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Júlio Isidro: "Se for preciso varro o estúdio"

Encheu o estádio num programa de rádio, juntou milhões num programa de televisão e agora conta as suas memórias
Por Leonardo Ralha|27.11.16
Júlio Isidro: "Se for preciso varro o estúdio"

Diz que é o último representante de uma geração de talento   da   televisão portuguesa. E continua a prová-lo na RTP Memória, mesmo sem os milhões que juntava com ‘O Passeio   dos   Alegres’.   Pronto para muito mais programas, Júlio Isidro acaba de lançar ‘O Programa   Segue   Dentro   de Momentos’   (ed.   Marcador), livro de memórias em que até aparece despido.

Acredita mesmo que pode ser esquecido?

Vivemos em tempo de grande esquecimento,   onde   provavelmente a dada altura só nós é que nos lembramos de nós próprios. Se sobreviver a esse esquecimento   global,   serei mesmo um privilegiado.

Os amigos das suas filhas mais novas sabem quem é?

Se não fossem amigos delas não saberiam [risos]. Vejo-o quando senhoras com miúdos   pela   mão   lhes   perguntam: "Sabes quem é este senhor?" Os miúdos não fazem ideia e não é por não saberem quem é o Júlio Isidro. É por não saberem o que é a televisão generalista, que está a expirar. O cabo está a aumentar, mas há outras formas de ver, noutros   suportes,   que   são consumidos pelas crianças.

Sabe quantos telespectadores veem os seus programas na RTP Memória?

O   ‘Inesquecível’   é   quase sempre o primeiro do canal no sábado e os números são muito simpáticos. Sobrepõe-se com ‘A Tua Cara Não me é Estranha’   pelo   que   às   vezes parte do zero e vai subindo, numa curva extraordinária, e chega a fazer 60 mil, o que é muitíssimo bom.

Como compara esses milhares com os milhões que tinha nas tardes de domingo dos anos 80?

[risos] Quase como uma história de ficção. Tinha 95 por cento de share e isso é irrepetível, estivesse ou não na RTP Memória. É muito bom saber que consegui ter milhões à minha   volta,   sem   a   menor dose de lamento – o meu livro é um exemplo de otimismo, e quem fizer uma leitura diferente está   a   ver   o   filme todo ao contrário.

Sente-se melhor apresentador e autor de programas agora do que nos anos 80?

Para   a   época,   aquilo   que   fiz estava muito bem feito. Mas hoje já não faria assim. Não faço é como agora, em que é tudo primário, básico e elementar. Temos medo de falar e escrever muito, pois se calhar os outros não vão gostar.

Escreveu que a tecnologia coarta a imaginação.

Com menos meios tecnológicos   somos   obrigados   a criar. Caso contrário não haveria as pirâmides do   Egito.

As pirâmides tinham muitos assistentes de produção e nem eram voluntários…

Espero que as televisões não tenham escravos, mas isso é outra conversa. Algumas carências motivam a imaginação, a criatividade e a vontade de fazer. Costumo dizer que fiz televisão de vão de escada e ainda hoje o ‘Inesquecível’ é quase artesanato. Penso nos temas e convidados, a Sandra, minha mulher, contacta a   documentalista   da   RTP para fornecer pistas, ela faz a pesquisa de material, e depois construo histórias. Escrevo o guião, apresento, e se for preciso varro o estúdio.

Porque é que decidiu escrever este livro agora?

A decisão resultou da minha indecisão. Nos 50 anos de carreira era legítimo que fizesse esse balanço, mas tinha muito trabalho. Houve gente que queria escrever a biografia, o que não seria o meu género. Também recusei assinar um livro que não fosse escrito por mim. Fui adiando, mas como conto muitas histórias às minhas filhas mais novas tomava apontamentos e, às duas por três, tinha várias folhas escritas, completamente desordenadas.

Vai desiludir quem esperar ajustes de contas e inconfidências.

Não faço ajustes de contas, não faço inconfidências, não consigo ser primeira página de jornal a dizer "Júlio Isidro aparece nu no livro." Até apareço, mas tenho três meses.

Teve   bastantes   namoros, mas só refere a sua primeira mulher, a sua atual mulher e a Ana Bola.

Podia descrever outros, mas para quê? Para dar a entender que fui um galã? Nunca fui. O que   fiz   ao   longo   da   vida   foi gostar de gostar. Gostei, houve pessoas que terão gostado de mim, mas não era o mais importante nestas páginas.

Quanto a canalhas e falsos com que se cruzou, chegou a dizer que poderia encher uma página com as iniciais deles. Dá para perceber que foram uns quantos…

As pessoas sabem que a minha vida não foi fácil, que levei com a porta na cara algumas vezes, que me entalaram outras, que me pregaram rasteiras, mas não sou o Calimero. Estou aqui porque ultrapassei isso tudo. Disse aquilo das iniciais quase em tom de graça, pois algumas iam dar nas vistas. Mas foi brincadeira. Era capaz de encher uma página, mas com um corpo de letra grande.

Quem reparar nas figuras da televisão que nunca são referidas no livro adivinha quem são essas pessoas?

Nem pouco mais ou menos. Mas também digo que não tenho amigos no meio da comunicação. Há muita gente que gosta de mim e de quem eu gosto, mas no Facebook é que temos cinco mil amigos. Amigos são um ou dois.

Mobilizou milhares na rádio, no ‘Febre de Sábado de Manhã’, e na televisão, com ‘O Passeio dos Alegres’. Já fazia redes sociais antes de haver internet?

Nem eu sabia que estava a inventar a pólvora. Fui capaz de criar uma onda através da rádio,   que   é   a   minha   grande paixão, para que comunicassem connosco e entre si. Depois   juntou-se   a   televisão, ainda com mais força, mas só na rádio fiz entrar 50 mil jovens no Estádio de Alvalade para irem ‘ouver’ um programa de rádio, o que é realmente   o   princípio   de   uma   certa forma   de   rede   social.   Foi sempre minha ideia que a rádio e a televisão não se fazem só   do   lado   do   estúdio.   Fazem-se muito mais do lado do   público.   Quando   cruzamos uma coisa com a outra, e a nossa intenção é boa, resulta como resultou.

Tem noção de que meter 27 pessoas dentro de um Mini lhe   daria   hoje   milhões   de visualizações no YouTube?

Passou na Eurovisão e tenho um telex a dizer que foi visto na televisão japonesa. Como é que chegou lá, não sei. Essa situação, e outras que criei, teriam hoje impacto monstruoso. Mas tiveram o impacto que tinham de ter.

Ou quando lhe atiraram facas em direto...

Imagine   um   francês,   inglês ou americano a fazer a loucura que fiz, de me meter num alvo, preso e com uns fulanos mascarados de índios, ainda por cima de Almada, a atirarem facas e as facas a acertarem-me ao lado. Recomendo que vejam onde pus as mãos e o que protegi. Devia ter sido o coração. Mas não.

Só precisou de dois dias para apresentar o projeto de ‘O Passeio dos Alegres’?

Dois   dias   para   apresentar   e dez dias para que tudo se fizesse. Isso deve-se também a uma RTP absolutamente extraordinária. Em dez dias pusemos   no   ar   um   programa que durou quatro anos.

Já tinha o programa pensado na sua cabeça?

Não.

Foi dos zero aos cem em dois dias?

Como   sou   um   incorrigível sonhador, provavelmente no subconsciente já tinha pensado que se fizesse uma coisa em televisão seria assim. Mas não me passava pela cabeça que   seriam   quatro   horas   e meia. Costumo dizer que represento – infelizmente sou a última abencerragem – uma geração cheia de talento.

Só não disse "aqui posto de comando   das   Forças   Armadas" na madrugada de 25 de Abril de 1974 porque trocou de turno no Rádio   Clube Português com Joaquim Furtado. Teve pena?

Não calhou e o comunicado foi   muito   bem   lido   por   um profissional que admiro profundamente.   Cheguei   mais tarde ao   Rádio   Clube Português e juntei-me à equipa. Li outro comunicado, que era já uma   espécie   de   enunciado político,   cheio   de   rasuras. Gostava de perceber o que tinha sido riscado.

Podia ter virado a folha ao contrário...

Não se conseguia. Era escrito à máquina e tinha tinta preta em cima de coisas que devem ter resultado de negociações.

Chegou às vésperas da revolução a conciliar rádio, televisão,   emprego   de   delegado de propaganda médica   e   serviço   militar. Como reconhece no livro,   o seu primeiro casamento não teve muitas hipóteses.

Saía da rádio à uma da manhã, para reentrar às três da manhã, para o ‘A Noite é Nossa’, muitas vezes transmitido em direto da boîte O Porão da Nau. É evidente que ia direto para lá e que, embora não beba nem fume, me ia divertir em   vez   de   estar   em   casa.   É perfeitamente justo que a minha primeira mulher me tenha posto a mala na escada.

Por vezes pensa que tudo poderia ter sido diferente?

Se tivesse feito apenas uma das   coisas,   provavelmente vivia uma vida muito aborrecida. Digo, com muito orgulho,   que   nunca   trabalhei menos de 12 horas por dia. Hoje trabalho um bocadinho menos, mas nunca menos de oito. E também aos sábados e domingos.

Na sua primeira tentativa de entrar para a televisão foi   chumbado   por   ser   o mais feio. Como é que um adolescente resiste a uma coisa dessas?

Chora.   Eu,   pelo   menos,   fui chorar. Mas conto o episódio com um enorme sorriso nos lábios. Tudo o que nos acontece, particularmente quando damos a volta por cima, acaba por nem sequer ser negativo. O meu querido amigo Fernando Mello Frazão, que viria a ser a única pessoa da televisão que convidei para o meu   primeiro   casamento, não teve muito jeito ao dizer "tu és o melhor, mas não entras   porque   és   muito   feio". Para um rapaz de 15 anos, levar com um atestado de fealdade não foi bom, mas não me obrigou a ir ao psiquiatra ou ao psicólogo.

Até   porque   pouco   depois foi chamado pela RTP.

Para ir fazer uma rubrica de bricolage, chamada ‘Mãos à Obra’, mas nesse dia cantava com o Orfeão do Liceu Camões. Comecei a construir um   avião   e   também   cantei. Tudo começou a compor-se. Isto é a história de alguém que tem tido sorte na vida. Sobreviver é uma sorte, garantir a sobrevivência das minhas filhas é outra. Nesta altura, a minha meta de vida é estar o melhor   possível   –   não   sou muito de ir ao médico mas as análises não têm sido más – e criar condições para que elas sejam felizes e concretizem os seus sonhos. E depois partir   daqui   tranquilo,   com   a ideia   de   que   deixei   alguma coisa feita na história da televisão. Sei lá se tenho uma página ou só um epitáfio.

Ou mesmo um capítulo.

Os amigos dirão que é um capítulo. Se for uma página, ou uma referência ou uma citação, logo se vê. Tudo aquilo que fiz foi sempre com vontade de fazer bem e sobretudo de dar prazer ao próximo.

E se Deus for o diretor de programas   disto   tudo,   o que pensa que lhe reserva?

Às vezes converso com Ele e estou convencido de que talvez   me   reserve   lugar   numa nuvem e talvez nessa nuvem venha a encontrar alguns dos artistas e dos amigos que já perdi. E se calhar fazemos um grandessíssimo programa de televisão lá em cima.

Podem ver quantas pessoas cabem numa nuvem.

Espero que me arranje uma cumulus, que é a nuvem maior de todas, e que consigamos caber todos.

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