Os cromos do futebol

“(...) olho para ele e vejo-me a mim, 30 anos atrás, a tentar completar a colecção da ‘Abelha Maia’”
12.12.10
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Os cromos do futebol
Foto Ilustração de José Carlos Fernandes

O meu filho Tomás não se impressiona nada com as cavalgadas de Hulk, as acelerações de Fábio Coentrão ou o sentido de oportunidade de Liedson. O futebol propriamente dito aborrece-o de morte e protesta sempre que ligo a televisão para ver o que está a dar na Sport TV. Mas quando se trata do futebol em forma de cadernetas de cromos, aí sim, tenho um fanático dentro de casa.

O rapaz conhece todos os clubes, descobriu que um jogador do Nacional faz parte da selecção da Eslovénia ao cruzar cadernetas (a do Mundial e a da Liga), e não descansou enquanto não apareceu o Saviola para completar a colecção. A caderneta do futebol português, cujos últimos cromos chegaram há dias, está num estado miserável: as capas desabaram, há várias páginas rasgadas, toda ela está tão puída que parece um exemplar do tempo em que Eusébio ainda jogava à bola.

Porquê esse fascínio pelas cadernetas? Não faço ideia. Mas olho para ele e vejo-me a mim, 30 anos atrás, a tentar completar a colecção da ‘Abelha Maia’. As cadernetas de agora são iguaizinhas às da minha infância, com a vantagem de os actuais cromos serem autocolantes e de não termos de gastar tubos de cola Pica--Pau a compor a colecção. Mas o fascínio de abrir a carteirinha à espera de encontrar lá o cromo mais desejado é precisamente o mesmo – e resulta tanto hoje como há três décadas.

Ou deveria dizer como há 30 mil anos? A verdade é que o instinto coleccionista, o fascínio pela acumulação de objectos desligados da sua função utilitária (como no tempo em que eu juntei centenas de latas de cerveja e de refrigerante vazias), é tão velho como o mundo. Ao longo da vida, já coleccionei calendários, latas, selos, moedas, revistas, para não falar na obsessão com que sempre procurei o livro que faltava de certo autor ou o álbum que completaria a discografia de João Gilberto.

O pior nisto tudo é ter esbarrado em Jean Baudrillard e na relação que ele estabeleceu entre o coleccionismo e o sexo (os intelectuais franceses relacionam tudo com o sexo). A sua tese era que o afã coleccionista diminuía entre os 13 e os 40 anos, com o aumento da actividade sexual. Ora, eu tenho aí um problema: já vou nos 37 e o meu afã nunca diminuiu. E é uma chatice a minha virilidade ser posta em causa sempre que empurro o Tomás para o lado e lhe digo: "deixa estar, que esse cromo colo eu".

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