O vaqueiro que chegou a deputado

A ilha das Flores votou em João Paulo Corvelo nas eleições regionais. É o único parlamentar do PCP nos Açores.
Por Natacha Nunes Costa|30.10.16
O vaqueiro que chegou a deputado
João Paulo Corvelo com o tio, Paulo Valadão, que esteve 16 anos no parlamento regional Foto Carlos Mendes

João Paulo Corvelo levantou-se às 7h30 da manhã do dia 16 de dezembro de 2001 para ordenhar e mudar de pasto as suas vacas, tal como era habitual. Tinha 18 anos e o espírito de rebeldia comum aos jovens desta idade. Mas tinha também os objetivos bem traçados. Queria deixar de ser mais um empresário de agropecuária e passar a representar os Cedros, uma das freguesias mais pequenas da ilha das Flores, nos Açores. Conseguiu.

Pelas 19h00, soube da vitória. Era oficial. João Paulo Corvelo acabava de ser eleito. E batia um recorde: tornou-se o mais jovem presidente de junta de freguesia da Europa, cargo que acumulava com o de secretário da Assembleia Municipal de Santa Cruz das Flores. Quinze anos mais tarde, o agora veterinário, de 35 anos, embarca numa aventura maior. Nas eleições de 16 de outubro, em que o PS alcançou a sua quinta maioria absoluta no arquipélago, João Paulo conseguiu ser eleito deputado pela maioria dos florentinos, com 32% dos votos, um resultado histórico para o PCP, que, desde 2004, não elegia nenhum deputado nas Flores e tem agora em João Paulo o seu único representante no parlamento regional.

A vitória promete alterar radicalmente as rotinas de um homem dedicado às vacas. "Acordo pelas 7h30 e vou tratar dos animais. E ando o dia todo a tratar das terras e das vacas até voltar para casa, por volta das 9 da noite."

João atribuiu o resultado das eleições à relação que construiu, ao longo dos anos, com a população da ilha onde "nasceu e cresceu" e à "falta de deputados que defendessem as Flores com seriedade na Assembleia Regional, tal como aconteceu entre 1988 e 2004". João refere-se a Paulo Valadão, histórico do PCP e seu tio materno, em quem a ilha das Flores confiou para a representar durante 16 anos no parlamento regional. Ambos são veterinários e trabalham muitas vezes juntos.

O deputado de ‘primeira viagem’ confessa que não estava à espera de ser o mais votado. "As pessoas acarinharam-me nas suas casas, mas PS e PSD tinham este lugar há muitos anos. O que mais me surpreendeu foi a diferença de votos." João roubou um dos dois deputados que o PS tinha na ilha. O PSD ficou com o terceiro. Um dos objetivos do florentino é resolver o problema dos médicos. Nunca houve especialistas na ilha, mas a situação agravou-se com a rotatividade. "Antes as pessoas eram seguidas mais de 20 anos pelo mesmo médico, agora dependem do que lhes seja atribuído."

COMUNISTA DESDE OS 15
Aos 15 anos, por influência dos avós e do tio materno, João decidiu tornar-se militante do PCP. Foi sócio da Associação de Estudantes da Escola Básica e Secundária das Flores, mas, aos 18 anos, deixou de estudar e decidiu criar o seu próprio emprego. Investiu na criação de gado, uma das suas grandes paixões. Abriu os olhos para muitos dos problemas existentes na ilha, experiência que alargou na Junta de Freguesia dos Cedros.

Mais tarde, arranjou emprego como segurança aeroportuário, em que trabalhou durante cinco anos e do qual, segundo diz, foi despedido por "ser sindicalista".

Depois de 12 anos sem estudar, João Paulo, então com 28 anos, decidiu ingressar na faculdade e tirar o curso de Medicina Veterinária, na Universidade Lusófona, em Lisboa. Concluída a licenciatura, regressou às Flores, para fazer o estágio de conclusão de curso e preparar a tese de mestrado que irá ainda apresentar para poder exercer.

Na viagem de volta para a "sua ilha", não levou apenas o diploma. Apaixonou-se em Lisboa por uma engenheira florestal, que tem sido a sua grande companheira na vida pessoal, na política e até na exploração agropecuária, que conta já com cerca de 40 vacas. Desta história de amor, nasceu uma filha. "É dela que vou sentir mais saudades quando tiver de me deslocar para as sessões do parlamento regional."

A missão começa na ilha do Faial, na tomada de posse, no dia 7 de novembro.

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