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“Redes sociais aumentam isolamento”

As novas tecnologias podem trazer obstáculos a um crescimento saudável, diz pedopsiquiatra do hospital dona Estefânia, em Lisboa.
Por Marta Martins Silva|27.11.16
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“Redes sociais aumentam isolamento”
Foto Davo Ruvic/Reuters

A nova  unidade de internamento de psiquiatria da infância e adolescência do Hospital D. Estefânia, em Lisboa, tem mais seis camas. Um     pequeno     passo     para     o Homem mas um grande passo     para     Augusto     Carreira,     o responsável     da     Unidade    de Saúde     Mental     da     Infância     e Adolescência     do     Centro Hospitalar de Lisboa Central.

Quais as principais patologias  da  psiquiatria     das crianças e adolescentes?

As principais patologias que internamos são as perturbações do comportamento alimentar (como as anorexias); tentativas de suicídio e outros comportamentos autolesivos graves; descompensações psicóticas.

Qual é a patologia mental mais comum na infância?

A patologia mais frequente em     psiquiatria     da     infância está     relacionada     com     as perturbações do comportamento     (maior     número     de pedidos de consulta), o que está     de     acordo     com     outros países. Há que ter em atenção     que     muitas     vezes,     subjacente     a     esta     queixa,     existem quadros psicopatológicos de depressão, hiperatividade com deficit de atenção, determinados traços de personalidade e até quadros mais graves como psicoses.

E na adolescência?

Não existem, infelizmente, estudos     epidemiológicos em     Portugal     que     nos     permitam     responder     a     essa questão de forma clara. Podemos,     no     entanto,     dizer que a principal causa de recurso à urgência na adolescência são as tentativas de suicídio. É também inegável     que     existe     uma     grande prevalência de depressão.

O que explica esta prevalência da depressão nos mais jovens?

As causas da depressão nas crianças     e     jovens     (aliás, como nos adultos) são multifatoriais. Como costumamos dizer, não há causalidade linear na maior parte das doenças     psíquicas.     Temos pois que valorizar fatores de natureza social/ambiental e familiar,     e     individuais.     Eu diria que a uma vulnerabilidade individual se se juntarem fatores como a insegurança dos cuidadores, relacionada com precariedade no     trabalho,     incerteza quanto ao futuro, dificuldades económicas, sobrecarga de trabalho, isto irá necessariamente refletir-se num suporte     emocional     mais frágil,     logo     com     repercussões negativas no desenvolvimento     e     segurança     das crianças. Mas importa assinalar que a disfuncionalidade familiar não deriva só das dificuldades económicas.

Quais os motivos mais comuns que levam os jovens  a querer terminar com a vida?

A depressão é naturalmente o fator com mais peso. Porque a depressão traz consigo a falta de esperança no futuro, a dificuldade de fazer projetos,     um     sentimento     de não ser amado e compreendido, de não haver o tal "suporte emocional" absolutamente essencial nesta fase do crescimento. Mas também, muitas vezes, um sentimento de não conseguirem corresponder     às     expectativas quer     dos     cuidadores/pais, quer da escola, quer até sociais, na medida em que existem estereótipos de ‘sucesso’ que     se     vão     constituindo muitas vezes como obstáculos vividos como intransponíveis pelos jovens.

Os jovens  de  hoje estão permanentemente ligados à informação através  das novas tecnologias. Isso deveria deixá-los mais atentos aos sinais de alarme ou, pelo     contrário,     aliena-os mais e leva-os a situações críticas de saúde?

A questão das redes sociais, como     aliás     acontece     com quase todos os avanços tecnológicos ao longo da história, além dos benefícios, trazem quase sempre aspetos negativos. Se os jovens não forem     ajudados     a     fazer     um uso     criterioso     e     saudável destes     meios,     a     tendência     é para esse uso alienado de que fala. Começam a surgir efetivamente     muitos     sinais     de dependência, seja da ligação em     permanência     às     redes, que constitui um obstáculo ao desenvolvimento do pensamento, enquanto exercício reflexivo/introspetivo     essencial, seja aos videojogos. Tudo     isto     aumenta     o     isolamento     e     a     ausência     de     relações sociais com os pares. As redes podem dar a ilusão de socialização,     de     ter     muitos amigos (?!), mas, na realidade, o que constatamos é que estes     jovens     têm     enormes dificuldades     em     se     relacionar     com     os     pares     fora     deste     ambiente     artificial.     Temo que     andemos     todos     um     bocadinho     distraídos     com     este fenómeno.

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