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Rui Rio: O homem que espera pela sua vez

Tem quase 60 anos e é conhecido por ser torto e forreta. Indispôs-se com artistas, por não lhes ter dado um cêntimo. Indispôs-se com o FC Porto, por não lhes ter dado palco. Indispôs-se com jornalistas, por não gostar de críticas. Indispôs-se com o seu partido, por ter limpo as listas. Paciência, só lha conhecem quando se trata de esperar pelo momento de pôr passos a correr
Por Miriam Assor|27.11.16
Rui Rio: O homem que espera pela sua vez

Tem pés e braços para tocar bateria, pés para pedalar na bicicleta e dedos para fazer contas. A fama de forreta é uma marca que o acompanha, muito embora não se prove que já dividiu um bife, como por aí se diz. Uma vez, na câmara municipal, perdeu a cabeça com os tinteiros. Gastava-se muita tinta. Digamos que é um Vítor Gaspar mas com sorriso. Também se diz, e neste ponto há gente que viu, com os habituais olhos que a terra irá devorar, a Polícia Municipal a rebocar e a multar automóveis mal estacionados nas imediações das redações. A razão do reboque matinal tornara-se conhecida na cidade: "Se os jornais escrevessem algo que tocasse no calo da Câmara Municipal do Porto (CMP), os reboques e as multas eram certinhos".

A ligação com a imprensa estava longe de ser doce. No site oficial da CMP, o executivo de Rui Rio fez passar, por exemplo, a acidez e fúria, dirigidas ao ‘Público’, contestando a independência do jornal e a honorabilidade de um dos seus jornalistas, Amílcar Correia. Com outros jornais, o convívio igualmente não terá sido pacífico, o que quererá dizer que mais reboques terão trabalhado na parte da manhã junto à sede de outras redações. Fofoca-se que o presidente de então, Jorge Sampaio, até mandou um "enviado" para ver se melhorava as relações com a comunicação social.

Rui Fernando da Silva Rio "não gosta de ser contrariado", afirma um antigo colaborador. Na óptica de quem o conhece, e bem, é homem de uma palavra, mesmo se a palavra devia voltar a ser repensada. O corte com a tradicional relação entre a câmara e o futebol ilustra essa sua faceta. Durante a sua presidência, como é sabido, optou por um divórcio litigioso com o Futebol Clube do Porto.

O clube presidido por Jorge Nuno Pinto da Costa viu, entre outros troféus, cinco campeonatos no papo, e de seguida a Taça da Champions, mas não viu as boas--vindas camarárias. Rui Rio não quis misturar as águas e aproveitara a boleia de Ricardo Figueiredo, então vereador, que "mandou umas bocas contra Pinto da Costa", completa um antigo elemento camarário. Mas o que começou por ser uma divisória formal, avança um portista, acabou por se transformar numa guerra pessoal entre Rio e Pinto da Costa, levada ao extremo, inspirada pelo orgulho. A vingança come-se fria, lembra, contente, um antigo jogador do Boavista.

A porta do Dragão Caixa ficou fechada, e na cara de Rui Rio, aquando da grande conferência da SICN/CGD, a 15 de Novembro. Assim como o desporto preferido de Maradona ficou de fora dos planos de Rui Rio, a cultura teve semelhante destino. Vozes, mas vozes verdadeiras, e artistas que usam as mãos para tocar instrumentos, exprimem a ofensa de não ter dado carinho aos assuntos culturais: "Não gastou um cêntimo. Foi uma vergonha!"; "Rui Rio vai ficar no caixote do lixo da história", "Atrasou a cidade do Porto mil anos com a ideia que praticou: Na cultura não se aposta; não é preciso para comer".

Um cantor, contudo, tem uma leitura menos furibunda: "Falta-lhe estofo de líder e deixa muito a desejar no trato com as pessoas." "Eu diria que é um eterno segundo." Foi vice-presidente com Durão Barroso e Pedro Santana Lopes (2002 a 2005) e repetiu as funções com Manuela Ferreira Leite (2008 e 2010).

No tempo em que Marcelo Rebelo de Sousa liderou o partido, Rui Rio, que exerceu o cargo de secretário-geral, actualizou as fichas de militantes. E esta medida enervou um rol de sociais-democratas. Encontrou fantasmas, isto é: militantes que não existiam. Votavam sem existirem. Um deputado da bancada liderada por Luís Montenegro relembra: "Rui Rio criou divergências dentro do PSD." Distritais e secções laranja contestaram a súbita transparência. E só descansaram no momento da saída repentina de Rui Rio.

Livros, só técnicos

Não lê romances, ‘Os Maias’ passaram pelos seus olhos apenas por obrigação escolar. Os poemas de Johann Schiller já o encantaram. A leitura, quando existe, concentra-se em livros técnicos. Deu nula importância à cultura ao longo dos três mandatos (2001 a 2013) à frente da autarquia do Porto, ele que até cresceu na rua Barbosa du Bocage. A memória que deixou nos vizinhos é discrepante. Uns recordam-no como "cinzentão e convencido" e outros como "simpático e brincalhão, muito embora fosse discreto nisso". Não lhe é fácil perdoar, mas é possível. Não tem amigos fora da política. A antiga amizade com Paulo Morais faleceu de morte pouco natural. Falta-lhe vivência. Falta-lhe mundo. Sobram-lhe dedos para contar as reuniões internacionais em que esteve presente. Não gosta de viajar e de nada lhe valeu a intenção paterna para que emigrasse para a Alemanha.

Obcecado a perseguir os seus objectivos, e pela política, Rui Rio é tido como pessoa séria, e não estamos a referir que não se ri. Gosta de esperar na sombra. Tem aversão ao risco. Não sabe distinguir o fundamental do que é acessório. Ao contrário da imagem que transmite, não é austero e mal-disposto. "Até sabe contar piadas e atirar umas bocas!", exclama um amigo. Come bem, graças a Deus, sendo um bom garfo cuidadoso por causa do colesterol. O prato preferido não são as tripas à moda do Porto. É a lampreia, de Viana de Castelo, terra da sua mulher, Lídia Azevedo, professora, mãe da sua filha, Marta, de 15 anos.

A pontualidade que o rege não é britânica. É germânica. Aos quatro anos entrou na Deutsche Schule zu Porto, colégio alemão, por sugestão do pai, um comerciante abastado, que vivera na Suíça francesa, e de quem herdou o rigor e um certo encanto pelos alemães. A tragédia invade a sua casa em Junho de 1965. A leucemia leva-lhe o irmão mais novo. Fé e idas à igreja morrem, nesse dia, também. O grau de exigência por parte do pai, que já era grande, duplicará. Em miúdo ganha quatro campeonatos de ‘slot cars’, mas nunca recebeu a taça. De todas as vezes estava de castigo. A adolescência terá uma reviravolta com a separação dos pais. Vai viver com a mãe, que não possuía grandes recursos financeiros. Foi federado no atletismo, jogou bilhar quando havia dinheiro, os cabelos andavam à moda sem nunca lhe chegarem nos ombros, fundou os ‘Êxtase’, em 1974, e tocava bateria. Na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, a música estava em encabeçar uma greve e em travar os abusos dos chumbos no seu curso. Criou a t-shirt com a frase: "Eu sou de Economia, eu Chumbo."  

O passo à poltrona do PSD e, quiçá, a primeiro-ministro, se o resultado eleitoral for generoso, é uma camisola que lhe cabe, garante um ex-ministro de Cavaco Silva: "Deve ser levado a sério. Rui Rio tem condições. O seu discurso é eficaz." Do governo de Passos Coelho, um ex-ministro deixa recado: "Isso é lá com ele (Rui Rio). Já tem idade para saber o que realmente quer."

Nasceu a 6 de Agosto. Em 2017 fará 60 anos. Carlos Carreiras sugere que se recandidate à CMP. Pacheco Pereira não respondeu aos emails enviados pela ‘Domingo’. Um social-democrata, que suplica pelas almas para que o seu nome não seja revelado, assegura que o comentador da ‘Quadratura do Círculo’ está desactualizado ao dar a entender que o PSD está minado de maçons e necessita de Passos Coelho para se manter como um diabético precisa de insulina. "Rui Rio pode muito bem ganhar dentro do PSD. Os aventais existem em todos os partidos. Que eu saiba, Passos Coelho não é maçon e chegou a presidente." Mas segreda fonte adjacente: "Só avançará se lhe estenderem três tapetes vermelhos. Não gosta de perder." Conta-se, a seguir ao tombo governamental de Santana Lopes, que terá sido convocado para uma reunião dos, digamos, notáveis do PSD. De volta ao Porto, já em Santarém, deu meia volta e regressou a Lisboa para convencer, ao que se cochicha, Ferreira Leite a avançar, pois sabia que perderia as eleições contra Sócrates. O líder parlamentar já veio dizer que não há processo de sucessão aberto no PSD. E Rio ralado com isso.

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