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“Se não existir desejo e paixão não faz sentido”

Paulo Pires e João Reis são atores, nasceram na mesma década (de sessenta), estão casados (e bem!). Aproveitámos que têm estado (também) juntos em palco para os fazer falar daquelas questões transversais a (quase) todas as relações.
Por Marta Martins Silva|19.03.17
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“Se não existir desejo e paixão não faz sentido”

Estão juntos em palco com a peça ‘Os Dias Realistas’, com Catarina Furtado e Manuela Couto. Aproveitámos a deixa para os juntar também nesta entrevista e ouvi-los falar de temas do quotidiano, como o amor, o divórcio, o envelhecimento e a morte.

Já tinham trabalhado juntos?

Paulo Pires - Em televisão, em teatro não. Em televisão trabalhámos numa novela aqui há uns anos, em que fazíamos de irmãos. Nessa novela eu era casado com a personagem da Manuela Couto.

João Reis - E o Paulo também é muito amigo da Catarina e já fez televisão e teatro com ela.

Mas por outro lado, o João nunca tinha trabalhado com a Catarina [Furtado, com quem é casado]…

JR - Os dois juntos em cena não, só a dirigi num espetáculo que encenei há uns cinco anos no Maria Matos, mas em palco não, só em televisão.

Tinham receio da proximidade?

JR - Não, porque houve uma coisa que ficou esclarecida logo no início, que não fazíamos o casal, era uma coisa demasiado óbvia e portanto foi pacífico, não há uma espécie de tratamento privilegiado por ser minha mulher. Obviamente que como vivemos juntos partilhamos muita coisa sobre o processo de trabalho, mas foi fácil, foi muito fácil.

A peça que protagonizam tem muitos momentos do quotidiano. A personagem da Manuela cobra a dada altura ter deixado de trabalhar para se dedicar ao marido, que está doente.

PP - Os horizontes deste casal não são muito largos, não há nada de muito memorável que lhes tenha acontecido.

JR - Eu acredito, como acontece muitas vezes na vida das pessoas, que os filhos sustentam ou ajudam a sustentar uma relação, porque há pessoas, já ouvi imensa gente a dizer "nos só estamos juntos por causa dos nossos filhos", porque querem esconder uma série de problemas e, portanto, as pessoas muitas vezes mantêm-se juntas por causa dos filhos e quando os filhos vão à vida deles, quando crescem e já são autónomos, muitos desses casais acabam por se separar.

Acham que as relações entre os casais são hoje diferentes do que eram antigamente?

JR - As coisas mudaram, é muito frequente hoje em dia os casais estarem a jantar ou em conjunto e estarem os dois agarrados ao telemóvel. Eu vejo isso imensas vezes, ou no Facebook, ou a ver notícias ou a mandar mensagens. As pessoas hoje em dia não comunicam porque têm mais pontos de fuga e isso é assustador, é bastante assustador.

Será que não investem nas relações? Ou cansam-se mais rapidamente e batem com a porta?

JR - Eu acho que, e falando por mim, uma coisa com que me debato muitas vezes é a falta de tempo, é ter disponibilidade emocional e real e concreta para estar em família, para ter as minhas fugas com a minha mulher. Eu queixo-me imensas vezes disso. Eu luto imensas vezes para ter espaço para esses momentos de fuga e até para ter momentos de estar comigo próprio, momentos de contemplação. Nós, hoje em dia, raramente temos espaço para isso.

A vida é vivida a correr.

JR - É, é tudo muito acelerado. Há muito pouco tempo. Há muito pouca disponibilidade, também para os amigos. Eu ainda aqui há uns dias falava com um amigo meu "não sei há quanto tempo é que nós não arranjávamos tempo para ir tomar um café ou para ir jantar". De vez em quando tomo a iniciativa e ligo a meia dúzia de amigos meus…

PP - Há muita solicitação, há muitos pontos de fuga, há muitas coisas a chamar-nos a atenção. Até se nota na forma de o público estar no teatro, as pessoas comentam que uma peça de uma hora e 45 minutos é muito tempo, porque não aguentam muito tempo quietas. E nas relações também. Embora antes as pessoas também se acomodassem e ficassem em relações que não faziam sentido. Só ficavam porque socialmente não era bonito e aceite a separação, ou porque se entregavam só a uma condição de mães e pais.

JR - Sim e neste caso específico, que o Paulo está a referir, as mulheres eram sempre muito penalizadas.

Hoje em dia procura-se mais a felicidade e isso é positivo?

PP - Acho que as pessoas encaram o divórcio como uma coisa negativa, mas não é necessariamente uma coisa negativa.

Pode ser bom para todos?

PP - Sim, porque essa questão das pessoas não se separarem por causa dos filhos… São os filhos que as mantêm juntas mas se as pessoas não tiveram condições, se não existir desejo, paixão, se não existir amor, se calhar não faz sentido estarem juntas…

JR - Por outro lado, as pessoas agora casam-se de uma maneira um bocadinho mais instantânea, deslumbram-se de uma maneira muito mais instantânea. Ainda agora, quando vinha, estava a ouvir a TSF e uma senhora a dizer "eu tenho 80 anos e antes de casar com o meu marido, e ele era muito giro, tive muita gente atrás de mim e muitas paixões"… Ela antes de casar com o marido namorou com ele cinco anos. Hoje em dia, há pessoas que casam ao fim de…

PP - Cinco meses.

JR - E isso traz alguns dissabores porque há choques frontais, as pessoas apaixonam-se brutalmente, acho fantástico, mas o casamento é um passo importante.

Entrevistei há pouco um psiquiatra que falava precisamente sobre o facto de as pessoas se "consumirem em fast-food" e que isso provoca ansiedade e muita falta de amor…

JR - E muita desilusão. As pessoas depois desiludem-se muito facilmente porque começam a perceber melhor "espera aí, não foi isto que eu comprei". E depois é tarde… ou não. Casar dá uma trabalheira brutal da mesma forma que o divórcio também dá uma trabalheira brutal. Depois sofre-se imenso com a separação e muitas coisas que se partilharam em conjunto depois ficaram pelo caminho. É preciso arriscar, como em tudo na vida, até para sabermos o que nos espera, mas o casamento é um passo muito importante…

E é um investimento.

JR - Exatamente. E sobretudo quando se tem filhos obviamente que as coisas ganham outra dimensão porque percebemos, a páginas tantas, que os filhos também perdem bastante com a separação, sendo que hoje em dia é muito comum. Hoje em dia, basta ver nas escolas, os miúdos são quase todos filhos de pais separados. É importante nestes casos que os pais, tanto quanto possível, não só pelos filhos mas também por eles e por tudo o que partilharam, poderem manter uma boa relação, de uma forma cordial e afável dentro do possível.

PP - Há casos em que os filhos ganharão com a separação, no sentido em que se a relação for péssima e sempre com discussões não é um ambiente favorável para se crescer. Nesses casos, em que os casais não se entendem, os filhos ganham imenso com a separação.

JR - Obviamente.

PP - E eu não estou a falar por experiência própria mas por casos que ouvimos falar, alguns que imaginamos e outros que sabemos porque conhecemos pessoas, todos temos amigos que disseram "eu separei- -me por mim mas também para as crianças não estarem perante discussões constantes". E por muito dura que seja uma separação… Os meus pais vivem juntos há mais de 50 anos, e não tenho essa experiência, a minha irmã vive com o marido há uma série de anos também, mas calculo que seja muito duro. Ainda assim acho preferível a ficarem numa família desajustada e com problemas constantemente.

E o segredo de um casamento de sucesso é...

PP - Não tenho o segredo mas a partir do momento em que as pessoas continuarem a gostar uma da outra…

JR - A terem admiração uma pela outra…

PP - Sim, a admiração não é tudo mas é muito importante.

JR - E é essencial numa relação termos os nossos momentos secretos e quando estou a dizer momentos secretos não é pensar que estamos a trair a pessoa com alguém, é o nosso espaço. Aquela coisa de "ai eu quero saber tudo"... Às vezes há pequenas mentiras que servem para proteger o outro. Às vezes quando se omite determinadas coisas é para proteger o outro. E não estou a falar de traições.

PP - Um desses exemplos é a relação que o ‘João’ estabelece com a ‘Bambi’ [personagens da peça], não diz que tem uma doença para a proteger. É o exemplo de alguém que mente por amor.

E a ideia de envelhecer juntos…

JR - Quando morei no Bairro das Colónias [Lisboa] tinha como vizinho um casal de 90 e 88 anos e havia ali uma harmonia absolutamente invejável, quando assim é imagino que seja muito agradável. E imagino que quando um parte…

PP - ...deve ser duríssimo.

JR - Tanto que, muitas vezes, quando um parte o outro não aguenta muito mais tempo.

PP - Isso é assustador. Um casal que viveu uma série de anos junto em grande harmonia, focados os dois nas mesmas coisas com um grande entendimento, de repente ver partir a outra parte deve ser…

É um bocadinho como se partisse uma parte de ela própria…

JR - Sim. A ideia de envelhecer com alguém, de ficar uma vida com uma pessoa, é muito atraente, significa que valeu a pena … e estou a partir do princípio que as pessoas se mantêm juntas sem sacrifício…

PP - Com sentido, sendo que a ideia de envelhecer não é propriamente uma ideia boa…

Não é boa mas...

PP - É inevitável. Nenhum de nós, se pudesse escolher, escolhia envelhecer. Não é só envelhecer, não são só as rugas, são todos os problemas da idade…

JR - Por isso é que eu acho que a arte é absolutamente fundamental. Não foi à toa que os gregos inventaram os deuses, porque aquilo servia para distrair as pessoas daquilo que vem lá, da morte, do desconhecido. Há pessoas que se refugiam na religião, há pessoas que se refugiam na arte, porque isso ajuda, apazigua a ideia de que todos nós vamos ter um fim e essa clarividência é assustadora. A história do envelhecimento, do começar a ver-me com rugas… imagino que para uma mulher seja mais difícil. Muito sinceramente não penso muito nisso, penso muito mais na questão de perder faculdades, como a memória e o centro de linguagem, que para um ator são essenciais.

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