Os reis da cocada

A uma distância navegável de duas horas de Paraty, ou outras duas se vier do Rio de Janeiro, está Angra dos Reis, a ‘Rive Gauche’ da costa sul carioca onde todo o magnata e estrela (ou satélite) da TV Globo têm o seu torrão ou ilhéu. Na cartografia são 43 km de comprimento por 23 km de largo e mais de uma centena de praias para fartar “mocinho e vilanagem”.
28.05.06
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Os reis da cocada
Foto d.r.
As revistas da especialidade ociosa falaram avidamente do Hotel do Frade ou do Blue Tree Park, que nem por isso deixam de continuar em alta. Ainda sem propaganda funérea encontrámos o Sítio do Lobo, um resort muito sugestivo para casais em disponibilidade na falda menos concorrida do arquipélago.
Era a casa (caverna) de um marinheiro carioca, o ‘seu’ Zé Cerrado, que a descobriu nos anos 70 quando por ali navegava em cabotagem no veleiro Xogun. É facto que Angra foi abençoada por uma barreira natural de protecção com uma baía de 300 ilhas florestadas de mata densa onde os buldozers não chegaram. Mas alguns empresários do tipo imaginativo conseguiram decorar a costa com piscinas olímpicas e prédios de betão armado de que a cidade de Angra é o exemplo mais inventivo. Zé Cerrado, uma espécie de Quincas Berro de Água, resistiu às maravilhas do progresso e deixou-se estar na sua caverna.
Na verdade, o Sítio do Lobo é o engenhoso resultado de uma ruína solene que antes de ser pousada foi plantação de café e açúcar e antes disso, no paleolítico (superior), terá sido um refúgio de índios. Visto do mar, o Sítio do Lobo – que deve o nome a um penedo mais parecido com um cão de bruços assente no limite da arriba – é um ponto minúsculo no ventre da Serra do Mar. A casa mais próxima fica no lado oposto da encosta e só tem ligação marítima.
Além da casa-mãe, aninhada num recanto que avança sobre uma pequena enseada, há um anexo de oito quartos e um muro feito com as pedras do fundo do mar – as únicas intervenções de fundo na ruína. Tudo o resto, da sauna embutida nas rochas à sala de estar no socalco da velha gruta de oração, é um recuo no tempo.
Zé e a sua mulher Julinha (uma reputada decoradora; decorou as casas do futebolista Ronaldo) começaram por receber os amigos até uma visita mais atenta lhes dizer que tinham uma pousada e não sabiam. Basta então passar ali uma tarde para entender a diferença entre ter um negócio e amar um ofício.
É que Julinha fará questão de contar a história de cada pedra ou bambu da sua casa e o marinheiro Zé não perderá uma deixa para nos levar a uma pescaria ou a uma ida a banhos aquela praia “show de bola” onde só se vai “no Xogun”.
De resto, Angra só existe verdadeiramente a bordo de um barco. Como diz Ricardo Freire, o oráculo dos repórteres de viagens brasileiros, “em Angra você pega sol no barco, vai almoçar de barco, pode até sair para a noite de barco. Mesmo na temporada, as cidades de Angra e Mangaratiba não ganham aquela muvuca típica de cidadezinha do litoral – turisticamente, elas se limitam a proporcionar um ponto de embarque para os passeios pela baía.”
Muitas ilhazinhas têm bares, e as praias mais concorridas (como a do Dentista, na ilha de Gipóia) são ponto de barcos-restaurantes que preparam peixes e frutos do mar e levam-no ao barco do cliente. Em suma, Angra é linda. Quer dizer: da terra firme é difícil saber, tão numerosos são os condomínios fechados e os resorts impenetráveis.
É sobretudo do mar que se verão as suas belezas. Tanto as naturais: o delicado recorte da costa emoldurada pela mata atlântica, as ilhazinhas de muitos formatos (todos pequenos), água muito verde, que fica mais transparente quando se chega perto da areia. Ou mesmo as belezas construídas: casas vistosas, marinas, ilhas da ‘Caras’… enfim, um verdadeiro parque nacional devotado a essa espécie em extinção, a gente fina.
GUIA DO VIAJANTE
COMO IR?
A TAP (Tel. 707 205 700) tem voos regulares para o Rio de Janeiro a partir de 750 euros mais taxas. O voo dura cerca de 9 horas. Do Rio até Angra dos Reis pode acordar um transfer ou directamente com as pousadas e hotéis. São duas horas de viagem pela estrada Rio-Santos.
ONDE COMER?
No Sítio do Lobo o regime é de pensão completa. Os restantes hotéis e pousadas recomendados também fornecem serviços de restauração inatacáveis. Pode mesmo dizer-se que um pouco em todo o lado é sempre comer e chorar por mais. Depois é só fazer a digestão com tranqilidade
Para mais informações deve contactar a Embratur, o responsável pelo turismo do Brasil em Lisboa. www.embratur.gov.br
ONDE FICAR?
A forma mais civilizada de aproveitar a região é hospedar--se numa pousadinha chique de Angra, ou num dos muitos resorts, e alugar um barco para fazer apenas passeios personalizados. O segundo método mais civilizado é hospedar-se num resort e embarcar nos passeios em grupo que são oferecidos e que lhe poupam na factura. Por último, a solução mais económica é ficar numa pousada como a Nautillus, na ponta de uma pequena península entre as praias do Retiro e da Enseada, com um deck charmoso que avança até ao ancoradouro e uma piscina rente ao mar, à sombra das trepadeiras, além de um restaurante japonês.
- SÍTIO DO LOBO
Morada: Ilha Grande, Angra dos Reis
Tel. 00 55 21 2227 4138
Site: www.sitiodolobo.com.br
A partir de 375€€ (Pensão Completa)
- POUSADA NAUTILLUS
Morada: Estrada da Ponta do Sape, 33
Tel. 00 55 24 3365 2794
A partir de 25€€
- HOTEL DO FRADE
Morada: Estrada Rio-Santos, ao km 123
Tel. 00 55 24 3369 9500
A partir de 50 €€
- PORTO REAL RESORT
Morada: No Km 454 da Rio-Santos
Tel. 00 55 24 3365 5078
E-mail: portoreal@angraviagem.com

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