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O dia em que mataram o espírito olímpico

Em 1972, os jogos da paz transformaram-se em guerra, com o ataque terrorista à aldeia olímpica. O terror durou 23 horas.
15.07.12
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O dia em que mataram o espírito olímpico
Um dos terroristas durante o assalto à aldeia olímpica Foto D.R.
A tocha olímpica dos Jogos Olímpicosde Londres de 2012 não acenderá a memória do massacre de Munique. Quem diz esta frase são os familiares dos 11 atletas israelitas assassinados. O que está em jogo, afinal, é um minuto de silêncio. Não teve eco a petição criada por Ankie Spitzer, a viúva de Andre Spitzer, tão-pouco a carta que o vice-ministro israelita dos Negócios Estrangeiros, Danny Ayalon, endereçou ao presidente do Comité Olímpico Internacional (COI). O senhor Jacques Rogge considera que sessenta segundos de boca calada seria um “gesto político”. O jornal inglês ‘The Guardian’ respondeu com a ironia da escola de Sir Churchill: “Não fazer um minuto de silêncio é, em si, um gesto político.”
Acima da política vive a tragédia ocorrida naquela que fora a cidade predilecta de Adolf. Munique. Ano de 1972. Terça-feira, dia 5 de Setembro. Passavam vinte minutos das quatro da madrugada. Oito guerrilheiros da facção radical da Organização da Libertação da Palestina Setembro Negro, de roupa desportiva e mochilas repletas de granadas e espingardas Kalashnikov, saltaram uma irrisória vedação e invadiram a Aldeia Olímpica. Membros da delegação norte-americana, mais bêbedos do que atentos, confundiram-nos com boémios. Os polícias desarmados julgaram que se tratavam de gladiadores animados de cerveja. Engano.

O ataque
A escolha de a Alemanha limpar a imagem deixada na Segunda Guerra Mundial organizando o maior evento internacional sem transparecer segurança revelar-se-ia catastrófica. Com o caminho livre, os terroristas encaminharam-se para o prédio no número 31 da Conolly Strasse, onde estavam hospedadas as delegações do Uruguai, de Hong Kong e do alvo a abater: Israel. Em menos de dois minutos já forçavam a porta do apartamento nº 1. Joseph Gutfreund gritou: “Chevre, tistatru!” O árbitro de luta livre acordara segundos antes com o barulho dos usurpadores e vira, por uma fresta, um bando de encapuzados. Tentou obstruir a entrada enquanto vociferava: “Amigs, protejam-se!” O seu corpanzil de 130 kg permitiu a fuga do colega Tuvia Sokolovsky.
O líder do gang, Lutiff Afif, conhecido por ‘Issa’, filho de mãe judia e de pai muçulmano, dirigiu-se aos outros quartos. Deparou-se com Moshe Weinberg. O técnico de luta sobreviveu ao estouro da pólvora no rosto e morreu com uma bala no peito. Os guerrilheiros seguiram para o apartamento nº 3. Tiveram sorte. Seis atletas só abriram as pestanas com carabinas na nuca. O lutador Gad Tsabari aproveitou um milagre de distracção e fugiu em ziguezague, como aprendera no Exército. Joseph Romano, de muletas devido a uma contusão, sucumbiu com disparos no pulmão e no tímpano. Nas garras da ala radical do partido de Arafat ficavam nove atletas, incluindo o mestre de esgrima Andre Spitzer, que acabara de chegar, e dois cadáveres.

Cenário de Guerra
Os Jogos da Paz transformar-se-iam numa guerra que demoraria vinte e três horas. A primeira exigência chegou no idioma da casa. ‘Issa’ estudara na Alemanha Ocidental durante oito anos: “Entrem em contacto com o governo de Israel.” Pouco depois, da janela caíram três folhas de papel dactilografadas em inglês com a reivindicação: libertação de 234 prisioneiros detidos nas cadeias em Israel e mais dois que estavam presos na Alemanha, e um salvo-conduto para levarem os reféns em três aviões para um país árabe. A primeira-ministra Golda Meir não precisou de um milésimo para decidir: não há conversa com terroristas e ofereceu uma unidade de elite para o resgate. O chanceler da Alemanha Ocidental, Willy Brandt, rejeitou de imediato, ciente de que o impasse diplomático aumentaria a tensão. O ministro do Interior, Hans Dietrich Genscher, o secretário do Interior da Baviera, Bruno Merck, e o chefe da Polícia de Munique, Manfred Schreiber, conferenciavam com ‘Issa’, que se apresentava de chapéu branco e  máscara preta.
A cada proposta – somas ilimitadas de dinheiro, troca dos reféns por qualquer outra personalidade da República Federal –  ‘Issa’ ia dizendo não e não. Em cima do joelho os alemães-ocidentais organizaram, nessa tarde, uma básica tentativa de salvamento. Polícias de fato-de-treino subiram ao telhado do edifício com o intuito de apanharem os sequestradores. Esqueceram-se de que todos os quartos tinham aparelhos de videovigilância. Foram os próprios terroristas que os lembraram de que estavam a assistir às imagens e avisaram que qualquer gesto resultaria na execução dos reféns. Um novo plano acabaria por ser definido, após a imposição de irem ao Egipto ter sido aceite.

Erros sucessivos

Inexplicavelmente, a estratégia culminaria numa sucessão de erros fatídicos. No Boeing 727 posicionado na pista militar de Fürstenfeldbruck havia dezasseis agentes prontos para o combate. Mas, ao invés disto, os polícias, por considerem que a acção era arriscada, desistiram sem comunicar ao comando central. Tanto fazia; o comando, por sua vez, esquecera-se de solicitar apoio terrestre blindado, e quando o fez os tanques chegaram tarde demais. As autoridades prepararam uma acção com apenas cinco atiradores mal  treinados, sem rádio e comunicações centralizadas. Apenas aquando do transporte da Aldeia Olímpica, feito de autocarro para dois helicópteros, perceberam que, afinal, havia mais terroristas do que julgavam: oito, e não cinco.



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3 Comentários
  • De Catarna17.07.12
    gostei bastante do artigo. Inacreditavel que nao seja feito um minuto de silencio.
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  • De M. S16.07.12
    Estou chocada com a atitude do presidente do comité olimpico. É inacreditável que não seja feito um minuto de silencio. Bom artigo e boa memória a vossa. Bem hajam!
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  • De J. 15.07.12
    Lembro-me bem deste massacre, foi terrível. Julgo que é a primeira vez que um jornal escreve sobre este horror com tantos detalhes. É bom que as pessoas não esqueçam. Obrigada ao correio da manhã.
    Responder
     
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