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O nosso mundo

‘Hereges e Heróis. Como os artistas do renascimento e os clérigos da reforma criaram o nosso mundo’, de thomas cahill, é um livro a não perder
Por Francisco José Viegas|16.10.16
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O nosso mundo

Um espetro paira sobre a Europa: o do conformismo. À esquerda e à direita do mundo da política, em salões da literatura e em auditórios da academia, em parlamentos e em fóruns sobre o nosso futuro, o conformismo envenena a vida e torna impossível perceber o que realmente se pensa. Manifesta-se pelo "politicamente correto" e pela forma como as grandes corporações protegem os seus privilégios, o seu conhecimento e as atuais oligarquias. O próprio instinto de mudança que anima as hostes mais "revolucionárias" é de um conformismo atroz: uma arte contemporânea que se compraz na vulgaridade e na fraude; uma literatura que não só repete ‘clichés’ mas que se ocupa com um sentimentalismo ordinário; uma educação voltada para esquemas simples e destinada a perpetuar o pensamento único (de esquerda e de direita) e instalado por académicos que ressuscitam as pobres euforias dos anos sessenta; uma vaga de políticos que respeitam as oligarquias e as origens de classe; um sistema "artístico" cheio de "comissários" e "curadores" ignorantes que não sabem distinguir entre arte – com a sua dimensão criativa, metafísica, sagrada, para lá de todas as vanguardas – e "arte decorativa", o supremo bem de todas as burguesias (exposto tanto em Serralves como nas bienais cheias de fraudes vulgares).

O livro

Diante disto, quem pode e o que pode mudar o nosso mundo? Neste livro, Thomas Cahill leva- -nos a um dos períodos decisivos na história – o Renascimento e o estabelecimento dos alicerces da Idade Moderna, o tempo em que artistas e intelectuais mudaram o Mundo e criaram as bases de um tempo humano e modelado à nossa imagem, rindo alto do "politicamente correto" da época e das suas hierarquias (a forma como acompanha o processo de Martinho Lutero é uma preciosidade), mas também mostrando como a arte soube ser – de Arcimboldo a Rembrandt, de Caravaggio a Rafael, de Donatello a Miguel Angelo, de Brueghel e Cranach a Boticelli – um território de construção da nova humanidade e de delimitação das suas fronteiras. Fabuloso é o capítulo que Cahill dedica à "construção da beleza humana" e que, num mundo habitado por Donald Trump ou pelos patetas da "revolta profissional", merece ser lido com atenção, especialmente a parte dedicada a Miguel Angelo, o artista que "desprezava a pintura" e pintou a Capela Sistina. Esse tempo não pode ser descrito sem citar dois dos nomes que mais contribuíram para modelar o mundo moderno: Cervantes, com ‘Dom Quixote’, e Shakespeare com a sua imensa dramaturgia. Ele são, como deixa intuir Thomas Cahill, os reinventores do ‘amor humano’. São obras em que assenta o nosso mundo: fascínio e descoberta, fantasia e idealismo, conflito e amor. Cahill deixa a mensagem: no mundo atual, onde é descomunal a procissão de oportunistas e de fanáticos, devemos considerar- -nos felizes: somos herdeiros de um mundo construído em nome da beleza e da tolerância. Este livro abre as portas para os seus terraços; e o contraste com a vulgaridade de hoje é fatal e gritante.lD

editora Temas e Debates

Livro

‘O Vinho na Ponta da Língua - Tudo o que precisa saber sobre o vinho’

As mulheres têm – felizmente para todos – mudado o mundo. Maria João de Almeida é a autora deste delicioso, útil, invejável e quase imprescindível livrinho sobre como nos aproximarmos do mundo dos vinhos. Universo antes dedicado aos homens, que o guardavam a sete chaves, é bem-vinda a chegada das mulheres às nossas vinhas e mesas de prova. Que seja para sempre.

autora Maria João Almeida

ilustrações cristina sampaio

editora Saída de Emergência

Disco

‘You Want It Darker’

O novo disco de Leonard Cohen, sai no próximo fim-de-semana, a 21. Cohen diz que se trata do último disco – mas a verdade é que, mesmo sem esta recolha, Cohen estará definitivamente gravado a fogo na nossa vida. Poesia até ao limite, canções que nos transportam pela noite e em dias de chuva ("Famous blue raincoat") – e a sensação de que Deus escolhe sempre as suas melhores vozes.

Leonard Cohen, ‘You Want It Darker’

autor Leonard cohen

editora Sony Columbia Records

Livro

‘Para aquela que está sentada no escuro à minha espera’

António Lobo Antunes é muito mais do que um escritor – os seus romances são também o testemunho de um cineasta melancólico, obsessivo, repetindo diálo-

gos e passagens diante da morte. O seu novo romance é uma obra-prima cheia de força e de brilho; uma luz devoradora sai das suas entranhas e leva-nos a conhecer o modo como se envelhece sem medo.

Autor António Lobo Antunes

edição Dom Quixote

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