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Minha querida Dinamarca

No final dos anos 60 e até ao 25 de Abril muitos portugueses asilados chegaram mais longe.
Por Mafalda de Avelar|13.03.16
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Minha querida Dinamarca
José Melo e Oliveira (à esquerda), natural dos Açores, desertou com 20 anos Foto Arquivo Pessoal

"Tomei a decisão de partir por duas razões: não querer ir para a tropa e por não estar de acordo com a guerra colonial", afirma Joaquim Saraiva, no ‘Livro d’exílios’, obra que será lançada no próximo dia 25 de abril e que conta com a colaboração de vários exilados políticos portugueses, que pediram asilo entre 1961 e 1974. Nesses anos, não foi só a França o destino dos portugueses. Muitos tomaram o rumo para a Escandinávia, particularmente para a Dinamarca, hoje em dia centro da atenção internacional devido à aprovação no parlamento de polémicas políticas de asilo, que contemplam o confisco de bens e dinheiro com valor acima de 1340 euros e condicionam o reagrupamento familiar a três anos.


A ‘Domingo’ foi escutar a voz de quem já foi refugiado na terra da pequena sereia. Longe do conto de fadas, de Hans Christian Andersen, são muitos os que viveram momentos difíceis em Portugal antes do 25 de Abril de 1974, e que encontraram na Dinamarca um porto de abrigo. E se alguns partiram porque não concordavam com a guerra colonial, todos saíram porque queriam mais liberdade.


ATRAVÉS DE IRUN

E já vão 46 anos. Joaquim Saraiva, 66 anos, farmacêutico, foi para a Dinamarca com 20 anos. Não escondendo nostalgia, Saraiva, conversou com a ‘Domingo’ em Benfica, no mesmo local "dos encontros da juventude", nos anos que antecederam a Revolução dos Cravos.


"Era sempre aqui que nos encontrávamos. [A pastelaria] Nilo era a coisa mais nova que existia aqui", diz. Saraiva, que começou a trabalhar numa farmácia com 11 anos "por necessidade" e que, no início, não tinha consciência política, nem "estava inserido em nenhuma organização". Mas "tinha um grupo de amigos e dava-me bem com os estudantes e, às tantas, começaram a avisar-me de que a minha casa estava a ser vigiada".


A confirmação chegou mais tarde. A certeza de que tinha de sair do País também. "Os contactos com esses amigos acabaram por me dar algum conhecimento daquilo que se estava a passar com a luta dos estudantes." Entretanto, tinha chegado a altura de ir para a tropa. "Não queria fazer a guerra colonial."


Tudo coincidiu: "Saí daqui com seis, sete contos. Os meus pais não souberam. Só depois." Não foi à primeira. Nem à segunda. Foi à terceira tentativa que Joaquim conseguiu ir embora. Eram seis inicialmente mas na "hora H" existiram sempre contratempos e partiu sozinho. "Saí de Portugal a pé por Vilar Formoso." De lá, sem passaporte, seguiu as indicações de um passador. Do outro lado da fronteira tinha uma pessoa referenciada. No dia seguinte, foi de comboio até Irun (País Basco). Paris esperava-o mas o contacto que lá tinha nem por isso. Não tinha dinheiro (gastou os últimos cêntimos num pacote de batatas fritas e num café), tinha fome e não tinha onde dormir. Lembra-se de uma grande manifestação hippie, que até hoje perdura na memória.


Amanheceu no 1º de Maio de 1970. Com um passaporte falso e já com "um contacto". Chegou a Copenhaga, Dinamarca. Mas o seu destino era a Malmö, Suécia. Afinal era lá que estava a sua namorada portuguesa. Atravessou da Dinamarca para a Suécia de barco. Pediu asilo às autoridades suecas mas foi-lhe negado. Existia um acordo entre os países nórdicos – os pedidos de asilo teriam de ser feitos no país de entrada.


Saraiva tinha entrado pela Dinamarca. Para lá voltou. "Passei 10 dias detido." Depois de muitos interrogatórios foi levado para uma pensão, onde "teria de aguardar a resposta ao meu pedido de asilo". Nessa fase, "o maior receio continuava a ser a deportação para Portugal". Não aconteceu. "A polícia foi lá à pensão." Os que lá estavam foram em camionetas distribuídos por várias cidades dinamarquesas. "Fui enviado para Aarhus."


O Hotel Regina era a sua casa. Era o único português, "95% eram Polacos de origem judia", e só arranhava o francês. "Não foi fácil", confessa. Teve, no entanto, aulas e o apoio necessário – da dormida, à comida, à atribuição de uma verba. Esteve dois anos sem trabalhar.


E se no início era o único português, rapidamente deixou de ser. "Começaram a chegar mais portugueses – desertores, refratários, antifascistas." Havia muito que fazer. Começou a apoiar quem chegava e foram muitas as iniciativas abraçadas – desde manifestações a publicações. Nesta luta pela integração de quem chegava à Dinamarca, constitui-se, conta, o núcleo de ‘O Comunista’ (F. Engels) e o Comité de Desertores Portugueses na Dinamarca (CDP-DK).


DESERTORES E REFRATÁRIOS

José Melo e Oliveira foi um desses desertores. Natural da Ilha Terceira, Açores, Melo e Oliveira, hoje com 66 anos, saiu de Portugal com 20 anos. "Em 24 de fevereiro de ‘71. Estava na tropa. Estava para ir para os comandos em Angola, mas desertei", conta. Na altura, "fomos ajudados por uma organização da igreja protestante. Éramos cinco".


Pagaram a um passador que os levou a Salamanca. Lá, um padre esperava-os. "A nossa ideia não era ir para a Dinamarca mas para a França". Mas "eu e o meu primo não ficámos em Paris". Foram numa Renault 4L "para cima". Afinal, os amigos eram refratários. Eles, desertores. "Queríamos ir para o mais longe possível e procurávamos países neutros que tivessem mais auxílio humanitário e político." Confessa que estava revoltado contra o sistema que se vivia em Portugal, "não era alinhado", e que teve a sorte, também, de ter sido ajudado pela Amnistia Internacional, instituição que o levou até à Dinamarca. Foi para Aarhus. "Foi um alemão que nos ajudou".


Tal como sucedeu a Joaquim Saraiva, Melo e Oliveira tinha entrado na Escandinávia pela Dinamarca. Lá teve de ficar. De lá guarda boas memórias. "Fui bem acolhido." Casou com uma dinamarquesa, de quem está divorciado. "Regressei a Portugal pós 25 de Abril."


Na Dinamarca, "vivíamos independentes" e tivemos apoios. "Eu tratei os dentes lá durante uma série de anos. A assistência médica era muito boa." Do que se lembra muito bem, também, foi da primeira experiência quando chegou à Dinamarca. "Fomos levados para um coletivo". Os coletivos, eram grandes propriedades que recebiam gente de todo o lado e que permitiam a vivência conjunta (como, aliás, está muito bem retratado num dos filmes premiados neste ano no festival de Berlim, ‘The Commune’, de Thomas Vinterberg ). Os coletivos eram, também, um marco na diferença cultural entre o norte e o sul da Europa – uma diferença "abismal".


E é exatamente esse o adjetivo utilizado por José Carmelo, professor na Universidade do Minho e doutorado pela Universidade de Copenhaga, para se referir à diferença nessa época entre Portugal e a Dinamarca, país onde Carmelo foi refugiado, onde estudou, onde conheceu a sua primeira mulher e onde tem, hoje, dois filhos. "Saí de Portugal em 1972 e voltei em setembro de ‘74", conta, acrescentando que tinha 19 anos e foi à boleia. À semelhança dos exemplos acima citados, Carmelo refere "que teve um apoio muito bom na Dinamarca", foi colocado pela polícia numa pensão com acesso a tudo.


Em 1972, e ao contrário dos exemplos anteriores, que chegaram dois anos mais tarde, Carmelo foi logo informado de que existia um grupo que ajudava refugiados.


Na Dinamarca perguntaram-lhe se queria trabalhar ou estudar. Optou por estudar. "Fui tratado como cidadão dinamarquês." Obteve um empréstimo bancário para frequentar o ensino.


Em 1972, Carmelo, que era estudante universitário do 1º ano, em Lisboa, "não tinha ideias políticas formadas mas depois começou "a ver aqueles gorilas na universidade e a não gostar da situação". Era caloiro e começou a colar cartazes. "A certa altura, houve a informação de que iriam suspender 50 e tal alunos, que iam prendê-los e enviá-los para as colónias." Foi nessa altura que a decisão foi tomada. Saiu daqui à boleia, "tinha algum dinheiro", queria ir para a Suécia mas chegou a Copenhaga e dirigiu-se a uma universidade e pediu ajuda.


No primeiro ano esteve em Kolding, depois foi para Aarhus. Em 1974, voltou para Portugal mas dez anos depois, como falava dinamarquês, fez o doutoramento na Dinamarca. E casou com uma dinamarquesa. "Fui casado 12 anos. Tenho dois filhos que falam português e que estão na Dinamarca."


"Saí de Portugal por razões políticas e, por isso, pedi asilo", afirma Carmelo. "Já estava claríssimo que aquela guerra estava perdida." Para Carmelo, "os que chegavam aos países nórdicos eram aqueles que queriam mesmo pedir asilo político".


POR UM PAÍS DIFERENTE

Foi o caso de Rui Guimarães, professor universitário na Universidade de Trás-os- -Montes e Alto Douro (UTAD) que, antes de ir para a Dinamarca, foi para Bruxelas. "Onde pedi asilo político nas Nações Unidas." Lá familiarizou-se com os direitos humanos. Estávamos no final de 1969.  


"Tinha à volta de 20 anos. Foi muito difícil e uma grande aventura. Não tinha passaporte. O dinheiro também não era muito. Fui à boleia." Depois, já no comboio, "quando vinha o revisor escondia-me na casa de banho atrás da porta".


Conseguiu sair na estação em Paris. "Tive de esperar pela noite e saltar um gradeamento muito alto de ferro". Dormiu no chão dos prédios, que tinham a porta aberta, durante dias. Depois, juntou dinheiro. Trabalhou numa empresa de construção de uma autoestrada onde se apercebeu do "grande sofrimento dos emigrantes nessa altura". Escreveu, por muitos dos que não sabiam escrever, cartas. Seguiu viagem. Conheceu muitos políticos.


Chegou à Suécia e ficou detido porque não tinha passaporte. Mandaram-no para a Dinamarca, país por onde tinha entrado. "Meteram-me num avião." Colocado em Aarhus "deram-me dinheiro para viver, vivi; deram-me alojamento e colocaram-me numa escola a aprender dinamarquês". Optou por estudar, parcialmente a expensas do estado dinamarquês.


Saiu de Portugal, em 1969, quando começou a ter contacto "com os interrogatórios da PIDE". "Vivíamos no Porto em espírito de liberdade e não estava fácil. Embora fosse novo, a tendência era modificar a situação e conquistar um regime diferente. Democrático, com liberdade." Ideias que o levaram àquele país mais a norte.

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