“Nunca tive problemas em ser levada a sério”

É uma das caras novas no Parlamento. Aos 26 anos, a deputada comunista diz nunca ter tido dificuldade em ser ouvida.
18.10.09
“Nunca tive problemas em ser levada a sério”
Foto Sérgio Lemos

- Alguma vez se tinha imaginado enquanto deputada?

- Nunca tinha pensado nessa hipótese. Depois concretizou-se. Mas não vai ser a minha profissão, eu sou funcionária do PCP. Agora tenho esta tarefa, como já tive outras. Pode não ser para sempre, e o mais certo é não ser.

- Quando é que começa a surgir o interesse pela política?

- Vivi em Estremoz, a minha terra, até completar o 12º ano e já me identificava com o PCP e com a Juventude Comunista Portuguesa (JCP). Desde logo porque o PCP tem no Alentejo prestígio e reconhecido mérito na luta pela democracia, sobretudo ainda no tempo do fascismo. Depois, quando ingressei no ensino superior e comecei a confrontar-me com as dificuldades de um universitário deslocado, sem direito à acção social escolar, com o valor das propinas a aumentar, naquela altura indexadas ao salário mínimo, senti a necessidade de aderir à JCP. Foi em 2001.

- Mas na sua família havia alguém ligado ao PCP ou com alguma actividade partidária?

- Não. Só o meu avô foi membro do PCP ainda na clandestinidade mas morreu quando eu tinha nove anos, portanto não havia essa ligação directa.

- Mas o seu pai, inclusive, viu com maus olhos a sua entrada no Partido Comunista...

- O meu pai não é membro do partido e ficou preocupado por estar no ensino superior, numa escola pública, e ser da JCP. Era uma preocupação sobre o tipo de sentimento que isso podia suscitar até nos professores. Poderia não ter boas notas por ser comunista e a preocupação era mais essa, no sentido de às vezes isso não ser bem-visto. Mas nunca senti esse preconceito por parte de nenhum professor meu.

- Mas como surgiu o contacto com os ideais comunistas antes da JCP?

- A partir dos meus 17, 18 anos. Ainda estava na escola secundária. Foi através da própria discussão sobre o que foi o 25 de Abril e o processo revolucionário.

- Foi a partir daí, e nas aulas de História, que começou a formar a sua identidade política?

- Sim. Mas não apenas nas aulas de História. Lembro-me de ser muito pequenina e festejar o 25 de Abril com muita alegria.

- Como analisa o facto de agora a CDU ser a 5ª força política na AR?

- Nós não entendemos a questão da política como uma questão de pódio. Nós propusemos três objectivos centrais no decurso da campanha das legislativas, que eram a derrota da maioria absoluta, ter mais mandatos, eleger mais deputados e ter maior percentagem em termos de votação. E nós conquistámos isso.

- Mas, apesar disso, acabaram por ficar atrás do CDS e do Bloco de Esquerda.

- Ficámos muito contentes com o nosso resultado tendo em conta os objectivos a que nos tínhamos proposto. Se pergunta se gostávamos de ter mais, é óbvio que gostávamos.

- O que sente quando ouve dizer que "os políticos são todos o mesmo"?

- Acho que esta é uma questão que nos deve animar e anima-me pessoalmente. Ontem [segunda-feira] vinha no eléctrico e uma pessoa ao lado de quem ia sentada disse isso. Interpelei-a e disse que não era bem assim, que os deputados eleitos do PCP não eram assim. "Ah, pois, vocês são diferentes! Nós sabemos, o PCP é diferente, são pessoas sérias e honestas. Tomara todos serem como vós", disse-me.

- As pessoas votam nos outros partidos. O PCP não tem ganho eleições...

- Cada voto na CDU é um voto que é conquistado com muita conversa, com muito esclarecimento, com debate sério, e é um voto que afirma a necessidade de rotura. As pessoas acham que 33 anos de políticas de direita já provaram que é o caminho dos baixos salários, o caminho da elitização do acesso à cultura, a precariedade...

- Mas se as pessoas estão fartas das políticas de direita, porque é que o segundo e o terceiro maior partidos são de direita e o partido do Governo toma medidas, como diz, de direita?

- Vai ter de perguntar a quem votou neles porque eu, de facto, não votei.

- Concorda com o modelo que está a ser seguido na China pelo PCC?

- Pessoalmente, não tenho que concordar nem discordar, não sou chinesa. Concordo com as linhas de desenvolvimento económico e social que o PCP traça para o nosso país. Nós não nos imiscuímos na vida interna dos outros partidos.

- Mas se falarmos de atropelos aos direitos humanos, e a China tem sido condenada, coloca-se essa não ingerência na vida dos outros partidos?

- Não sei que questão concreta dos direitos humanos...

- O facto de haver presos políticos.

- Não conheço essa realidade de uma forma que me permita afirmar alguma coisa.

- Mas isto é algo que costuma ser notícia nos jornais.

- De facto, não conheço a fundo essa situação de modo a dar uma opinião séria e fundamentada.

- No curso de Ciência Política e Relações Internacionais, não discutiu estas questões?

- Não, não abordámos isto.

- Como olha para os erros do passado cometidos por alguns partidos comunistas do Leste europeu?

- O PCP, depois do fim da URSS, fez um congresso extraordinário para analisar essa questão. Apesar dos erros cometidos, não se pode abafar os avanços económicos, sociais, culturais, políticos, que existiram na URSS.

- Houve experiências traumáticas...

- A avaliação que fazemos é que os erros que foram cometidos não podem apagar a grandeza do que foi feito de bom.

- Como encara os campos de trabalhos forçados, denominados gulags, nos quais morreram milhares de pessoas?

- Não sou capaz de lhe responder porque, em concreto, nunca estudei nem li nada sobre isso.

- Mas foi bem documentado...

- Por isso mesmo, admito que possa ter acontecido essa experiência.

- Mas não sentiu curiosidade em descobrir mais?

- Sim, mas sinto necessidade de saber mais sobre tanta outra coisa...

- A ex-deputada do PS Marta Rebelo disse que foi difícil que começassem a levá-la a sério. A política é mais difícil para as mulheres bonitas?

- Se me está a chamar bonita, é um elogio e agradeço. Nunca tive problemas em ser levada a sério. Estive na Assembleia Municipal de Estremoz e nunca tive dificuldade em apresentar a minha opinião.

"AGORA É MAIS DIFÍCIL JOGAR FUTEBOL"

- Foi atleta federada de futebol pelo Grupo Desportivo Operário. Que gosto é esse?

- Desde os 13 anos que jogava futsal no desporto escolar. Quando ingressei no ensino superior, continuei a praticar na equipa da faculdade, e depois procurei também um clube.

- Hoje ainda joga?

- Nas férias, jogo, ou quando tenho tempo, ao fim-de-semana, com os amigos. Numa certa altura conseguia manter mais regular o domingo como um dia fixo para o futebol. Mas agora tenho um filho de dez meses e é mais difícil compatibilizar tudo.

PERFIL

Rita Rato Araújo Fonseca tem 26 anos e é licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa. Foi 3.ª na lista de candidatos à AR pelo círculo de Lisboa. É natural de Estremoz, onde vive a família e aonde volta "sempre que tem tempo". Vive em união de facto e tem um filho de dez meses. Tem simpatia pelo Benfica.

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2 Comentários
  • De Janita22.10.13
    Tenho vergonha de esta mulher ter sido eleita.
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  • De Silva20.10.13
    relações internacionais???? à excepção com os Países onde impera o Comunismo. É Comunista mas nunca se deu ao trabalho de ler e inteirar-se do que se passou nos Países onde imperou ou impera o Comunismo? hummmmm
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