JOSÉ MALHOA: O PINTOR DE PORTUGAL

Morreu faz hoje 70 anos, este filho de agricultores sem posses que, por pouco, não foi empregado de balcão. Tudo por causa de uma certa ‘cunha’. Pintou a morte inesperada de um suíno (quadro ‘Que grande desgraça’) numa época em que as novas tintas, fornecidas em bisnagas, permitiam a deslocação do estúdio para o campo. Não mais, como outrora, os pintores faziam esboços em papel para mais tarde, dentro do estúdio, reproduzi-los na tela.
26.10.03
  • partilhe
  • 0
  • +
José Malhoa morreu em Figueiró dos Vinhos, há 70 anos, onde matinha o ‘Casulo’, o atelier onde realizou algumas das suas mais importantes obras. Registou, nas suas telas, valores etnográficos da realidade portuguesa de meados do séc. XIX e princípios do séc. XX, valendo-lhe o epíteto de ‘historiador da vida rústica de Portugal’. Nascido a 28 de Abril de 1855, nas Caldas da Rainha, José Victal Branco Malhoa é oriundo de uma família de agricultores. Cedo evidenciou qualidades artísticas. Gaiato, traquina, brincalhão, passava os dias a rabiscar as paredes da travessa onde vivia. Aos doze anos, o irmão inscreve-o na Academia Real de Belas-Artes. No fim do primeiro ano, a informação do professor de ornato e figura indicava “pouca aplicação, pouco aproveitamento e comportamento péssimo”. Porém, depressa revela aptidões que lhe dariam as melhores classificações.
O REGRESSO ÀS TELAS
Passava as tardes a desenhar os arredores de Lisboa, sobretudo a Tapada da Ajuda e Campolide. Tendo concluído o curso, pensou em completar a sua educação artística no estrangeiro e entrou em dois concursos para pensionista do Estado. Nada conseguiu, porque o subsídio foi concedido a outro com importantes cunhas. Devido às reclamações, a Academia acabou por não mandar ninguém.
Pensou até em desistir da pintura e emprega-se como caixeiro na loja do irmão mas, seis meses depois, já pintava ‘A Seara Invadida’, cujo êxito fê-lo repensar a desistência. Apesar de ter entretanto casado, Malhoa decide consagrar-se por inteiro ao ofício de pintor. Ainda antes de 1885 chegam as primeiras encomendas artísticas: um tecto para o Real Conserva-tório (‘A Fama Coroando Euterpe’) e outro para o Supremo Tribunal de Justiça (‘A Lei’) são exemplos. Nesse ano, na Cervejaria do Leão, em Lisboa, reúne-se com um grupo de artistas. O Grupo do Leão, influencia a sua opção pela pintura de ar livre.
Pouco tempo depois, adquire casa de Verão em Figueiró dos Vinhos. É aqui que descobre os temas populares. Uma pintura naturalista mas sem maniqueísmo, nem luta de classes. A partir de 1888, interessa-se pela pintura de história. Realiza “Partida de Vasco da Gama para a Índia”, 1º prémio no Concurso para Quadro Histórico promovido pela Câmara Municipal de Lisboa, e ‘O Último Interrogatório do Marquês de Pombal’. Do mesmo ano datam os primeiros retratos que pintou; o mais célebre, descrito como ‘A Gioconda de Malhoa’, a sua obra-prima, é o ‘Retrato de D. Laura Sauvinet’, que era sua aluna.
A CONSAGRAÇÃO
Obras suas são apresentadas na Exposition Universelle de Paris em 1900, pelas quais recebe uma medalha de prata, apenas uma de muitas distinções. Da autoria do arquitecto Norte Júnior, Prémio Valmor de 1905, o Lar-Oficina Atelier Pró-Arte era o seu espaço de habitação em Lisboa. Mas aqui ficava também o atelier, onde o pintor se refugiava no Inverno. Em 1906 realiza uma viagem ao Brasil, a convite do Real Gabinete Português de Leitura. Aqui deixará uma das suas obras mais importantes, ‘Clara’ (hoje no Museu do Chiado, em Lisboa), retrato de uma das pupilas do Reitor de Júlio Dinis, rapariga minhota cheia de saúde e vida. Com a morte da sua companheira, a pintura de Malhoa vai escurecer e pinta: ‘Festejando o S. Martinho (ou Os Bêbados)’, de 1909, onde representa as várias fases da embriaguez, e ‘Fado’, do ano seguinte. Malhoa, que tem a sua primeira exposição retrospectiva em 1928, quando é aceite como membro da Academia Nacional de Belas-Artes, continuará a pintar até à data da sua morte. Deixou duas mil obras.
PRIMEIRO MUSEU
Em 1933 foi criado o Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha. Trata-se do primeiro museu construído de raiz em Portugal. Reúne colecções de pintura, escultura, medalhística, desenho e cerâmica dos séculos XIX e XX, centradas no Academismo, Naturalismo, e Tardo-Naturalismo. Destacam-se os núcleos de pintura de José Malhoa, de cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro e de estatuária de Francisco Franco e Leopoldo de Almeida.
A ÚLTIMA PINCELADA
Pintado há 70 anos, o retábulo de Nossa Senhora da Consolação foi o último trabalho executado por Malhoa, oferecido à Igreja Matriz de Chão de Couce, no concelho de Ansião. Serviu de modelo da santa uma jovem de 18 anos, Maria Augusta Mesquita, ainda viva e residente em Chão de Couce.
A IMPORTÂNCIA DO NOME
Malhoa chegou a retratar o príncipe D. Luís Filipe, a quem deu lições de desenho. O quadro, aquando da implantação da República, estava exposto na Liga Naval, onde entrou um bando de revolucionários que, de escopeta em punho, se dispôs a retalhar a famosa tela. Inesperadamente, um popular colocou-se à frente e avisou: “Aqui ninguém toca. É um quadro de Malhoa…”.
BRIGA EM LEILÃO
As obras de Malhoa foram desde sempre apreciadas no Brasil e num leilão recente que decorreu no Rio de Janeiro, o quadro ‘O Emigrante’, óleo sobre tela, medindo 80x104cm, de 1918, foi arrematado por 140 mil contos. Segundo relatos do leilão, houve ‘briga’, pelo telefone, entre dois incógnitos licitantes.
RECLUSOS INSPIRADOS
Quadros de Malhoa inspiraram oito reclusos do Estabelecimento Prisional de Alcoentre para encenarem uma peça de teatro, com textos baseados nas obras do mestre pintor, onde são observados vários géneros de representação, desde a dramatização à comédia.
PINCEL COBIÇADO
A estátua de Malhoa, em bronze, colocada em frente ao museu das Caldas da Rainha por altura do centenário do seu nascimento, já foi por diversas vezes alvo dos amigos do alheio. Na impossibilidade de levarem a estátua, dado o peso, os larápios chegaram a tirar o pincel que o pintor segurava na mão. A direcção do Museu decidiu que, no dia de encerramento, à segunda-feira, o pincel é recolhido.

pub

pub

Ver todos os comentários
Para comentar tem de ser utilizador registado, se já é faça
Caso ainda não o seja, clique no link e registe-se em 30 segundos. Participe, a sua opinião é importante!