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Joana Schenker: “Mostrei que não há impossíveis”

No mês passado, a praia do Norte, na Nazaré, levantou-se em peso para aplaudir a nova campeã do Mundo de bodyboard.
Por Vanessa Fidalgo|12.11.17
Joana Schenker: “Mostrei que não há impossíveis”

Os cabelos louros e os olhos azuis límpidos não enganam: Joana Schenker tem ADN de outras paragens. Mas nasceu, treina e vive no Algarve. Por isso, agora deu-nos esta oportunidade de dizer: a nova campeão mundial de bodyboard é portuguesa! Ou melhor: "uma algarvia de Sagres", que é como ela sente e diz.

É a mais velha de quatro irmãs, com idades muito próximas. Era uma casa de gritos ou uma grande responsabilidade?

As duas coisas! Ser a mais velha é sempre uma responsabilidade acrescida, mas era todos os dias uma grande animação com muita gritaria à mistura. Sobretudo de manhã, quando nos estávamos a preparar para ir para a escola: "onde estão as minha calças? Onde pára a minha escova?" Coisas de miúdas!

O que trouxe os seus pais, ambos alemães, para Portugal?

Eles são de Colónia, mas correram o mundo todo a viajar. Depois chegaram a esta pontinha do Algarve e ficaram encalhados! Muitos estrangeiros ficam agarrados a Sagres. Tem uma aura especial, é tranquilo, tem a natureza no estado mais puro. Havia na altura – foi há mais de 30 anos -   um terreno barato e compraram assim à maluca. Montaram um pequeno turismo rural. Mais tarde, só a minha mãe é que ficou. O meu pai seguiu a sua viagem e não tenho contacto com ele já há alguns anos.

Como foi crescer em Vila do Bispo?

Muito bom. Nasci lá, sempre andei lá na escola. A comunidade acarinhou-me muito. Toda a gente sabe que eu sou de origem estrangeira mas todos me veem como alguém de lá. Eu própria sinto que culturalmente sou uma mistura dos dois países mas só há um que identifico como a minha casa, como o meu lugar: é aquela pontinha de Sagres.

Era uma casa onde havia sempre gente a partir e a chegar. Isso também deve ter sido enriquecedor.

Foi, claro, porque apesar de vivermos ali no meio da natureza, tínhamos contacto com gente de todo o Mundo, com todo o tipo de experiências e isso trouxe-nos muitas influências. Os meus pais também eram muito viajados e adoravam partilhar as experiências deles. Todas as filosofias eram abordadas e isso deu-nos muito para crescer.

Começou a praticar aos 13 anos. Lembra-se da primeira onda?

É uma alegria! Quando corre bem é o ‘wow’, a pessoa sai a rir da água e quer voltar, claro. Foi o que aconteceu comigo.

Sendo um país com tão boas condições, com um clima favorável, não é estranho não haver mais campeões?

No que toca ao bodyboard, já tivemos vários campeões europeus e grandes resultados no ISA World Surfing Games, mas tem sobretudo a ver com a falta de meios. Para se ser profissional, tem de se ter uma base de apoio forte que em Portugal não é fácil de arranjar.

Quanto é que pode custar fazer as provas do circuito mundial e para a qualificação?

Depende dos anos, dos locais onde são as provas e da gestão que o atleta faz. Há provas que podemos descartar. Mas para quem quer tirar o melhor resultado possível é conveniente ir a todas as provas. Há provas no Japão, no Havai, no Brasil… Em média, por alto, um ano anda à volta dos 20 mil euros para competir. São os patrocinadores, concretamente a Câmara Municipal de Vila do Bispo, que me dão essa verba e eu vou gerindo. Mas é uma gestão apertada… chego sempre ao final do ano lisa. E é preciso ver que quem está a começar a competir não tem patrocinadores! Até se passar aquela fase de ‘esperança’, é preciso ter muito apoio da família. Quase todos os atletas que hoje têm bons resultados, no início, foram os pais que suportaram tudo.

Por isso é que o apoio da família é sempre fundamental. Consigo também foi assim?

Foi. A minha mãe era incrível. Percebeu que eu tinha jeito e apoiou- -me de todas as formas. Da monetária à logística. Era ela quem me levava à praia todos os dias e ficava lá cinco horas à minha espera. Fazia todos os possíveis para eu poder surfar todos os dias. O meu compromisso era ter boas notas. Às vezes, fazia os trabalhos de casa e estudava durante os intervalos para poder sair da escola e só me preocupar com o bodyboard. O bodyboard começou a ser uma prioridade desde muito cedo.

Fica nervosa antes das provas?

Sim. O mar é imprevisível e nunca sabemos o que está reservado para nós. Antes daqueles 20 minutos de prova gosto de ouvir música e observar o mar, para definir a minha estratégia. Surfar também é saber tomar as melhores decisões táticas.

Treina todos os dias?

Sim. Normalmente logo de manhã, às 8h00, dependendo das ondas. Às vezes, fico lá o dia todo, outras vezes volto para comer qualquer coisa e regresso à tarde. O resto do tempo é para treinar fora de água e gerir a minha carreira. Não tenho equipa. Sou eu que faço tudo: a comunicação, a marcação das viagens, dos hotéis, clipping, as inscrições nas provas, tiro fotos, isto para além do treino dentro e fora de água.

Curiosamente, é o setor feminino que tem trazido mais bons resultados a Portugal.

Somos dos países com mais meninas a praticar e com melhores resultados e isso também dá motivação a mais miúdas ainda para começarem. Cá até temos eventos dedicados às raparigas, o que não acontece em mais país nenhum. Isso vai trazer muitos frutos no futuro.

Sente que é um ídolo para elas?

É possível, tal como eu admirava as melhores deste desporto quando era mais nova. Mas acima de tudo, fico feliz por lhes demonstrar que é possível vencer um campeonato do Mundo. Acho que vai fazê-las acreditar que também podem conseguir ser campeãs do Mundo. É mais fácil olhar para algo que já foi feito do que para algo que parecesse inalcançável. Mostrei que não há impossíveis.

Qual é a sensação de vencer um campeonato do Mundo?

Foi incrível. Tive a sorte de ter vencido em Portugal e por isso, eu tinha imensa gente na praia a torcer por mim. Se tivesse sido na etapa das Canárias não teria lá ninguém. As pessoas na Praia do Norte, na Nazaré, ficaram todas muito felizes, a loucura total. O meu tempo parecia que tinha parado. Nem queria acreditar. E de repente, o meu telemóvel não parava de tocar, os media a ligar e o bodyboard entrou no mapa.

O que faz quando não há ondas?

Coisas simples. Passeio o meu cão, trato da casa, estou com os amigos, perco-me a ver coisas no YouTube.

É vegetariana desde a infância. Como aconteceu essa decisão?

Porque adorava animais! E adorar animais e comê-los não faz sentido. Depois fui à Índia com a minha mãe quando tinha dez anos e vim de lá com essa ideia na cabeça. A produção de carne tem um grande impacto no meio ambiente e na saúde das pessoas. Nunca mais comi um pedaço de carne, nem peixe. Já lá vão vinte anos. Não tenho qualquer tipo de carência nutricional, treino bem, tudo no meu corpo funciona na perfeição. Mas como de tudo: pão, massa, arroz, leguminosas. Foi das melhores decisões que tomei na minha vida porque, acima de tudo, durmo de consciência tranquila.

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