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Na faina até que a força lhes falte

As reformas são pequenas, grande é o gosto pelo mar. Pescadores sesimbrenses desafiam a barreira da idade.
Por José Carlos Marques|15.02.15
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Na faina até que a força lhes falte
Manuel Vidal passou os últimos 20 anos a pescar no bote 'Vera Lúcia', nome de uma neta

Foi no final do último verão que Manuel Pereira Vidal se rendeu às evidências. Tinha então 85 anos de idade, 73 de vida no mar. Não é que a saúde fraquejasse, porque ainda se sente com forças para largar o cais, mas percebeu que era tempo de ficar em terra. O mal do irmão mais novo, um ‘jovem’ de 71 anos, precipitou a decisão.

"O meu irmão estava com ideias de comprar uma lancha e eu ia com ele. Mas ele agora esmoreceu, por causa de uma perna." António Vidal não voltou ao mar. E Manuel, conhecido como ‘Escuminha’ ou ‘Nelinho’ em Sesimbra, teve de resolver a sua vida: "Um gajo sozinho já não pode. Cheguei a andar sozinho, quando era mais novo. Tanto ano que andei sozinho ao mar", diz em tom nostálgico.

Manuel teve de vender o seu pequeno bote, uma aiola como se diz em Sesimbra. O ‘Vera Lúcia’ mudou de mãos. "Ainda me rendeu 250 contos [1250 euros], mas o dono não fez nada dele." De facto, o pequeno bote está por ali no porto de Sesimbra, cheio quase até ao bordo com água da chuva. Ao chegar perto do bote que foi a sua casa no mar por décadas a fio, Manuel pede ajuda.

Não descansa enquanto não vê o casco sem água. Lembra as jornadas que começavam de madrugada, quando saía para ir à pesca de polvos, chocos e lulas. Um modo de vida que começou muito cedo. "Deixei a escola aos dez anos. Só queria a praia, andar ao banho e praia. Eu fugia da escola e fazia falta mais um rendimento lá em casa. E o meu pai também precisava de um camarada", conta o terceiro de quatro irmãos – só o mais novo está vivo.

As razões que levaram Manuel Vidal a abraçar a vida de pescador tão cedo, antes mesmo de aprender a ler – coisa que nunca conseguiu alcançar –, são as mesmas que o fizeram continuar a largar armadilhas no oceano até quase aos 86 anos. O dinheiro, ou antes a falta dele. Manuel ainda faz contas em escudos para contar como ajudou as quatro filhas. "Era para pagar as casas,  as despesas.

A reforma são 77 contos (385 euros), não dá para nada", explica. Até porque um bom dia de pesca poderia render até 200 euros, a dividir pelo irmão. Manuel gostava do mar, ainda se faria às ondas se tivesse companhia. Mas conforma-se com os dias passados à conversa com outros velhos lobos do mar na Sociedade Musical Sesimbrense: "Estou em terra. Agora a nossa vida de reformados é jogar às cartas."

IRMÃOS E SÓCIOS

No porto de Sesimbra, um dos barcos mais antigos é o ‘Nossa Fé’. É propriedade de dois irmãos, Joaquim Viriato e António José Silva, de 73 e 74 anos. Continuam a acordar todos os dias por volta das quatro da manhã, prontos para sair para mar-alto se o tempo estiver de feição.

Já lá vão quase seis décadas de faina e, apesar de estarem ambos reformados há muito, não fazem planos de abandonar o ganha-pão. "O meu pai era pescador, nós éramos os homens da família. As mais velhas são três raparigas e naquele tempo as raparigas não trabalhavam", conta António. Joaquim Viriato conta a naturalidade com que iniciaram a vida no mar: "Quando nós éramos pequenos, não havia muitos empregos. O que havia cá em Sesimbra era a pesca. Nós andávamos na escola, quando saíamos íamos ajudar aos barcos, a estender o aparelho de pesca e a lavar. Foi a nossa vida de pequenos, depois, quando crescemos, começámos a andar ao mar. Tinha 15 anos quando comecei."

Viriato ainda andou num barco grande à pesca do peixe-espada-branco, António começou logo com o pai nos pequenos botes. A faina corria-lhes bem. "Quando tinha aí  uns 17 anos, comprámos a primeira embarcação, um barco pequeno, com motor de dez cavalos. Começámos a andar à pesca nesse barco." Com o pai e um tio, irmão do pai, andaram à pesca anos a fio. Ficou-lhe o exemplo de longevidade. "O meu pai andou sempre connosco. Trabalhou sempre até à idade aí de 80 anos. E faleceu tinha uns 90", conta Viriato. O tio, mais novo, ainda durou mais tempo: "Esse é que bateu o recorde. Deixou de andar no mar com 81 anos", completa António.

António José Silva já é bisavô. Os mais novos têm nove e quatro anos. Dos dois rapazes e uma rapariga que teve, nenhum se dedicou à pesca. Também Viriato, que tem três filhas, não tem descendentes no mar. Quando saem, levam mais três pescadores, que manobram os botes na pesca de polvo, lula e choco, as espécies que o mar lhes oferece no inverno. Rapazes novos, mas só por comparação com os irmãos septuagenários: "Andam aí pelos 50 anos, a malta mais nova já não se mete no mar", lamenta António. Com reformas de 400 euros, também eles precisam do mar para pagar as contas.

"Enquanto houver saúde, a gente vai tentando. Nós nascemos mesmo à beira-mar. E a nossa vida de sempre tem sido esta. Não vamos parar agora quando ainda temos possibilidade de ainda fazer alguma coisa. Temos saúde, a gente vai-se entretendo. Vai-se ganhando alguma coisa." Viriato explica que continuam a fazer as mesmas jornadas de trabalho de toda a vida. "Estando bom tempo, vamos ao mar de segunda a sábado. Em semanas de bom tempo ao domingo, se tivermos falhado algum dia durante a semana também vamos ao domingo."

E não é por trabalharem juntos há quase 60 anos que se cansam um do outro: "Vamos os dois no barco, mas um está ao leme e outro à poupa." Viriato é o "chofer", vai atento aos motores, António é o mestre ao leme do ‘Nossa Fé’. Os outros pescadores, três a quatro homens nos botes, completam a equipa.

SUSTOS NO MAR

A velha barca dos dois irmãos, já com mais de 60 anos em cima, é uma das embarcações mais velhas do porto de abrigo. Já viveu muitas madrugadas de aflição. Os irmãos não sabem precisar a data, mas dizem que o maior susto terá sido há 10 anos. Na escuridão da noite, uma traineira cortou a barca a meio. "Eles viraram o barco de repente na nossa direção, só tive tempo de puxar o barco à ré. A poupa da barca encostou à traineira, conseguimos salvá-la porque a atámos à traineira", conta António.

Foi prejuízo grande. As reclamações com os seguros não deram em nada. Lá chegaram a acordo com o dono da traineira para pagar uma parte do arranjo, mas só depois de terem passado quatro meses sem ir ao mar.

Manuel Vidal também não tem a data na memória. Mas revive o maior susto que apanhou nas ondas com a vivacidade de quem sentiu a morte bem perto. "Íamos em duas lanchas destas pequenas. Era o meu pai, eu e os meus dois irmãos. Levantou-se um temporal tão grande que toda a gente dizia que a gente não chegava cá. Estávamos quatro nos barcos, mas não éramos quatro, éramos seis. Veio Deus dentro de uma aiola e Nossa Senhora do Carmo dentro de outra", conta o pescador.

Quem anda no mar sabe dos riscos que corre. António José Silva conta que, ainda há 15 dias, se viu aflito para conseguir entrar no porto de abrigo. "Levantou-se um bocado de vento sul-sueste, fez uma grande maresia e então vimo-nos às aranhas para entrar. Mas, pronto, correu tudo bem." Nada que o faça hesitar. "Se a gente fosse sair de casa com medo, nem andávamos na estrada. E olhe qu  morre ainda mais gente na cama do que morre na estrada", explica entre gargalhadas o mais velho dos irmãos. Mas sempre admite que a idade lhe refreou a ousadia: "Já chegámos a ir com mau tempo, quando éramos novos. Mas agora, com esta idade, já estamos assim um bocado mais coisos..."

Manuel Vidal também nunca se deixou amedrontar. "O mar só é perigoso quando está mau tempo." Também ele na juventude arriscou muitas vezes sair para a pesca em dias de temporal, mas com a idade perdeu a ânsia de desafiar as ondas. Aceita sem queixume que os seus dias de pescaria acabaram, mas permanece a vontade de navegar. Qualquer oportunidade serve: "Há dois anos apareceram aqui uns rapazes da junta de freguesia, queriam passear. Eu levei o barco, pagaram bem, 40 contos."

Manuel ainda é do tempo em que se ia para o mar à força de remos. Andou por Cascais, numa barca bem conhecida entre os pescadores. "Era a do Zé Leste, foi muito falada essa barca. Trazia sempre muito peixe. O patrão era muito bêbedo, mas para fazer contas não havia cá problemas. Era um homem bom, capaz de dar dinheiro dele aos camaradas." Passava os dias entre o camião que o levava de Sesimbra a Cascais e as longa horas no mar. Voltou depois para Sesimbra e passou os últimos 20 anos com o seu bote ‘Vera Lúcia’, nome de uma das netas.

Os irmãos Silva explicam que a barca deles é das últimas fabricadas em madeira. Já não tem valor comercial. Há de resistir a mais um inverno: "Quando acaba a pesca do choco, geralmente aí por alturas de maio ou junho, vamos para o palanque de fundo. Apanhamos raia, safio, pargo, pescada, várias qualidades de peixe", conta António. Para os dois irmãos, a pesca é mais do que um trabalho. Porque é no baloiço das ondas que a alma encontra sossego.

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