Os arquitectos hoje em dia não são muito diferentes de uma estrela de rock

Gonçalo Byrne é um dos nomes maiores da arquitectura contemporânea portuguesa, com mais de 30 anos de actividade, reconhecida em Portugal e no estrangeiro através de distinções como a Medalha de Ouro da Academia de Arquitectura de França ou o prémio Valmor. A sua obra ainda é relativamente desconhecida da maioria dos portugueses, embora tenha realizado dezenas de obras públicas espalhadas pelo País, como o Teatro Municipal de Faro ou a Reitoria da Universidade de Aveiro.
04.02.07
  • partilhe
  • 0
  • +
A exposição ‘Geografias Vivas’, patente no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, até ao próximo dia 25, dá a conhecer ao grande público a versatilidade e capacidade criativa de Byrne: as obras apresentadas, como a Recuperação do Mosteiro de Alcobaça, a Casa da Província do Brabante Flamengo, na Bélgica, a Torre da APL, em Algés, ou o Parque Forlanini, em Itália, são alguns exemplos de que Byrne consegue tocar com mestria as áreas mais significativas da arquitectura, como a recuperação do património arquitectónico, o arranjo urbano, o edifício público ou o arranjo de espaços exteriores.
A Exposição foi o pretexto para uma conversa em que o arquitecto se mostrou sereno e sábio, à imagem da sua própria obra arquitectónica.
Deve ser muito gratificante ter uma exposição representativa das últimas obras. Significa que ainda tem muito para dar.
A exposição não pretendeu ser antológica dos trabalhos do atelier. Escolhemos seis projectos, todos relativamente recentes. Há um ou dois com uns bons anos, nomeadamente o do Funchal, que tem mais de dez. Foram projectos que escolhi para levantar alguns temas que têm a ver com a relação da Arquitectura com a Cidade, a Cidade Contemporânea. Um pouco os temas que procuramos enunciar na entrada da exposição. São projectos com alguma dimensão urbana, em que o tema da paisagem, do vazio urbano, estão por ali, tentando dizer que isso é tão importante como o próprio edifício. Há um que contraria um pouco essa tese, que é o da Torre (de Algés), que é claramente um edifício auto-referente, vive muito como objecto. Mas para ter essa dimensão, precisa de um grande espaço à sua volta.
A sua obra tem a característica de parecer ter existido sempre no local. Como lida com o factor tempo na arquitectura?
Essa pergunta é interessante. Eu acho que as obras de arquitectura afirmam uma presença num sítio, uma paisagem ou o que quer que seja. Essa presença quer dizer que a obra entra em relação, e há ali qualquer coisa que se modificou, que se transformou. O que é interessante na arquitectura é que afirmar-se essa presença é afirmar o sentido de permanência no tempo. As obras têm um tempo de vida longo. A permanência é uma condição essencial na arquitectura. Outra condição essencial é a de pertença. Por um lado a pertença, por outro a permanência. Costumo dizer que um projecto deve conseguir fazer sentir que sempre existiu, isso é uma condição a que a obra de arquitectura deve aspirar. A condição de pertença adquire-se depois da obra feita.
Na arquitectura interessa-me a obra, mais do que o projecto e o autor. Porque a arquitectura interfere com a vida das pessoas, para o bem ou para o mal. As pessoas reagem à arquitectura. Essa interacção com a vida, a partir do momento em que a obra acaba, escapa ao arquitecto. O objecto depois de pronto, vai por si.
Mas transformar o espaço público gera alguma ansiedade nas pessoas…
As cidades têm um carácter de permanência, mas são também vulneráveis. Veja-se a Baixa de Lisboa. Está praticamente abandonada, e a coisa mais destruidora para uma cidade ou edifício, é não ter uso. A partir do momento em que não está habitada, uma cidade deixa de ter vida. É um processo de regressão, de perca. A discussão do Plano de Recuperação da Baixa-Chiado, que saúdo vivamente, está em cima da mesa. Esperemos que não caia devido a razões políticas. Pela primeira vez há uma visão de uma equipa pluridisciplinar, porque os fenómenos são muito complexos. Não é só trazer animação para a Praça do Comércio. Vejo muita gente com ideias, opiniões, bitaites. Mas nunca vi um estudo que tente perceber a complexidade do que se passa. Dos aspectos mais decisivos são todas as transformações económicas na Baixa, que são violentíssimas. O valor imobiliário não pára de subir. E isto bloqueia acções. Um proprietário de um prédio na Baixa, mesmo que não faça nada, está quase dia a dia a ganhar mais do que se investisse na Bolsa, no Banco.
E espera que o prédio caia…
O imobilismo rende. E o prédio vai acabar por cair. Normalmente começa a entrar água nos telhados, começa a fazer ruína, os habitantes acabam por se ir embora. Mas o valor vai subindo. Esta situação, de carácter financeiro e económico, que não domino, está a ser estudada nesta equipa da Baixa-Chiado. Pela primeira vez há um economista urbano a trabalhar, que me parece notável.
O que considera essencial na cidade?
Costumo dizer que a cidade só existe com três condições: o que está abaixo da terra, o que está ao nível da terra, e o que está acima da terra. Não há cidade sem infra-estruturas. Pode ser uma rede de esgotos, o metro. O nível dos peões, das circulações, que é o do rés-do-chão. Depois há o nível aéreo, que é o nível por onde entra o dia, a noite, o tempo, a paisagem. Se falta um desses elementos, não há cidade.
Acha que as cidades vão desaparecer?
Os conceitos hoje em dia de transdisciplinaridade tendem a acabar com as fronteiras. Lisboa começa hoje em Santarém e termina em Setúbal. A pendularidade, a mobilidade, faz com que a cidade não seja só as praças, os largos, as ruazinhas, são as infra-estruturas, as auto-estradas, os vários centros. Um dos grandes centros de Lisboa é o Colombo, embora só tenha uma componente comercial. Quando se vê esta enorme mobilidade entre as pessoas, as ideias, compreende-se que o que antigamente era considerado estável, tenha sofrido um processo de “erosão”. A internet veio explodir a ligação, a circulação, não entre as pessoas, mas entre o conhecimento entre as pessoas. O que gira na internet é informação, não as pessoas. Quando se descobrir um processo de transportar telepaticamente as pessoas, vou começar a achar que as cidades vão sofrer graves problemas. Porque então posso viver aqui e instantaneamente trabalhar nos Estados Unidos. Mas creio que ainda estamos muito longe disso.
É um apaixonado pelas cidades ou está preocupado?
As duas coisas! Mas diria mais apaixonado do que preocupado, apesar de hoje em dia haver grandes motivos para preocupações, pelo lado da cidadania e profissional.
É de Lisboa?
Sou praticamente de Lisboa, mas sou um lisboeta de adopção. Até aos vinte e tal anos vivi no campo.
Isso é um privilégio.
Sem dúvida. Embora tenha feito o liceu na cidade, nasci num sítio lindíssimo na Beira Alta, chamado Urgeiriça. Conhece?
Não, não conheço.
Tinha umas minas, já estão fechadas há anos. Mas de certeza que conhece um sítio, onde fiz a escola primária, chamado Canas de Senhorim. E Urgeiriça, a dois quilómetros, tinha umas minas de Urânio. Nós não sabemos, mas Portugal é dos países com maior riqueza de urânio da Europa ocidental. Tirando vento e a água, é o único combustível energético que temos à fartazana. E que não podemos usar porque somos um país não nuclear! Mas compramos a electricidade à França e Espanha, produzida em centrais nucleares!
De que maneira o facto de ter crescido no meio da natureza influenciou a sua arquitectura?
Ainda hoje tenho um fascínio pela natureza. A paisagem da Beira Alta é muito sólida, muito fascinante. O Outono na Beira Alta é espectacular. Por outro lado, este contacto com as minas (o meu pai era engenheiro de minas, e visitava minas com ele, especialmente na adolescência) sempre me fascinou porque as minas são uma espécie de arquitectura invertida. As minas são feitas à custa de escavações. E isto cria espaços. Nós, na arquitectura, estamos a pensar que os edifícios são feitos construindo. Paredes, tectos. Mas também podem ser feitos espaços, escavando. Subtraindo. Uma coisa que digo aos meus alunos é que o grande perigo é pensar que só se deve juntar coisas. Se não houver a capacidade de perceber que não é só juntar, também é preciso subtrair coisas, criamos um monstro.
O que ensina mais aos seus alunos?
É muito importante ter uma visão estratégica, de ver onde se quer chegar. Mas também é preciso ter uma grande capacidade de distanciamento, precisamente para não saturar. Para se ter um certo objectivo, para eu poder chegar aqui, tenho de escolher entre várias hipóteses. E isto é um jogo em que se está continuamente, quando se está a projectar.
Projectou a sede do Governo Flamengo, na Bélgica. Como a compara relativamente à edificação em Portugal?
O processo em si é muito semelhante, mas a maneira como a população se apropria da obra é bastante diferente. Lá as pessoas estimam o edifício. Mal aparecem, os graffittis são logo eliminados. Há muita dedicação por parte das pessoas para que o edifício se mantenha vivo, com saúde.
Desliga-se facilmente da obra, depois de concluída?
Existe sempre uma ligação. Às vezes, passo por certas obras. Tenho uma alguma curiosidade em saber como estão a envelhecer. O tempo médio de vida de um edifício é claramente superior ao tempo biológico de cada um de nós. A partir de certa altura, a obra continua lá e o arquitecto morre. A arquitectura sem uso, sem vida, não faz qualquer sentido.
O que considera essencial na sua arquitectura?
Tenho uma certa dificuldade em ter receitas sobre as coisas. No meio desta condição contemporânea, nós vivemos um tempo fascinante, mas que é muito mais exigente, precisamente porque não há receitas.
Os arquitectos, hoje em dia, pela mediatização da arquitectura não são muito diferentes de uma estrela de rock. O mundo do marketing, da sociedade de consumo, acaba por dar mais importância ao artista do que à obra. Vejo pelos meus alunos, que andam sempre inundados de revistas de obras em Hong Kong, São Francisco… E depois eu pergunto: Vocês viram estas obras? E da panóplia de revistas que trazem consigo, se já tiverem visitado cinco por cento, já é uma fartura.
Costumo dizer que os edifícios têm temperatura, têm cheiro, são tácteis. Eu acho que se nós podemos dizer que o Partenón, ou o Panteon de Roma, são obras de arte, é porque as pessoas continuam a interagir com eles, é porque continuam a achar que há qualquer coisa que faz cortar a respiração, e há aqui coisa que coloca questões para além do que lá está. E para isso não basta a imagem.
QUESTIONÁRIO DOMINGO
- Um País... Portugal
- Uma pessoa... Os meus amigos
- Um livro... ‘Cartas a um Jovem Poeta’, de R. M. Rilke
- Uma música... Concerto Colónia, Keith Jarrett
- Um lema... O óptimo é amigo do bom
- Um clube... O meu
- Um prato... Prato de Pádua (em italiano, prato significa parque, por isso o trocadilho: Parque de Pádua)
- Um filme...‘A Regra do Jogo’, de Jean Renoir

pub

pub

Ver todos os comentários
Para comentar tem de ser utilizador registado, se já é faça
Caso ainda não o seja, clique no link e registe-se em 30 segundos. Participe, a sua opinião é importante!