Isto não é só sobre Ricardo Robles

O que leva um político a contrariar aquilo que apregoa? O que gera o sentimento de impunidade? Especialistas explicam.
Por Fernanda Cachão|05.08.18
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A demissão surgiu, na última segunda-feira, dois dias depois de, em conferência de imprensa, procurar explicar a notícia de que tinha comprado um prédio em Alfama em 2014 por 347 mil euros, que foi reabilitado e posto à venda em 2017 por 5,7 milhões de euros. O negócio não é inédito nesta nova Lisboa rendida ao turismo, mas choca em excesso de velocidade com as intervenções de Ricardo Robles antes e depois de chegar à Câmara de Lisboa. Dizia-se contra a "lógica de especulação pura e dura ou para habitação de luxo e dedicada ao turismo".

Na conferência de imprensa antes da demissão, o ainda vereador do BE justificou que o imóvel tinha sido comprado em conjunto com a irmã, "com recurso a crédito bancário e apoio financeiro" dos pais. A intenção inicial era que o imóvel fosse habitado pela irmã e que as restantes frações fossem arrendadas. As notícias posteriores tornaram a situação do vereador insustentável.

"Na conferência de imprensa, ele vai buscar argumentos que servem de camuflagem para diminuir a sua falta ou o seu grau de responsabilidade e, para mim, o principal argumento utilizado foi o da família - é um argumento poderosíssimo. Pergunta-me se acredito? Não. Mas os seus argumentos acabam por ser credíveis embora sujeitos a confirmação - e nem sequer cabe ao polícia porque isto não é um crime, é antes um caso de escrutínio do político que cabe aos jornalistas", sublinha Carlos Rodrigues, ex-inspetor da Polícia Judiciária, perito na negociação de reféns. "Se fosse comparar a postura deste político com outras figuras que, ultimamente, foram objeto de alguma controvérsia, como por exemplo Bruno de Carvalho, a diferença é abissal. Este homem mostrou algum nível de consciência, preocupação, arrependimento, deu a cara e explicou e quando viu que não teve o efeito pretendido, teve hombridade de se demitir. É claro que verdades absolutas existem tanto quanto as mentiras absolutas, os copos estão meio cheios ou meio vazios consoante se olha. Só os factos acabam por serem indesmentíveis".

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