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O fenómeno dos livros-fraude

Vendidos como relatos de vida, têm, afinal, pouco de real. Ou nada.
Por Isabel Lacerda|25.01.15
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O fenómeno dos livros-fraude
Alex Malarkey dizia que tinha ido ao céu, mas afinal mentiu Foto D.R.

O Honda Civic em que Kevin Malarkey e o filho Alex regressavam da missa ficou completamente desfeito. No brutal acidente, o pai foi projetado porta fora, a criança permaneceu amarrada pelo cinto à sua cadeira no meio do que restava do carro, inconsciente, cabeça estranhamente pendente sobre o ombro esquerdo. Seguiram-se dois meses de coma. "Durante este período, Alex passou algum tempo no Céu", afirma o pai no livro que ambos escreveram seis anos depois, em 2010.

Em ‘O menino que voltou do Céu’, o rapaz, que ficou para sempre paralisado, diz ter falado com Deus, Jesus, muitos anjos, alguns demónios e o Diabo também. A criança conta que atravessou os portões do Paraíso pouco depois do acidente, através de um longo, branco e radioso túnel, e foi recebida por anjos corpulentos (tipo lutadores de wrestling, como descreve). No Céu, garante Alex, há cidades que fazem Nova Iorque parecer pequena.

Mas nada do que este menino, agora  com 16 anos, contou pode ser levado a sério. E se para alguns isto sempre pareceu evidente, para muitos outros não. A imprensa reporta que só nos Estados Unidos houve mais de milhão de exemplares vendidos.

Depois de a editora americana Tyndale ter retirado a obra do mercado, a portuguesa Nascente revelou à ‘Domingo’ que também vai recolher o que sobra dos 2500 livros distribuídos em novembro. E porquê? Porque agora o próprio Alex Malarkey confessou: "Eu não morri. Eu não fui para o Céu." Numa carta aberta publicada num site cristão admitiu: "Disse que tinha ido para o Céu porque pensei que isso me traria atenção."

Embora haja quem questione a influência da mãe, Beth Malarkey (que entretanto se divorciou do pai de Alex) no desmentido do filho, a credibilidade do livro está irremediavelmente comprometida. Não houve morte, não houve Céu, Deus ou o Diabo: livro fora das prateleiras.

Em 2004, a Asa preparava-se para lançar em Portugal ‘Honra Perdida’, um estrondoso sucesso nos países onde já tinha sido publicado, mas cancelou a distribuição depois das notícias que davam a história, supostamente verídica, como completa ficção.

Norma Khouri contava como, na Jordânia, a melhor amiga fora mortalmente esfaqueada pelo próprio pai por causa de um namoro ilícito. Depois de denunciar o homicídio, Norma fugiu do país para escapar à morte. A extrema violência do caso chamou a atenção de uma associação jordana de defesa dos direitos das mulheres, que investigou e acabou por detetar 73 erros.

Na verdade, Norma Bagain Toliopoulo tinha saído do país com três anos e vivera desde então nos Estados Unidos. Tudo não passara de um embuste: em 2004 a autora confessou ter inventado tudo.

A MISTERIOSA SOUAD

No mesmo ano chegou ‘Queimada viva’, a arrepiante história de uma criança palestiniana que, numa remota aldeia da Cisjordânia, era diariamente espancada e até vítima de tentativas de homicídio pelos próprios pais. Aos 17 anos engravidou de um vizinho, desonrando ambas as famílias. Quando estava grávida de seis meses, o cunhado regou-a com petróleo e pegou-lhe fogo.

Com mais de 70% do corpo queimado, Souad foi parar a um hospital onde, como se tratava de um crime de honra, a equipa médica também tentou matá-la, por omissão de auxílio. Mas, salva por uma funcionária de uma ONG, Souad sobreviveu, exilou-se na Europa com uma identidade falsa e, mais de 20 anos depois, registou em livro o seu testemunho.

As dúvidas começaram a levantar-se quando nas entrevistas se percebeu que a autora já não falava árabe (esquecera-se, explicava) e a comunidade médica questionou a sobrevivência de uma pessoa com queimaduras tão graves e extensas sem assistência clínica intensiva. Por outro lado, Souad conta que a irmã foi estrangulada com um fio de telefone, quando nos anos 70 não havia telefones na Cisjordânia, muito menos numa aldeia tão pobre e isolada. Apesar de tudo isto, o livro nunca foi oficialmente desmentido.

‘Fragmentos, memórias de uma infância (1939-1948)’, publicado em 1995, revelava como, em criança, Binjamin Wilkomirski sobrevivera a dois campos de concentração nazis. A obra foi aclamada por historiadores, várias vezes premiada e traduzida para 12 línguas. Mas era uma fraude. Uma investigação jornalística provou que o autor era afinal um clarinetista suíço que nunca estivera perto de um campo de concentração e nem sequer era judeu. O livro, publicado em Portugal pela Companhia das Letras, foi retirado do mercado.

A MENINA DAS MAÇÃS

No capítulo das falsas memórias, há um particularmente espetacular. Primeiro, a história saiu no ‘New York Post’, depois foi contada no programa campeão de audiências da Oprah. Herman Rosenblat explicava como, aos 11 anos, resistira num campo de concentração na Polónia graças a uma menina que todos os dias, de fora da cerca, lhe atirava maçãs. 12 anos depois do fim da guerra, já a viver em Nova Iorque, um amigo arranjou-lhe um ‘blind date’ (encontro às cegas). A rapariga de cabelos encaracolados e olhos verdes com quem saiu, perceberam no fim da noite, era… a menina das maçãs. Pediu-a em casamento logo ali.

Depois de um livro para crianças baseado nesta incrível história, em 2009 as memórias de Rosenblat estavam prestes a ser publicadas e já corria o rumor que Richard Dreyfuss participaria na adaptação ao cinema. Mas houve um pequeno problema.

Os historiadores começaram a apontar para a improbabilidade de uma criança conseguir ir todos os dias até aos limites do campo de concentração sem ser abatida  pelos alemães. E não havia habitações nas imediações. Era quase tudo mentira: Rosenblat tinha sobrevivido ao Holocausto, sim, mas nunca existira a menina das maçãs.

Num registo completamente diferente, ‘Uma vida em mil pedaços’, do norte-americano James Frey, descreve a vida do autor, alcoólico desde os treze anos e consumidor de  drogas duras. Inclui o violento relato do internamento numa clínica de reabilitação, com alucinações, dores lancinantes e até o implante de dentes sem anestesia. Publicado em 2003, vendeu mais de quatro milhões de exemplares nos EUA. Em Portugal é comercializado pela Presença. Apesar de se ter descoberto que Frey ficcionou quase tudo, incluindo os 87 dias que dizia ter passado na cadeia, a obra nunca foi retirada. Deixou, no entanto, de ser apresentada como verídica e passou a ser descrita como "inspirada" na experiência do autor, que continua a escrever livros.

A história do mais letal atirador furtivo norte-americano chegou primeiro às livrarias e agora aos cinemas – ‘Sniper Americano’ está nomeado para Óscar de Melhor Filme. Mas a autobiografia de Chris Kyle (também à venda em Portugal), acusam muitos, está repleta de imprecisões, exageros e até mentiras – uma delas já provada em tribunal. O protagonista e comprador dos direitos de adaptação ao cinema, Bradley Cooper, não se importou com isso. O realizador também não: nem sequer Clint Eastwood quis deixar que a realidade atrapalhasse uma boa história.

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  • De Pontes26.01.15
    Disse um poeta: " O ser humano aprendeu a falar , a escrever e a ler , só para poder mentir melhor. Os gestos não eram suficientes..."
1 Comentário
  • De Pontes26.01.15
    Disse um poeta: " O ser humano aprendeu a falar , a escrever e a ler , só para poder mentir melhor. Os gestos não eram suficientes..."
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