perna", acrescenta Paulo Roxo, 45 anos e monitor de escalada e alpinismo freelancer.

O ganha-pão de Pedro Guedes, de 38 anos, é  acompanhar os alunos aos Himalaias, Atlas, Alpes, Andes, Pirenéus enquanto treinador de montanhismo. Como atleta conhece-as a todas. Em 2013, um dos alunos foi João Marinho, a quem durante três dias ensinou técnicas básicas de progressão em neve – mas nunca pensou que um ano depois o iria procurar. "Era uma pessoa com bastantes capacidades físicas e psicológicas.

Nunca mais falei com ele, houve colegas com quem mantive contacto posterior, porque me foram colocando questões mas o João nunca me fez nenhuma pergunta...".

"Encontrá-lo seria um bónus, aquilo que estavamos a garantir era que estavamos a fazer o nosso melhor. Sabemos exatamente onde é que o João não está, não sabemos é onde ele está", considera ainda Carlos Teixeira.

ESPERANÇA NO TERRENO

"Todos nós queríamos que alguém lá fosse procurar-nos se estivéssemos na situação da família, resume Luís Machado, um enfermeiro de 33 anos, sobre a missão. Oldemiro Lima, 41 anos, concorda. Tanto que este fotógrafo profissional de alpinismo levou a máquina para a missão, mas nunca a tirou da mala.

Com a partida dos oito montanhistas portugueses o terreno ficou mais pobre, mas não vazio. Uma unidade de militares e a Guardia civil ainda lá estavam no final da semana. Pedro Pacheco, um dos pioneiros no turismo da natureza em Portugal, também foi convocado – será o mais otimista dos oito. "Custa-me deitar a toalha ao chão.

Há casos de pessoas que sobreviveram em condições adversas, como o inglês que esteve cinco dias com as duas pernas partidas e que conseguiu percorrer 18 quilómetros ou a australiana que ficou dezoito dias desaparecida, sem comer, e conseguiu sair de lá pelo próprio pé. O João é uma pessoa de quem é possível tudo. Quem sou eu para dizer que ele está morto?".

Em duas ocasiões durante a missão, Pedro sentiu que estavam perto. "Numa gruta encontrámos um capacete e, mais à frente, um saco de plástico que à distância parecia alguém deitado. De todas as vezes acreditei ser ele". A família, que não arredou ainda pé da montanha – exceção para o pai, de 85 anos, por causa da idade – também. "Os vivos têm de continuar", disse-lhes a equipa de montanhistas nos Picos da Europa. Mas nenhum dia é o dia certo para deixar de acreditar.

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  • De Pontes04.12.14
    <br/>A esperança é a última que mata...
1 Comentário
  • De Pontes04.12.14

    A esperança é a última que mata...
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