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Não há nenhuma Maria e todas têm chuteiras

Arranca hoje o Europeu de futebol feminino e Portugal participa pela primeira vez
Por Leonardo Ralha|16.07.17
Não há nenhuma Maria e todas têm chuteiras
Andreia Norton é a mais nova das 23 portuguesas que disputam o Europeu na Holanda. Tem 20 anos e passou pelo Barcelona antes de ir para o Sporting de Braga Foto Pedro Catarino

Há golos tão inesquecíveis que Andreia Norton não encontra palavras para falar do mais importante da sua ainda curta carreira. "É um golo que eu não consigo explicar. Por ser um golo que marquei pelo meu país, por ser o golo que nos qualificou. Sem as minhas colegas não era possível, mas foi algo marcante, que vai ficar para a minha vida", diz a jovem de 20 anos, no campo de treinos nº 1 da Cidade do Futebol, onde, na quarta-feira, era uma entre as 23 que se preparavam para aquilo que nenhuma portuguesa fez antes.

O golo que Andreia não consegue explicar foi marcado a 25 de outubro de 2016, no prolongamento do Roménia-Portugal, após um empate a zero em Lisboa. A avançada nascida no Furadouro, Ovar, recebeu a assistência de uma colega e rematou, em posição frontal, com a bola a bater numa adversária antes de atravessar a linha de golo. Houve festa no relvado, pois nem o golo do empate marcado pelas romenas impediu o maior feito do futebol feminino português: a Seleção A apurou-se pela primeira vez para o Europeu, que começa hoje na Holanda, embora a estreia lusitana fique para quarta-feira, frente à Espanha.

As espanholas são adversárias poderosas, tal como as inglesas e escocesas, que completam o Grupo D, pelo que realismo é a palavra de ordem entre as 23 escolhidas do selecionador Francisco Neto. Nenhuma se chama Maria, ainda hoje o nome feminino mais comum em Portugal, mas mais ou menos jovens, mais ou menos experientes, a jogar em Portugal ou no estrangeiro, as melhores futebolistas portuguesas são incomuns nos percursos e no talento.

É o caso de Ana Borges, de 27 anos, que fez a assistência para o golo que garantiu a qualificação. Depois de dez anos em Espanha e Inglaterra, com passagem pelos EUA, regressou a Portugal a meio da época passada, ajudando o Sporting a conquistar o campeonato e a Taça de Portugal, e viu agora confirmada a permanência no clube português, onde estava por empréstimo do Chelsea.

Habituada a grandes palcos, pois jogou em Stamford Bridge para a Liga dos Campeões, em Alvalade e no Estádio Nacional, sublinha que a fase final do Europeu "já é um sonho", pois o valor das restantes seleções desaconselha promessas de chegar aos quartos de final ou de repetir o "grande exemplo" da Seleção masculina. "Temos os pés bem assentes na terra", diz a jogadora, por vezes apelidada de ‘Pocahontas’ devido ao cabelo e às feições, embora seja natural de Gouveia.

PRIMEIROS PONTAPÉS
Foi na cidade da Beira Alta que Ana Borges descobriu que gostava de dar pontapés na bola. "Sempre joguei futebol com amigos do meu irmão e também na escola", conta a extremo, que aos 13 anos começou a jogar federada e ainda era menor quando se tornou semiprofissional, atravessando a fronteira para representar o Prainsa Zaragoza. "Quando se vai pela primeira vez para fora do país, longe dos pais, é lógico que vemos tudo muito diferente. À medida que o tempo foi passando, fui-me sentindo mais em casa", recorda, garantindo que teve o apoio da família.

De falta de apoio não se pode queixar a médio algarvia Cláudia Neto, de 29 anos, que foi colega de Ana Borges em Saragoça, mas joga agora na Suécia, ao serviço do Linkoping. A mãe sabia que não valia a pena gastar dinheiro em bonecas quando a filha queria bolas, o pai era futebolista e a levava consigo para os treinos. "Ficava a chutar contra a parede e, se aparecia algum miúdo, jogava com ele", explica quem não demorou a convencer o progenitor: "Ele via que eu tinha algum jeito e tinha uma enorme paixão por jogar, e sempre me incentivou".

A primeira experiência a sério foi com 12 anos, "numa equipa só de meninas num campeonato de rapazes". Cláudia vivia então em Portimão e ficou sem qualquer dúvida de que podia contar com a família. "A equipa era em Lagos e então os meus pais mudaram-se para lá para eu poder seguir o meu sonho", recorda quem aos 18 anos jogava futsal numa equipa sénior e era convocada para a Seleção sub-19 de futebol. Deu nas vistas e recebeu o convite para o Prainsa Zaragoza. "Entraram em contacto comigo, apresentaram uma proposta e três dias depois estava em Espanha", diz.

Também muito nova chegou Andreia Norton a Barcelona, ainda que as lesões a tenham impedido de se afirmar no colosso catalão, regressando na época passada a Portugal, para o Sporting de Braga. Começou aos sete anos, "na rua, com os primos", e depois no Clube Desportivo Furadouro, uma equipa de rapazes. Filha do futebolista Pingo, que depois voltou para o Brasil, a avançada de 20 anos garante que a paixão pelo futebol "está nos genes". Mas tudo ficou mais sério ao integrar equipas femininas do distrito de Aveiro. De volta a Portugal, destaca a felicidade de ter novamente a família perto.

Sair de Portugal para jogar futebol ainda não aconteceu a Diana Silva, uma avançada de 22 anos que se esforçou para convencer os pais de que iria calçar chuteiras. "Desde que me lembro, gostava de bola. Na escola primária ia sempre juntar-me aos meus colegas para jogar nos intervalos", diz a jovem, que chegou a integrar uma equipa de rapazes antes de se transferir, com 13 anos, para uma equipa feminina de seniores. "Foi complicado, mas aprendi muito com as minhas colegas, que eram mais experientes", diz a habitual titular do Sporting, onde tem estatuto de semiprofissional.

MISSÃO PARA PROFISSIONAIS
Entre o treino diário em Alcochete - que na época passada começava às oito da noite, mas passará a ser mais cedo -, os jogos em casa e as deslocações, Diana tem prosseguido os estudos universitários. Aluna de Ciências Farmacêuticas, curso que escolheu "por ser uma área com muita saída", reconhece que "sentiu muita diferença" quando ingressou no Sporting - uma das equipas da Liga masculina que aceitaram a oportunidade de criar equipas femininas - nas condições de treino e no apoio às jogadoras.

Para a colega de equipa Ana Borges foi a oportunidade de voltar a Portugal. "Não sei os contratos de outras jogadoras, mas posso dizer que estou feliz e que posso viver do futebol feminino", refere a extremo, que se destaca pela velocidade com que avança pelas alas com a bola controlada e acredita que "o futebol feminino é mais leal e tem menos manha". Também ela está empenhada em terminar os estudos e tirar um curso para acautelar o futuro: "No dia em que acabar o futebol, preciso de uma profissão, porque o dinheiro não estica. Prova disso é o futebol masculino, em que são profissionais e às vezes têm graves problemas".

Também por isso Cláudia Neto não se imagina a deixar a Suécia tão cedo. Embora ainda não domine uma língua "mesmo muito complicada", a algarvia adaptou-se a relvados cobertos de neve, a temperaturas negativas e a dias em que a noite cai às três da tarde. "Deixei tudo para trás - família, amigos, tudo - para poder seguir o meu sonho", refere a "jogadora com visão de jogo e muita qualidade de passe", feliz por ter sido nomeada melhor meio-campista da Liga sueca e surgir numa lista das 15 melhores do Mundo na sua posição.

"Enquanto tiver o gosto do futebol, enquanto me sentir bem a jogar, não vejo porque deixar", diz Diana Silva, que na Seleção chega a ser usada no meio-campo, na posição 10, ideal para uma jogadora "que gosta de ter bola", mas pretende melhorar a técnica de remate para melhorar as estatísticas de golos.

Chegar a outro patamar está também no horizonte de Andreia Norton. "Tenciono voltar a sair de Portugal", admite, embora pense que o futebol feminino nacional tem evoluído, sinta "carinho dos adeptos" e tenha gostado de ver milhares nas bancadas nos duelos entre Sporting e Sporting de Braga em Alvalade e no Jamor. "As pessoas começam a entender que o futebol também é para mulheres, e isso é bom", diz quem, como muitas colegas, mostra o seu talento no relvado com o cabelo apanhado e as unhas pintadas.

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