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Nunca diga que é um ‘hipster’

Contracultura, movimento estético, tribo urbana. Parece que voltaram a andar por aí
18.11.12
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Nunca diga que é um ‘hipster’
Residência artística recriou universo estético ‘hipster’ Foto António Palma

É preciso pedir emprestadas as palavras à tragédia ‘Hamlet’ de Shakespeare – "ser ou não ser, eis a questão" – para explicar aquilo que se segue. ‘Hipster’, palavra estranha para muitos, voltou à baila nos últimos tempos – também aqui, em Portugal –, apesar de ter tido o seu auge nos anos de 1990 em Brooklyn, Nova Iorque, nos EUA.

Antes de mais deve esclarecer-se que ‘hipster’ que é ‘hipster’ nunca assume que o é e que o conceito se refere a uma tribo urbana que procura "chocar e subverter os ícones da cultura ‘mainstream’ [gosto da maioria], levar a cabo atitudes que não estejam em conformidade com os valores morais do seu tempo" – explica Tiago Loureiro, designer de moda. Podemos dizer também que – desta vez, ‘roubando’ a definição ao ‘Urban Dictionary’ –, os ‘hipsters’ "são uma subcultura de homens e mulheres entre os 20 e os 30 anos que valorizam o pensamento independente, a contracultura, a política progressista, a arte, o indie-rock, a criatividade, a inteligência e uma certa forma espirituosa de ser".

Ou, segundo Rui Gameiro e Sónia Felizardo (criadores da página Sociedade Portuguesa de ‘Hipsters’ no Facebook), são "pessoas com uma cultura exímia, um gosto musical específico dentro do ramo do independente/alternativo/experimental, que apreciam bandas pouco conhecidas. O único problema" – continuam os dois fundadores – é que "quando a sua banda preferida ganha ascensão mundial, eles deixam de ouvi-la, chegando mesmo a repudiá-la e a agourar sobre a mesma".

Jovens que também vão buscar aos armários dos avós roupa que já foi moda e deixou de ser: "Agarram nas camisas de flanela características dos anos 90 e do movimento ‘grunge’, calças bem justinhas e de várias cores, óculos de massa, sapatos vintage e casacos de lã mesmo velhinhos, e saem à rua, sem receios, e sem esquecer as sapatilhas Converse All Star." Algo que também não pode faltar no armário dos ‘hipsters’ "são as famosas t-shirts de bandas que continuam a ser grandes referências dos anos 60, 70, 80 e 90. A este grupo é também associado o uso de equipamentos tecnológicos de marcas como a Apple, que dão uma certa superioridade, embora de forma subtil", acrescentam.

Sónia Felizardo tem 17 anos e é amante de arte, "mas não artista". Rui Gameiro, um estudante de Ciências Forenses e Criminais de 20 anos, é apaixonado pelos Radiohead "e apreciador de bons momentos musicais na companhia do iPod". Juntos, criaram a Sociedade Portuguesa de ‘Hipsters’ com o objectivo inicial de "ridicularizar o conceito de ‘hipster’ e a sua crescente utilização nos tempos que correm", mas decidiram começar a usá-la para espalhar cultura mais alternativa e hoje, eles próprios se consideram parte do cenário que ridicularizavam.

‘HIPSTERS’ EM CENA

Rogério Nuno Costa foi mais longe do que Rui e Sónia. Criou a sua própria residência artística em Montemor-o-Novo sobre o tema juntamente com um grupo de seis actores que deu vida às personagens da peça que estreou no Teatro-Cine de Torres Vedras, em Março deste ano.


"A cena ‘hipster’ só surgiu porque precisávamos de ter uma imagem que promovesse esta ideia de ‘preguiça residente’, ao mesmo tempo estética e política: tal como os ‘hipsters’, queríamos transmitir esta espécie de arrogância cínica. Sabendo ser fácil ‘mimar’ o estilo ‘hipster’ (ou pelo menos os clichés que sobre ele abundam nas redes sociais), tratou-se apenas de colar uma imagem aos corpos dos actores", conta o encenador. "Paralelamente, fazíamos muitas festas dionisíacas ao som da Banda Uó, um trio brasileiro que ‘hipsterizou’ o tecnobrega e o transformou numa caricatura do que é que significa ser suburbanamente ‘fixe’. Nós cá não temos nada que se pareça com tecnobrega, mas ainda assim, decidimos pegar na música pimba (a realidade musical mais próxima) e pedimos ao Peter Shuy que a ‘hipsterizasse’."

A vontade de encenar a peça surgiu do interesse do encenador por aquilo que considera ser um "pseudomovimento. Justamente por ser mais uma condição dos tempos modernos e não uma corrente ou um manifesto underground com limites espácio-temporais. Em Portugal, existem muitas pessoas que se parecem com ‘hipsters’, mas acho que o charme do ‘hipster’ está justamente em nunca se saber se é ou não", partilha Rogério Nuno Costa. Para Rui e Sónia, da Sociedade Portuguesa, "há ‘hipsters’ em todo o Mundo, a maior parte é que não se assume, porque socialmente, pelo menos em Portugal, o conceito é alvo de humilhação. É pena sermos uma sociedade tão fechada", lamentam os jovens.

O problema, dizem, "é que o conceito tem sido levado ao extremo e já se consideram ‘hipsters’ aqueles que se vestem de forma excêntrica todos os dias e sabem as bandas que tocam nos sítios mais incomuns. É importante referir que hoje há vários tipos de ‘hipster’ que não são tão extremistas, onde nós nos podemos incluir".

PRÓXIMO DO ‘INDIE’

"A ser um movimento, então é o movimento mais oco e preguiçoso de que há memória. Anula-se a si próprio a partir do exacto instante em que se afirma e se autodenomina. O típico ‘hipster’" – explica o encenador – "é aquele indivíduo que não se preocupa minimamente em aprofundar as bandeiras que escolhe adoptar (seja o veganismo, sejam as focas em perigo no Canadá, seja o walkie-talkie que agora é o novo discman), desde que se faça um desenho que remeta vagamente para uma série de outros movimentos ‘marginais’ do passado (‘beats’, ‘hippies’, ‘grunges’, ‘punks’, etc.). É preguiçoso porque não precisa de pensar muito, nem de plasmar no papel um programa político-social, nem de partir vidros de montras, nem de organizar ‘Woodstocks’. Basta ter uma ligação à internet", diz Rogério.

Alguns elementos estéticos dos ‘hipsters’ – conta, por seu lado, Tiago Loureiro – foram adoptados pelos ‘indies’, como as calças com a virola subida, os ‘tye-dies’, os alargadores, os piercings e as tatuagens. E as "bandas como Florence & The Machine, Mumford & Suns, Beirut ou Wild Child estão no topo das preferências. Ou seja, o ‘indie’ é, neste momento, o novo ‘mainstream’, o que acabou por trazer o ‘hipsterismo’ à ribalta novamente. A iconoclastia ‘hipster’ foi a base do videoclip de Rihanna para o tema ‘We Found Love’. Não só o estilo, mas as atitudes, como a dança no carrinho das compras", acrescenta o designer, para quem "outro marco ‘hipster’ é o filme ‘Trainspotting’ [do realizador inglês Danny Boyle], cuja lógica é precisamente chocar".

Para Nuno Miranda, director editorial da revista on-line ‘Vice’ (considerada uma espécie de bíblia para estes jovens), os ‘hipsters’ englobam várias tribos. "Há uns mais ligados à moda, outros à música [seja metal, indie, hip-hop]. Penso que hoje somos todos potenciais ‘hipsters’ no sentido positivo: gostamos de estar na moda, de viajar, de estarmos actualizados, de ter acesso a tecnologia, de marcar a diferença. No fundo, ninguém se assume como um ‘hipster’, mesmo quem quer ser um", comenta.


NOTAS

LOCAIS

No Porto, frequentam as galerias da rua Miguel Bombarda e em Lisboa, o Bairro Alto e o Cais do Sodré.

ORIGEM

Termo ‘hipster’ remonta à gíria da década de 40 para descrever os aficionados da era dourada do jazz.

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