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Miguel Araújo: “Eu estava-me nas tintas para as letras”

Para surpresa de muitos, um músico ganhou o Nobel da Literatura. Pedimos a Miguel Araújo para fazer justiça à escolha.
16.10.16
Miguel Araújo: “Eu estava-me nas tintas para as letras”

In  the truth world, nothing does begin or end. You know, it’s  like things begin while something else is ending. There’s never any sharp borderline or dividing line" ("No mundo real nada começa   ou   acaba.   Sabe,  há coisas que estão a começar na mesma altura em que outras acabam. Não há uma separação clara ou linha divisória"). Bob Dylan, em entrevista à ‘Rolling Stone’, 2012.

Onde começa e acaba a Literatura?

Eu dedico a minha existência à música popular por causa de ‘Like a Rolling Stone’. O meu tio Sérgio ensinou-me a linha de baixo dessa música no pequeno lanço de escadas da loja ‘Sasom’, em Perafita, num baixo Samick que acabara de me aconselhar para compra. Estávamos em 1989 e nenhum dos meus amigos do sexto ano sabia quem era o Bob Dylan. E eu estava-me nas tintas para as letras. Era mesmo a voz que me   cativava.   E   logo   quem. Mais tarde aprende-se que o Bob Dylan não é cantor. Vão dizer isso ao rapaz de 11 anos abraçado   a   um   baixo   maior que ele. Mas a minha relação afetiva com o cantor, ou com o guitarrista, ou com o poeta, ou   com   o   song-and-dance man, não é para aqui chamada. Nem sequer a minha relação mais tardia com as letras das músicas.

Não sei se o Bob Dylan merecia ganhar o prémio Nobel da Literatura. Não sei, mas também não tenho nada com isso. O que aqui merece debate é o facto de ter sido atribuído o mais alto prémio literário a um homem da música popular. Sendo unânime que a poesia assenta sem atrito no estrito e estreito espartilho que amarra aquilo   que   se   convencionou como "literatura", rapidamente   emergem   argumentos como "o próprio Dylan não se assume como poeta". Pois não, mas é um dos poetas mais influentes do século XX. O mesmo pudor que o faz rejeitar o epíteto de cantor não faz dele nada   menos   do   que   um   dos cantores   mais   influentes   da história da música popular tal como a conhecemos. Confinar a literatura aos livros faz tanto sentido como confinar a música aos CD. Os próprios conceitos académicos que definem   as   subcategorias   dos géneros literários pressupõem a sua versão cantada.

O que é certo é que o Dylan ajudou a moldar o mundo em que vivemos, e não foi por ser mais um entre as centenas dos cantores andrajosos da cena Folk já relativamente deslocada no tempo que ainda restolhava por Greenwich Village. A adesão universal ao seu universo pessoal aconteceu por via das palavras que vinham dentro das suas canções. Não sei se os méritos literários do recém-laureado são dignos de um prémio Nobel. O pessoal lá na Suécia saberá melhor do que eu. Mas que não deixe de o ser por causa da música. Apesar de tudo, imagino que o objetivo do prémio Nobel seja o de premiar a literatura, e não tanto   o   de   defender   as   suas fronteiras   académicas.   Uma voz roufenha e nasal é, necessariamente, morada tão legítima para a expressão de ideias como pasta de celulose. E se esta atribuição ajudar a recentrar a definição de literatura, dando sentido à eterna e sempre pertinente "the times they   are   a   changing"   ("os tempos estão a mudar"), então pelo menos esse mérito já ninguém lhe tira.

[texto escrito por Miguel Araújo a convite da Domingo]

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