“São coisas que nunca se esquecem”

Dormíamos em barracas de pano de lona e eram colchões por cima da areia. Perdi um camarada da minha terra
Por Vanessa Fidalgo|28.06.15
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“São coisas que nunca se esquecem”
O militar em Nacatar, com a cachorra 'Tari'

Se para um ex-combatente, aos 73 anos, recordar é viver, então porque não fazê-lo? A Guerra do Ultramar, cujos acontecimentos mais importantes já foram objeto de vasta produção literária, representa uma enorme fatia da história de Portugal.

Nos seus 13 anos de existência, evoluiu nos mais variados aspetos, especialmente no que respeita a instalações militares, alimentação, material bélico aéreo e terrestre. Como testemunha presencial, lembro-me do famigerado Campo Militar do Grafanil, Angola, que em 1961 serviu de rampa de lançamento, com passagem pelo Úcua, da maior operação militar, de grande envergadura, jamais ocorrida nos Dembos-Pedra Verde, e a ocupação de Nambuangongo, esta comandada pelo valoroso coronel Maçanita (já falecido).

É um dever informar os nossos jovens e ex-combatentes mais novos de que, em 1961, o Campo Militar do Grafanil, Angola, era composto por um terreno, com dez hectares de superfície – onde predominava a areia –, cercado por arame farpado e povoado por dezenas de embondeiros – árvores de grande porte de origem africana.

Escusado será dizer que pernoitávamos em barracas de pano de tenda e o colchão era a areia do chão, face à inexistência de quaisquer instalações para uso dos militares. Em 1965, numa fortuita passagem pelo Grafanil, em trânsito para Moçambique, verifiquei com satisfação a existência de várias casernas, esplanadas, campos de jogos, etc., como resultado da já referida evolução.

Não quero deixar para mais tarde esta referência: os nossos combatentes estão em dívida, duma imensa gratidão , para com os nossos cães, autênticos companheiros que, numa dedicação sem limites, passavam longas e difíceis noites nos postos de vigia, junto dos militares-sentinelas de serviço, no interior de abrigos subterrâneos. A década de 60 do século passado foi a época de maior sofrimentos para os combatentes, atualmente idosos, alguns portadores de sequelas e stress de guerra, que teimam em não lhes dar tréguas, apesar dos cinquenta e tal anos já passados. 

Recentemente fui a Belém visitar o Monumento ao Combatente e logo o primeiro nome que li trouxe-me à memória um dos episódios mais duros que vivi em Pedra Verde.

 

Dia trágico

Naquela zona, havia muito fogo cruzado, muitas granadas de morteiro. Algumas eram desviadas da rota por qualquer razão (bastava embaterem numa árvore) e já não rebentavam.

Um dia, um furriel do nosso batalhão pegou numa dessas granadas e, concluindo que já não prestava, atirou-a inconscientemente ao chão. A granada explodiu naquele exato momento, ferindo 16 camaradas do meu batalhão e matando um conterrâneo meu, de Quarteira, que estava sentado ao meu lado no chão, a comer.

Os estilhaços entraram-lhe pelo pescoço e teve morte quase imediata. Chamava-se António Amador e, como morreu no início da guerra, em 1961, é logo um dos primeiros nomes que figuram no Monumento ao Combatente. Por causa desse episódio, quando visitei o mural emocionei-me muito, a ponto de sentir um grande aperto no peito. São coisas que nunca se esquecem.

Nome

José Vitorino Rodrigues


Comissão  

Angola e Moçambique

1961-1963

 

Força  

Batalhão 261, de Pedra Verde

 

Atualidade 

Reformado, vive em Portimão e tem dois filhos e uma neta

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