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Portugueses ao serviço de França

Entre os 8200 que integram a Legião Francesa, cerca de 100 têm nacionalidade portuguesa.
Por Francisco Gomes|14.05.17
Portugueses ao serviço de França
Foto Carlos Barroso

Aurélio Cabral tinha vinte anos quando entrou para a Legião Estrangeira Francesa. Natural de Atiães, em Braga, foi legionário entre 1982 e 2007 e viu camaradas serem mortos em ataques na Costa do Marfim e na antiga Jugoslávia. Foi a "aventura" e a "curiosidade" que o levaram a ingressar na mais famosa legião estrangeira, uma tropa de elite criada em 1831 para defender os interesses de França em África, no oceano Pacífico e na América do Sul. Desde então, homens de 150 nacionalidades têm arriscado a vida por uma pátria que não é a sua, mas que adotam como sendo. 

Portugueses ao serviço de França

"Fui pequenito para França com os meus pais. O meu pai trabalhava nas minas de carvão no Norte. Cresci a ouvir falar da Legião e alistei-me. A minha intenção era fazer cinco anos [duração mínima do contrato de trabalho inicial]. Mas acabei por fazer vinte e cinco", conta. "A disciplina é dura, mas depois habituamo-nos", recorda quem admite que, no início, a remuneração nem por isso "era aliciante" mas ao fim de cinco anos passou a cabo-chefe e pôde casar (antes desse período não é permitido).

Aurélio Cabral, 55 anos, defendeu os interesses de França em cenários de pacificação e de prevenção de conflitos, nomeadamente no Djibuti, o território francês que ganhou a independência em 1977, e no Taiti, a maior ilha da Polinésia Francesa, mas foi na antiga Jugoslávia, onde as missões de paz tiveram um papel importante perante a divisão do território, e na Costa do Marfim, a antiga colónia francesa que viveu uma guerra civil entre 2002 e 2004, que viu a morte à sua frente. "Vi morrer pessoas colhidas por balas disparadas por snipers. Quando se vê um amigo a ser atingido é complicado", desabafa.

O português conta que disparou a Famas, a arma-fuzil de assalto francesa, mas não feriu nem sequer matou alguém. "Fui até ao fim e saí com 45 anos, já reformado. Podia ter continuado mas queria vir para Portugal. As pessoas têm a ideia de que a Legião é uma coisa feia e escondida. Para mim foi uma aventura muito bonita." Este legionário de Atiães foi um dos cerca de trinta antigos combatentes portugueses que se reuniram no final de abril, em São Mamede, na Batalha, num encontro organizado pela Associação de Veteranos da Legião Estrangeira Francesa em Portugal e em que foram distinguidos três legionários reformados: Diamantino Martins, com o título de reconhecimento da nação, e Fernandes Callau e Aurélio Cabral, com a medalha do combatente. Foi ainda assinalado o 154º aniversário do combate de Camarón, a 30 de abril de 1863, com o exército mexicano, quando pouco mais de 60 legionários enfrentaram até à morte dois mil soldados.

Arriscaria um olho?

Rafael Matos, presidente da associação de veteranos, serviu a Legião durante quinze anos e conta que a situação mais intensa que viveu foi "num cenário de guerra no antigo Zaire, hoje República Democrática do Congo, em maio de 1978, em que havia muitos europeus civis reféns de um grupo rebelde e nós fomos lá resgatá-los", lembra o antigo combatente de 64 anos.  

"Não tinha trabalho e decidi ir para França, onde me apresentaram a oportunidade de ingressar e começar outra vida", lembra Matos, indicando que "a formação militar rigorosa pode-se comparar aos Comandos em Portugal". "Recomendo a Legião aos jovens que não tenham qualidade de vida. Tenho uma reforma agradável", refere.

Mas é o dinheiro que motiva os legionários? O general Jean-Louis Franceshi, comandante entre 2002 e 2004, devolve a questão: "Arriscaria uma perna, um olho, a vida, por pouco mais de mil euros por mês? Eu também não." A força é composta "por jovens que escolheram como destino juntar-se à Legião, sabendo que é uma escolha difícil. Os jovens pensam mais noutras coisas do que na eventualidade de a qualquer altura poderem morrer ou provocar a morte em serviço".

"Não o fazem por dinheiro - diz Franceshi - mas pelo desejo de serem alguém, de transmitirem a quem está à sua esquerda ou à sua direita que podem contar com eles, numa formidável solidariedade que faz esquecer todos os perigos" enfrentados por uma força militar em que a nacionalidade dos seus membros não tem qualquer importância. Daí o lema: "A Legião é a nossa pátria."

Cumpriu o serviço militar obrigatório em Portugal e foi paraquedista. Esteve em Timor e aos 24 anos decidiu entrar na Legião. Augusto Soares, de Vale de Cambra, no distrito de Aveiro, desempenhou funções entre 1978 e 1993. Após quinze anos como legionário, saiu como cabo-chefe.

Hoje, aos 63 anos, confessa que ingressou na Legião porque "costumava viajar sem passaporte para a França e, um dia, a polícia francesa disse-me que aquela era a única maneira de ficar legal [título de residência]. Mas eu nunca quis ter a nacionalidade francesa [é possível a partir do terceiro ano de serviço na Legião]", conta quem admite que o facto de "não querer trabalhar" também ajudou à decisão.

Augusto Soares esteve em missões no Djibuti, no Taiti e no Chade, a antiga colónia francesa independente em 1960 mas que, entre 1975 e 1979, esteve em guerra civil com o apoio de potências ocidentais. "No Chade estávamos em guerra permanente e podia ser atirador ou chefe de equipa. Numa ocasião, chegámos a entrar num avião porque havia um golpe de estado na Costa do Marfim e já estávamos prontos para arrancar, quando foi abortado." Não viu ninguém morrer em combate, apenas em acidentes. Soares não considera que o treino militar da Legião fosse extremo: "Em Portugal tive uma tropa bastante mais dura."

No final dos primeiros cinco anos largou a Legião para se casar mas, passados três meses, regressou. "A vida militar é muito mais fácil do que a vida de casado", brinca quem reconhece que em termos monetários "compensava". "Ganhava-se razoavelmente, sobretudo nas comissões - entre 10 e 16 mil francos por mês [1500 e 2500 euros], muito acima da média" de valores que poderia auferir em Portugal.

Augusto Soares não conseguiu convencer o filho a interessar-se pela Legião Estrangeira Francesa, mas continua a recomendar a quem queira "estar legal, ganhar a vida honestamente e ter disciplina".

Irmãos de armas

Wilson Gomes, de 32 anos, é de Faro e vive em Lisboa. Atualmente é segurança mas já foi paraquedista militar em Portugal, antes de, entre 2009 e 2014, ter conhecido por dentro a Legião Estrangeira Francesa. "Vi vídeos e ouvi falar e foi uma experiência que quis ter. Quis aventurar-me. A recruta em Portugal é mais dura, mas o dia a dia na Legião é mais rigoroso em termos de disciplina", considera Wilson Gomes, que esteve em missões de paz no Senegal e nos Emirados Árabes Unidos e em palcos de conflito como a Costa do Marfim. "Só tive de disparar em treino. Não houve emboscadas nem ataques", recorda. "As pessoas não têm a noção do que é a Legião. Dizem que só tem mercenários e reclusos, o que é mentira. Isso era antigamente. Agora não, pois os cadastrados não podem entrar", explica Wilson Gomes, para quem a Legião foi "a melhor coisa" que lhe aconteceu na vida.

Ao longo da história da Legião Estrangeira Francesa foram diversas as razões de quem lá se alistou, embora na maior parte foram casos de homens que não tinham destino ou laços. Sem dinheiro, criminosos ou soldados profissionais eram aceites. Sob determinadas circunstâncias, eram-lhes oferecidas novas identidades. Hoje em dia, os recrutas são objeto de investigação para garantir que não se alistam para fugir da Justiça por crimes graves.

Os legionários têm como base um código de honra próprio, em que se declaram voluntários, "servindo a França com honra e lealdade". Cada um é visto como "irmão de arma, seja qual for a sua nacionalidade, raça e religião" a quem se deve manifestar a mesma "estreita solidariedade que une membros da mesma família".

A missão é "sagrada" e deve ser executada "no respeito das leis, dos costumes da guerra, das convenções internacionais" e, se for necessário, com risco da própria vida.

Os legionários sabem que não têm nada a perder, que são dispensáveis e, por isso, devem lutar até ao último homem. No combate devem "agir sem paixão e sem ódio e respeitar os inimigos vencidos" e nunca abandonar mortos ou feridos que lhes pertençam, incluindo as armas.

Atualmente, a Legião Francesa é composta por 8200 homens e cerca de uma centena terá nacionalidade portuguesa. Oitenta e nove por cento são estrangeiros (44 por cento provindos dos países de Leste e da Europa Central).

Não se sabe exatamente quantos portugueses já serviram nesta força de elite desde a sua fundação, mas julga-se que poderão ter sido mais de dois mil. Os candidatos devem ter entre 17 anos (exige autorização dos pais) e 40 mas, atualmente, a média de idades dos alistados está nos 23. Não é preciso saber falar francês, pois deverão aprender a língua durante o serviço. Também não é necessário ter servido o exército no país de origem. Numa primeira fase, os candidatos são sujeitos a exames médicos, testes físicos e psicológicos e entrevistas. Se forem selecionados cumprem uma formação de quatro meses no regimento de Castelnaudary, no Sul de França, e são depois destacados para um dos onze regimentos da Legião. Em 2016 foram recrutados 1700 homens entre oito mil candidatos.

Durante os primeiros anos como legionário até ao posto de cabo (ou seja, dois a quatro anos) terão roupa, comida e alojamento gratuitos. O salário inicial líquido é 1280 euros (excluindo contribuição social), com direito a 45 dias de férias. Há lugar a compensações financeiras por treinos de campo ou missões no estrangeiro. O legionário é formado como um combatente e, após dois anos de serviço, pode escolher ser sniper, motorista e artilheiro de tanque, paraquedista, sapador de minas, atirador de metralhadora ou antitanque, condutor de veículo blindado, mecânico de rádio, operador de central, eletricista, armeiro, enfermeiro ou cozinheiro, entre outras especialidades, para servir esta força de elite francesa criada em 1831 e que teve o seu batismo de fogo na Argélia.

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