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O matador açoriano que vive em Jacarta

Mário Miguel Silva trocou as corridas de touros pelo ensino da arte de bem montar aos asiáticos.
Por Leonardo Ralha|19.02.17
O matador açoriano que vive em Jacarta
A última corrida de Mário Miguel Silva aconteceu em 2009, mas o açoriano não afasta a possibilidade de um dia voltar às arenas Foto Sérgio Lemos

A oito fusos horários da ilha Terceira, onde nasceu, e a 30 horas de viagens de avião de Portugal,Mário Miguel Silva garante que está adaptado a Jacarta, onde vive com a mulher e a filha há sete anos. "Estando inserido no mundo dos cavalos 24 horas por dia, sete dias por semana, trabalhar na Indonésia, na Tailândia, nos EUA ou no Polo Norte é estarmos bem", diz o cavaleiro português, de 38 anos.

Uma década depois de se tornar o primeiro matador de touros açoriano, tirando alternativa na praça de Valladolid, Espanha, a 26 de agosto de 2006, Mário Miguel trocou a arena pela pista, trabalhando para Prabowo Subianto, que foi candidato presidencial em 2014 e é um dos homens mais poderosos da Indonésia. Além de tratar dos seus cavalos, o português está a formar alunos para a modalidade olímpica da dressage, dominada por europeus.

Ensinar outros a levar o cavalo a fazer movimentos graciosos é natural para quem começou a tourear aos 11 anos, arrancando a carreira que o fez passar de Angra do Heroísmo para o Campo Pequeno e daí para Espanha, França, Califórnia e América do Sul. E em que, além de lidar os touros, aprendeu muito de equitação. "É um prolongamento do trabalho do mestre Luís Valença, que é a divulgação da arte equestre e da cultura portuguesa", explica, referindo-se ao sogro, um dos grandes nomes da equitação.

As ligações familiares ajudaram-no a iniciar a nova carreira. Tendo feito a última corrida nos Açores, em 2009, a transição para a dressage foi o passo lógico para quem se dedica a negociar cavalos. "Já devemos ter levado cerca de 30 para a Tailândia . Agora devemos levar outros 30 para a Indonésia. Alguns estão virados para o cavalo norte-europeu, mas maioritariamente levamos o nosso lusitano." São animais que podem custar entre 10 e 100 mil euros, consoante a pureza da raça e os feitos dos antepassados.

Construir uma relação entre cavalo e cavaleiro em que os dois até parecem ser um é algo que Mário Miguel classifica de "difícil facilidade". "Vem de muitos anos de treino em conjunto, e com a arte equestre do cavaleiro que evolui ao longo dos anos mais a linguagem se desenvolve. A certa altura já parece telepatia. Tudo sai redondo e bonito", diz o cavaleiro, que tal como a mulher, Luísa Valença, dá o exemplo a alunos que já representam a Indonésia em competições internacionais.

QUESTÃO DE CARÁTER
Caráter é aquilo que exige aos animais que leva para a Ásia, numa prospeção que o obriga - "e ainda bem", realça - a vir a Portugal várias vezes por ano. "Podemos estar à procura de um cavalo superbonito, muito bem andado e ensinado, mas se tiver mau caráter vai criar problemas muito depressa", adverte, na medida em que "um cavalo com caráter difícil" pode prejudicar a forma como os lusitanos são vistos entre pessoas que têm "menos anos de cultura equestre".

Apesar de a dressage ser dominada por cavalos do Norte da Europa preparados para o picadeiro de 20 por 60 metros, aquilo que procura são "cavalos muito guerreiros, com um coração muito grande, que suportam muitas pressões sem fazerem asneiras". E Mário Miguel Silva crê que os lusitanos são versáteis ao ponto de se adaptarem a pistas e regras feitas com outros em mente.

É a ele que cabe a última triagem dos animais comprados pelos clientes asiáticos. "É o retoque final depois de passarem por vários filtros. Venho cá, monto, experimento e vejo o caráter de cada um para apurar se se coaduna com o aluno a que é destinado", afirma, embora escolher um cavalo com potencial seja apenas um primeiro passo para chegar ao mais alto nível.

"Podemos sempre realizar-nos no cavalo em muitas vertentes", afirma, avançando exemplos na sua família. Ninguém foi tourear, mas a sobrinha mais velha vai no terceiro campeonato europeu de dressage, competindo ao nível de grande prémio, e o sobrinho mais novo prepara o segundo europeu. "Vivem em casa do avô toda a arte equestre", diz o matador .

PATRÃO POLÉMICO
Apesar da experiência e dos resultados, Mário Miguel Silva ri-se com a ideia de que o patrão o veja como um ‘Mourinho da dressage’. "Sou muito jovem. Na arte equestre há um processo de evolução e de aprendizagem. Ainda hoje o meu sogro, com 70 anos, diz que aprende todos os dias. Ser um Mourinho da arte equestre... Não é por aí", responde, reconhecendo que o convite para trabalhar em Jacarta se deve ao conhecimento da sua trajetória de cavaleiro tauromáquico, matador de touros e cavaleiro equitador. "Acho que me tem ainda em boa conta...", resume, sorridente.

Prabowo Subianto, além de genro de Suharto, ditador já falecido que governou a Indonésia durante 30 anos, é tão poderoso quanto polémico no país. E está ligado à ocupação de Timor-Leste enquanto um dos mais jovens comandantes das forças especiais invasoras. Homens sob o seu comando embrenharam–se na ilha em 1978 para emboscar e matar o ex-primeiro-ministro timorense Nicolau dos Reis Lobato, cujo cadáver foi levado para Díli.

Apesar disso, Mário Miguel Silva diz que conhece alguns timorenses que preferiram ficar na Indonésia após a independência da ex-colónia portuguesa e garante que a sua nacionalidade nunca foi um problema em Jacarta. Mais falado, mas em Portugal, foi o seu nome e o da mulher no âmbito da investigação aos ‘Panama Papers’, visto que ambos apareceram numa lista de titulares da sociedade offshore, o que o cavaleiro justifica com o facto de terem deixado de trabalhar e de pagar impostos em Portugal.

SAUDADES DOS TOUROS
Sem nunca ter anunciado o fim de uma carreira ligada à Monumental da Ilha Terceira e à Praça do Campo Pequeno, onde fez a alternativa de cavaleiro tauromáquico, Mário Miguel admite ter saudades da adrenalina que sentia e que até o levou a tornar-se matador. "Quem nasce toureiro, morre toureiro. Há sempre a chama que mantemos viva. Mas não passa de uma ilusão", afirma, deixando a porta entreaberta para participar num festival relacionado com uma das "causas nobres que a festa dos touros acompanha, apadrinha e suporta".

Na Indonésia também há quem lhe faça perguntas acerca do passado, ainda que a tauromaquia "seja difícil de ser percebida por alguém que nunca lhe foi exposto, ou por quem a exposição possa ter sido menos positiva ou só negativa". E garante que estaria pronto a ensinar um dos seus alunos de dressage a tourear.

Depois de ter montado mais cavalos do que consegue precisar, ainda que aponte para "umas boas centenas", Mário Miguel já disse à filha, que começou a montar há pouco tempo, para fazer registos. "Como é muito organizada e boa aluna, pedi que fizesse um diário. Daqui a meia dúzia de anos já não consegue contar os cavalos", diz quem não consegue indicar o animal que mais o marcou. Até porque "o meu próximo cavalo é que vai ser o melhor".

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